Kalusha Bwalya: O “Grande Kalu”. Símbolo-mór de Zâmbia!

  • por Rogério Bibiano
  • 6 Anos atrás

Kalusha em ação na CAN-Tunísia/1994.

O ano é 1988 e o cenário desta epopeia são os Jogos Olímpicos de Seul, na Coreia do Sul. Mais uma história da Mama África adentrando na área e viajando no tempo para explicar em tom mais preciso o dia 19/09/1988. Neste dia, o Mundo conheceu o talento de Kalusha Bwalya, zambiano,  nascido em 16/08/1963, na cidade de Mufulira, e que fez um hat-trick ante a Itália (com Stefano Tacconi, Andrea Carnevale, Ciro Ferrara, Mauro Tassotti, Virdis, Evani, Pagliuca e cia.), na vitória por 4 x 0 nos Jogos Olímpicos, numa das maiores atuações individuais de um jogador africano da história. Zâmbia foi eliminada, nas quartas-de-final, pela então Alemanha Ocidental (derrota por 4 x 0), mas o seu nome já estava escrito na história.

A carreira de Kalusha, começou em 1979, atuando pelo clube da sua cidade, o Mufulira Blackpool-ZAM. No ano seguinte, ele transferiu-se para o outro clube local, o Mufulira-ZAM, aonde ficou por cinco anos, conseguindo destacar-se no futebol local e sendo convocado para a Seleção de Zâmbia pela primeira vez em 1983. Em 1985, transferiu-se para o Cercle Brugge-BEL, aonde foi ídolo, tendo tornado-se artilheiro da equipe na sua primeira temporada no clube, além de receber o prêmio de melhor atacante do Campeonato Belga por duas vezes consecutivas. O sucesso no clube belga rendeu a Kalusha, em 1989, uma transferência para o PSV Eindhoven-HOL.

Na equipe holandesa, Kalusha era o chamado “reserva de luxo”, mas, segundo o próprio, isto nunca foi um problema, pois o atacante considerava uma honra estar num grupo com Romário, Gerald Vanenburg, Eric Gerets, Wim Kieft, Hans van Breukelen, entre outros, além de ser treinado pelo inglês Bobby Robson. Apesar de ser reserva e ciente do seu espaço no clube, Kalusha atuou por 101 vezes e marcou 25 gols pelo quadro holandês, no qual sagrou-se campeão nacional nas temporadas de 1990/1991 e 1991/19992.

Em 1994, Kalusha transferiu-se para o futebol mexicano, indo atuar no América da Cidade do México. No clube auri-azul, Kalusha foi ídolo e atuou em 88 jogos, marcando 21 gols. Em 1997, foi para o Necaxa-MEX, onde sofreu com problemas de lesão, atuando apenas em 17 jogos e marcando somente um gol. No ano seguinte, transferiu-se para o Al Wahda-EAU e retornou no mesmo ano para o futebol mexicano, desta vez para atuar pelo León. Em 1999, teve curta passagem no Irapuato-MEX e no mesmo ano foi jogar no Veracruz-MEX. Em 2000, transferiu-se para o Correcaminos-MEX, seu último clube, antes de aposentar-se. No futebol mexicano Kalu sempre foi querido por todos os lugares por onde passou e, segundo o próprio jogador, ele é um “africano com alma mexicana”, tamanho o carinho que o mesmo nutre pelo país azteca. Um dos feitos pessoais de Kalusha atuando em terras mexicanas ocorreu em 1996, quando foi eleito o décimo segundo melhor jogador de futebol do mundo pela Fifa, sendo que ele, Kalusha, foi o único jogador relacionado a estar atuando fora do continente europeu.

Pela Seleção de Zâmbia, Kalu estreou em 1983, num jogo contra o Sudão pelas eliminatórias da Copa Africana das Nações. Em 1986, participou da sua primeira CAN, no Egito. Em 1988, destacou-se nos Jogos Olímpicos de Seul, integrando a seleção da competição. Em 1990 não atuou na CAN disputada na Argélia, devido contusão. Já em 1992, participou da sua segunda CAN, no Senegal, com Zâmbia caindo ante os futuros campeões, Costa do Marfim, nas quartas-de-final daquele torneio (derrota por 1×0). 

