O Declínio de Luxemburgo.

  • por Igor Leal da Fonseca
  • 6 Anos atrás

 

19 de Dezembro de 2004, Santos 2 x 1 Vasco. O time paulista fechava o Brasileiro com 89 pontos, 3 a mais que o vice Atlético Paranaense. O Santos podia empatar o jogo contra o Vasco para ser Campeão, mas Luxemburgo era conhecido pela seguinte raciocínio: “entre empatar três partidas ou vencer uma e perder duas, fico com a segunda opção. Empate não mexe com posição de tabela e não é critério de desempate. Vitória é.’’ E foi exatamente por ter mais vitórias que o Atlético Paranaense 26 x 25 que o Santos pôde enfrentar o Vasco pelo empate. Só perderia o Campeonato se perdesse o jogo ou se empatasse e o CAP tirasse 8 gols de diferença no saldo. Chance 0.

Por qual motivo estamos falando isso? Por que esse treinador nunca voltou da Espanha. É conhecida por todos a passagem de Luxemburgo pelo Real Madrid. No começo de Dezembro de 2005, foi dispensado do clube espanhol e acertou com o Santos, para a disputa da temporada no ano de 2006. Começou bem, conquistando o paulista. No Brasileiro, 10 empates e 10 derrotas em 38 jogos. Mais de um turno de jogos sem marcar 3 pontos. Desses 10 empates e 10 derrotas, 8 em cada foram fora de casa. O Santos venceu míseras 3 partidas longe da Vila no Brasileirão 2006. O que chama atenção é que foram os clássicos estaduais. Ou seja, o Santos não venceu fora do estado de São Paulo no Brasileiro de 2006. Terminou em quarto, o que foi considerado muito bom depois do décimo lugar em 2005.

Começa o ano de 2007 e o treinador novamente conquista o paulista. Na Libertadores, eliminação na semifinal, a melhor campanha de uma equipe dirigida por Luxemburgo. Mas o Santos, mostrando mais uma vez a fragilidade do treinador longe da Vila, caiu sem nenhuma vitória em 3 jogos no mata mata (empates contra Caracas e América-MEX, derrota o Grêmio). No Brasileiro, novamente uma campanha recheada de jogos sem vencer. Foram 14 derrotas (mesmo número do Corinthians, que caiu de divisão) e 5 empates. Resultados catastróficos, como a derrota para o lanterna América de Natal – dentro da Vila – para o rebaixado Corinthians e goleadas contra os medianos Sport e Vasco (4 x 1 e 4 x 0, respectivamente). O Santos terminou com o vice, mas 15 pontos atrás do São Paulo. A campanha não convenceu a torcida nem aos dirigentes e em 2008 o treinador rumava para o Palmeiras.

Luxemburgo começou 2008 de volta ao clube que o consagrou, disposto a dar a volta por cima. E chegou ganhando mais um estadual, o primeiro título do Palmeiras desde o Rio-São Paulo de 2000. Na Copa do Brasil, uma eliminação prematura: após empatar por 0 x 0 em casa, o Palmeiras levou 4 x 1 do Sport na Ilha do Retiro e caiu nas oitavas de final. Começa o Brasileiro e novamente um time dirigido por Luxemburgo fica um turno sem vencer (8 empates, 11 derrotas), sendo algumas acachapantes, como 3 x 0 contra o Sport no Palestra, 4 x 1 para o Inter no Beira Rio e 5 x 2 para o Flamengo no Maracanã. Porém, a mais dolorida foi para o Grêmio, faltando 5 rodadas para o fim. A equipe paulista recebeu o Grêmio para um confronto direto, o Palmeiras com 61 pontos (2º) e o Grêmio com 60(3º). O São Paulo era o líder, com 62. O time de Luxemburgo perdeu o jogo, na rodada seguinte tomou 5 x 2 do Flamengo e deu adeus ao título.

