Nigéria: os anos de ouro das Super Águias Africanas!

  • por Rogério Bibiano
  • 6 Anos atrás

A coluna  Mama África de hoje, faz uma nostálgica viagem, uma memorável recordação à geração de ouro do Futebol Nigeriano, que entre 1994 e 1998, encantou os amantes do bom futebol, com seu estilo de jogo que envolvia acima do coletivo, muita técnica, habilidade e extremo improviso dos seus jogadores.

Para compreender a Seleção Nigeriana de 1994, é importante, voltar um pouco no tempo, para compreender todo o processo histórico que originou uma das mais talentosas gerações do futebol africano. Em 1989, chega a Abuja, o treinador holandês Clemens Westehof, após a Seleção Nigeriana, haver sido eliminada por Camarões da briga por uma vaga para a fase final da Copa do Mundo-Itália/1990. O treinador holandês, no início do seu trabalho, manteve a aposta nos jogadores experientes.

Em 1990, ainda sem promover uma drástica renovação, a Seleção Nigeriana de futebol foi vice-campeã da CAN, perdendo a final para o país anfitrião daquela edição, Argélia. Um ano depois, Clemens começou a renovar a equipe; nomes como Finidi George, Victor Ikpeba, Mutiu Adepoju, juntavam-se aos experientes Stephen Keshi, Reuben Agboola e Rashid Yekini e após apresentar um belíssimo futebol na CAN do Senegal/1992, os nigerianos perderam nas semifinais para Ghana de Abedi Pele e Antonhy Yeboah, num jogo memorável da história do torneio. O caminho estava traçado.

Com cinco anos a frente da seleção, Clemens Westerhof, tinha um bom relacionamento com dirigentes do futebol local e com os militares que comandam o país, tendo tranquilidade para desenvolver um trabalho que passava pelas seleções de base do futebol local. O auge inicial deste trabalho, foi em outubro de 1993, quando “As Super Águias” conquistaram a tão sonhada e inédita classificação para o Mundial de futebol dos Estados Unidos, contando já com um grupo renovado e eliminando as fortíssimas Costa do Marfim e Argélia, na fase final das citadas eliminatórias.

Classificados para a Copa do Mundo, o objetivo era fazer bonito no primeiro mundial e para isto a CAN-Tunísia/1994 serviria como torneio fundamental na preparação da equipe. No dia 10/04/1994, em Tunis, a Nigéria venceu Zâmbia, 2 x 1, conquistando o seu segundo título africano e consagrando o trabalho do treinador holandês e de um jogador em especial, Rashid Yekini, que aos 30 anos, ganhou a bola de ouro como melhor jogador do torneio e a chuteira de ouro, como artilheiro, com cinco gols.

Seleção Nigeriana na Copa do Mundo dos Estados Unidos 1994.

A Copa do Mundo chegou e a Nigéria fez sua estréia, pelo grupo D, considerado o “grupo da morte”, no dia 21/06/1994, contra a experiente Bulgária, de Hristo Stoichkov, Yordan Letchkov e cia. e com 45 minutos alucinantes os nigerianos fizeram 2 x 0, com Rashid Yekini e Daniel Amokachi; Emmanuel Amunike ainda marcaria mais um, finalizando a Bulgária, 3 x 0. O mundo era apresentado a Nigéria, que na segunda rodada do grupo fez um jogo memorável, sendo derrotada por 2 x 1 pela Argentina de Diego Maradona, Claudio Caniggia e Gabriel Batistuta. Na terceira rodada, um passeio, sobre a lanterna da chave, Grécia, 2 x 0. Com três seleções empatadas com seis pontos, os nigerianos passaram na primeira colocação por terem melhor saldo de gols. Nas oitavas-de-final enfrentariam a tradicional Itália. Iniciaram na frente, com Emmanuel Amunike, colocaram os italianos “na roda”, esbanjaram categoria, perderam gols, brincaram. Porém, contra a Itália, atitudes deste porte, podem ser fatal e no caso foram para as Super Águias, que viram Roberto Baggio empatar aos 43 minutos do segundo tempo e virar para a Azzurra, aos 12 minutos da prorrogação. Os italianos armaram a sua famosa linha defensiva e os nigerianos sem força para reação ficaram pelo caminho, mesmo tendo jogado melhor. A desclassificação na Copa, da maneira como a mesma ocorreu tornou a Nigéria e seus jogadores valorizados e reconhecidos mundo afora, algo então inimaginável no futebol do país.

Ao final de 1994, Clemens Westerhof demitiu-se da Seleção Nigeriana, sendo substituído pelo compatriota Johannes “Jo” Bonfrere, que manteve o mesmo grupo e estreou pela seleção em janeiro de 1995, na Copa das Confederações (que era Copa Rei Fahd, torneio promovido pela família real saudita, que depois viria a ser assumido pela Fifa), na Arábia Saudita, os nigerianos ficaram com a quarta colocação, após perderem a disputa pelo terceiro lugar nos pênaltis, para o México, mas sem perder nenhum jogo daquele torneio. Definitivamente, os nigerianos seguiam fortes no futebol, provando que a Copa do Mundo não era algo do acaso.

Jogadores nigerianos carregam o treinador “Jo” Bonfrere, comemorando a inédita medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atlanta/1996.