Kalusha era o líder e capitão de uma geração talentosa, que prometia muita coisa positiva dentro do futebol africano, mas no dia 27 de abril de 1993, o grande ídolo teve que se deparar com uma tragédia que vitimou toda a delegação de Zâmbia que rumava para Dakar para enfrentar Senegal pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo/EUA-1994, num dos maiores desastres aéreos relacionados com o esporte. O avião zambiano caiu a 500 metros de Libreville, capital do Gabão, após escala rumo ao Senegal e Kalusha só escapou porque o PSV havia feito um acordo com a Associação de Futebol de Zâmbia para que o jogador viajasse direto de Eindhoven para Dakar, onde iria encontrar-se com seus companheiros. 

O atacante foi peça fundamental, por sua liderança, numa seleção totalmente reformulada e que viria a terminar naquelas Eliminatórias, na segunda colocação, apenas um ponto atrás do classificado Marrocos. Em 1994, Kalu estava presente, liderando a seleção nacional no vice-campeonato da CAN, realizada na Tunísia, com a equipe sendo derrotada pela fortíssima Nigéria. Dois anos depois, Zâmbia terminou na terceira colocação da CAN/África do Sul, com Kalusha sendo o artilheiro da competição com cinco gols. 

Sempre com a postura de liderança, Kalusha Bwalya assumiu o comando técnico da Seleção Zambiana em 2003, exercendo a dupla função de treinador e jogador. Em 2004, um momento singelo na carreira do maior jogador de Zâmbia de todos os tempos: durante um jogo das Eliminatórias para a Copa do Mundo/Alemanha-2006, contra a Libéria, o Grande Kalu, então com 41 anos de idade, saiu do banco para dar a vitória à sua seleção e levar uma multidão fanática ao êxtase. Este foi seu 100º jogo e seu 50º gol pela Seleção. Em 2006, após 36 jogos, o atacante saiu do comando técnico da seleção nacional.

Kalusha comemorando a conquista da CAN 2012.

Ídolo maior de Zâmbia e com uma extensa folha de bons serviços prestados ao país, Kalusha saiu de treinador da Seleção, para tornar-se vice-presidente da Associação de Futebol de Zâmbia, cargo que ocupou até 2008, quando então foi aclamado presidente do principal órgão que comanda o futebol no país. A sua gestão é considerada um marco da evolução da atividade esportiva num todo. Kalusha contratou o francês Hervé Renard para dirigir a Seleção, e melhorou a estrutura do selecionado nacional, ofertando tranquilidade para o treinador poder executar um trabalho a longo prazo. O trabalho durante estes quatro anos de administração foi coroado no dia 12 de fevereiro de 2012, quando os “Chimpopolos” conquistaram, no estádio D’Angondjé, em Libreville, no mesmo Gabão, aonde 19 anos atrás Zâmbia e Kalusha haviam tido a sua maior tristeza no futebol, a Copa Africana das Nações, ao vencerem a favorita Costa do Marfim nas penalidades (zero a zero no tempo regulamentar e vitória por 8 x 7, nos pênaltis). Na hora de levantar a taça, o capitão da equipe, Christopher Katongo, chamou Kalusha Bwalya para juntos erguerem o tão sonhado troféu de Campeão Africano de Seleções. 

O ex-atacante é também membro exceutivo de um conselho da CAF, formado por ex-jogadores africanos, visando melhorar o futebol e sua organização no continente. É também responsável pela Fundação Kalusha Bwalya, que visa promover o esporte e a educação, não somente para crianças carentes de Zâmbia, como também inúmeros órfãos, refugiados de países vizinhos, afetados por guerras civis. 

Esse é Kalusha Bwalya, um dos maiores jogadores da África de todos os tempos, craque de bola, não somente dentro de campo, mas especialmente fora das quatro linhas.

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Natural de Telêmaco Borba-PR e criado em meio à "boemia futebolística", com horas de papo sobre futebol, samba e cervejas na pauta. Influência do pai, que também adorava futebol, e da mãe, que sempre apoiou a iniciativa. Técnico em Eletrônica, formado desde 1999, e fanático por futebol, futsal, futebol de praia, society e todo esporte que tenha no futebol a sua essência.

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