Luxemburgo começa 2009 no Palmeiras, para a disputa da Libertadores e sonhando com o tetra campeonato do estadual de São Paulo. Na Libertadores, novamente o fator casa não o ajuda, com a equipe perdendo para o Colo Colo e empatando com o Sport. O Palmeiras consegue duas vitórias contra esses mesmos times fora de casa e avança em segundo no grupo, atrás do Sport. Antes de começar o mata mata da Libertadores, o Palmeiras cai com 2 derrotas para o Santos na semifinal do paulista. Nas oitavas da Libertadores, vence o Sport por 1 x 0 no Palestra Itália e perde pelo mesmo placar fora. Nas penalidades, Marcos brilha e o time avança para as quartas, para enfrentar o Nacional. Os 2 jogos contra os uruguaios terminam empatados e o Palmeiras cai no gol marcado fora de casa. No dia 27/06/09, Luxemburgo anunciava – via blog e twitter – que não era mais treinador do Palmeiras, dizendo que o Palmeiras o havia demitido por quebra de hierarquia, após o treinador ter declarado que Keirrisson não jogaria mais com ele. O Palmeiras de Luxemburgo havia feito 8 jogos no Brasileiro, com 3 vitórias, 4 empates e 1 derrota, novamente sem nenhuma vitória fora de casa. Poucos dias depois, Luxemburgo assume o Santos novamente. Com a nova equipe, Luxemburgo disputou 26 jogos, com 9 vitórias, 9 derrotas e 8 empates. O treinador termina o ano sem emprego, já que Marcelo Teixeira deixava o Santos e o novo presidente – o atual Luís Álvaro – não fazia segredo algum que não manteria o treinador caso ganhasse a eleição, o que acabou se confirmando.

No ano de 2010, Luxemburgo volta a Minas Gerais. Depois de ganhar 3 títulos no ano na sua passagem pelo Cruzeiro, a torcida do Atlético não esperava menos que uma conquista de vaga na Libertadores, de preferência com o título da Copa do Brasil. E a equipe foi bem até Maio, com apenas uma derrota na temporada e a conquista do título mineiro. Mas uma derrota para o Santos nas quartas de final da Copa do Brasil (3 x 1 na Vila) arruinou o ano. No dia 24/9/2010, Luxemburgo é demitido do Atlético Mineiro, após acachapante 5 x 1 contra o Fluminense. O treinador deixou a equipe na zona de rebaixamento, com 6 vitórias, 3 empates e 15 derrotas, sendo 7 delas em casa. Menos de 15 dias depois, assumia o Flamengo, clube do coração. A equipe vinha em momento ruim no Brasileiro e a presidente Patrícia Amorim apostou suas fichas no treinador. O Flamengo terminou o ano uma posição acima da que estava quando Luxemburgo assumiu, tendo o treinador dirigido o time em 11 jogos, com 3 vitórias, 3 derrotas e 5 empates.

Começa 2011 e Luxemburgo ganha Thiago Neves e Ronaldinho Gaúcho como reforços. O treinador dispensa contratações para a zaga e lateral esquerda, setores que apavoravam os torcedores, chegando a declarar que via potencial de “futuros selecionáveis’’ na dupla Wellington – David Braz, sendo o primeiro um dos jogadores mais odiados pela torcida na história recente do clube. O time avança no longo e tedioso Campeonato Carioca, ganhando a Taça Guanabara com 8 vitórias em 9 jogos, sendo o único empate na semifinal contra o Botafogo. Na Taça Rio – returno do estadual – o Flamengo joga o suficiente para se classificar para as semifinais, terminando com 4 vitórias e 4 empates em 8 jogos. Na Copa do Brasil, o primeiro susto: o time empata, em casa, contra o desconhecido Horizonte – CE. Na semifinal do turno, novo empate, dessa vez contra o Fluminense. A classificação para a final vem apenas nas penalidades. No jogo da volta da Copa do Brasil, vitória por 3 x 0 e classificação para as quartas garantida. No fim de semana seguinte, novo empate e nova vitória nas penalidades deram ao Flamengo o título do Campeonato Carioca de forma invicta. Mas havia temores de boa parte da torcida quanto ao nível do futebol apresentado pelo Flamengo e os temores se confirmaram já no jogo seguinte ao título: derrota por 2 x 1 para o Ceará. No jogo da volta, empate em 2 x 2 e eliminação prematura na competição que era o alvo da torcida no primeiro semestre.