Em 1996, a Nigéria vivia um momento político instável, a Fifa e a CAF, pronunciaram-se e os militares não gostaram nenhum pouco disto, fato que fez com que os mesmos anunciassem a retirada da Seleção da CAN-África do Sul/1996 e a oportunidade de defender o título conquistado dois anos atrás. Os nigerianos seguiram fazendo seus amistosos contra seleções de tradição no futebol e entre julho e agosto/1996 participaram das Olimpíadas de Atlanta-EUA. Sem muita badalação, mas com um futebol alegre, não fugindo ao estilo que o mundo já estava acostumado, aparecia aos olhos do mundo uma novíssima geração, que contava com nomes como Celestine Babayaro, Nwankwo Kanu, Tijani Babangida, Garba Lawal, Sunday Oliseh, Taribo West, capitaneados pelo experiente Uche Ukechukwu, com o talento primoroso de Emmanuel Amunike, Jay-Jay Okocha e Daniel Amokachi, os nigerianos chegaram as semifinais contra o Brasil, um sonho para os africanos e num dos jogos mais espetaculares da história, viraram o jogo contra o Brasil para 4 x 3, com o famoso gol de ouro na prorrogação, num jogo que consagrou o talento do então jovem atacante Nwankwo Kanu, que jogava com a camisa número quatro em reverência ao seu ídolo de infância, Stephen Keshi. Na final, outro jogo épico, desta feita sobre a fortíssima Argentina, 3 x 2, com o gol de Emmanuel Amunike, aos 45 minutos do segundo tempo. A Nigéria fazia história, desta feita no cenário mundial, conquistando a primeira medalha de ouro, em esportes coletivos, de um país africano.

Seleção Nigeriana na Copa do Mundo da França 1998.

Entre 1997 e 1998, punida pela CAF devido a desistência da CAN/1996, os nigerianos concentraram-se única e exclusivamente na Copa do Mundo-França/1998, desta feita sob a supervisão do famoso e folclórico Bora Milutinovic no comando; já havia a mescla de jogadores experientes de 1994, com a jovialidade dos destaques olímpicos de 1996, fazendo com que os nigerianos certamente fossem a seleção mais forte do continente africano, confirmando uma esperada classificação para o seu segundo mundial consecutivo. Na França, os nigerianos novamente estavam no conhecido “grupo da morte” e após uma estreia espetacular, com vitória sobre a favorita Espanha, 3 x 2, passaram pelos búlgaros (1 x 0) e se deram ao luxo de jogarem, já classificados, com a equipe reserva contra o Paraguai (derrota por 3 x 1). Tal qual quatro anos atrás, os nigerianos avançavam e bem, à fase de oitavas. Desta vez o adversário era a Dinamarca, que ao contrário dos italianos, tinha pouca tradição em Copas. Mais uma vez, os nigerianos esbanjaram a sua categoria e técnica, mais uma vez, os nigerianos brincaram e mais uma vez os nigerianos ficaram com a sensação do se, em suas mentes. A Dinamarca do jogo objetivo e do talento dos irmãos Brian e Michael Laudrup, atropelou a Nigéria, 4 x 1, para surpresa de muitos aficionados.

Em 2000, a Nigéria em conjunto com Ghana, organizou a CAN, em casa, nigerianos trouxeram de volta Jo Bonfrere, o condutor do ouro olímpico de 1996. Com um time na média dos 25 anos de idade, jogadores experientes e atuando nas principais ligas europeias, a euforia era enorme por todo o país. Uma primeira fase tranquila, em primeiro lugar do grupo e jogando bem; uma vitória épica sobre Senegal na prorrogação (2 x 1) pelas quartas-de-final e uma vitória tranquila sobre a África do Sul (2 x 0) nas semifinais. Tudo apontava para um script perfeito, numa finalíssima ante Camarões em casa. O experiente grupo das Super Águias sentiu a decisão e jogando um futebol irreconhecível saiu atrás de Camarões, que abriu dois gols de vantagem com Samuel Eto’o e Patrick M’Boma.

Seleção Nigeriana, vice-campeã da Copa Africana das Nações Gana/Nigéria 2000.

Empurrados pela fanática torcida, a Nigéria foi buscar o empate, com Raphael Chukwu e Jay-Jay Okocha, num chute espetacular. A decisão foi para as penalidades e após converterem Jay-Jay Okocha e Godwin Okpara, o ídolo Nwankwo Kanu teve seu pênalti defendido pelo goleiro camaronês e na sequência Victor Ikpeba cobrou no travessão, com a bola quicando dentro do gol, mas o arbitro tunisiano Mourad Daami, não validou o gol. Já Camarões perdeu somente uma cobrança, com o saudoso Marc Vivien Foé, sagrando-se campeão na casa nigeriana. A ótima campanha das Super Águias, mais uma vez não confirmava um título e o mundo viria a se despedir ali, naquela disputa, da melhor e mais brilhante geração do Futebol Nigeriano, uma geração que começou em 1993 e teve seu ciclo, de glórias e futebol magistral, findado em 2000, exatos, 7 anos após seu projeto inicial. De lá para cá, o Futebol Nigeriano tem exportado vários jogadores para a Europa, alguns ótimos, outros de qualidade duvidosa, mas o fato é que nunca mais conseguiram emplacar outra seleção igual esta.

Atualmente a Seleção Nigeriana é mera figurante nas Copas e dentro do continente vive uma fase complicada, sem conseguir se impor ante os adversários mais tradicionais e o pior, sofrendo contra seleções que outrora não representavam perigo para as “Super Águias”. Restou a lembrança, de uma geração que jogava bonito e que ficou na memória de todos que assistiram.

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Natural de Telêmaco Borba-PR e criado em meio à "boemia futebolística", com horas de papo sobre futebol, samba e cervejas na pauta. Influência do pai, que também adorava futebol, e da mãe, que sempre apoiou a iniciativa. Técnico em Eletrônica, formado desde 1999, e fanático por futebol, futsal, futebol de praia, society e todo esporte que tenha no futebol a sua essência.

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