Durante o Campeonato Brasileiro, o time do Flamengo tem vários bons momentos, chegando a sonhar com liderança e dando a impressão que brigaria pelo título até o fim do Campeonato. A equipe ficou 16 jogos sem derrota no Brasileiro, mas novamente havia setores da torcida que desconfiavam da performance do time do Flamengo. E mais uma vez as desconfianças se mostraram acertadas: uma derrota por 4 x 1 para o Atlético – GO em casa encerrou a série invicta do time de Luxemburgo no Brasileiro e deu início à outra série: a de jogos sem vencer. A equipe só voltaria a vencer no Brasileiro 10 rodadas depois, contra o América MG. Uma vitória mítica num Fla x Flu deixou o Flamengo apenas quatro pontos atrás do líder, mas novamente um empate em casa – contra o Palmeiras, décimo colocado na época – freou as pretensões do time.

Na rodada seguinte (30ª) o campeonato voltou a ficar ao alcance do Flamengo, mas outro empate – contra o Santos, décimo colocado, também em casa – afastaram o time da ponta. Uma derrota para o Grêmio – que só tinha como motivação para vencer o imbróglio com Ronaldinho Gaúcho – selou de vez a sorte do Flamengo no Brasileiro. O time terminou o Brasileiro com mais empates que vitórias (16 x 15) e 10 pontos atrás do Campeão. Dos 16 empates, 7 foram com mando de campo do Flamengo, sendo apenas 2 em clássicos. O Flamengo terminou o Campeonato sem conseguir vitórias contra clubes como Figueirense, Atlético-GO e Atlético-PR e Bahia, equipes que brigaram pra não cair no Brasileiro. A vaga na Libertadores veio, mas o custo foi alto demais em termos de valores.

Luxemburgo começa 2012 com problemas no Flamengo, como disputas de poder com Ronaldinho, salários atrasados, pouca paciência da torcida, etc. O treinador cai logo após o jogo contra o Potosí, pela pré-Libertadores. Alguns dias depois, assume o Grêmio, para já na sua estreia ser eliminado no primeiro turno do estadual após um empate. No segundo turno, um novo fracasso – dessa vez contra o Internacional – custou ao treinador a chance de disputar a final do Campeonato Gaúcho. Na Copa do Brasil, o Grêmio perdeu por 2 x 0 para o Palmeiras num Olímpico lotado e praticamente deu adeus à Copa do Brasil. No jogo da volta, o empate em 1 x 1 apenas corroborou a eliminação.

Luxemburgo permaneceu no Grêmio para a disputa do Brasileiro, mas novamente resultados ruins em casa custaram ao treinador a chance de sonhar com algo melhor no Brasileiro. Até o momento, o Grêmio disputou 16 jogos como mandante, com 3 empates e 2 derrotas. Se a filosofia antiga do treinador – a que o consagrou como o melhor do país – ainda estivesse em prática, a equipe gaúcha estaria com sua vida mais tranquila no Brasileiro, ao passo que agora está seriamente ameaçada pelo São Paulo e pode acabar na zona da pré-Libertadores, já que a equipe não vence há quatro jogos, com 4 empates seguidos no período.

Ainda vale a pena apostar em Luxemburgo para conquista de título do Campeonato Brasileiro?

Números do treinador desde a sua volta ao Brasil, apenas em Brasileiros*:

253 jogos – 65 empates, 82 derrotas, 106 vitórias, 51.38% de aproveitamento. Nenhum clube conquistou a vaga na Libertadores através do Brasileiro com esse aproveitamento.

*Para efeito de pesquisa, as mudanças de clube durante o Brasileiro foram tratadas da seguinte forma: saída de clube X, contei até o último jogo antes da demissão. Acertou com clube Y, contei do primeiro jogo após o anúncio da data do acerto.

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33 anos, morador do Rio de Janeiro. Rubro Negro de coração, apaixonado pelo Maracanã, tem no Barcelona o exemplo de clube para o que entende como futebol perfeito, dentro e fora do campo. Estudioso da memória do futebol, tem nessa sua área de maior atuação no site, para preservar a memória do esporte. Dedica especial atenção aos times mais alternativos, equipes que tiveram grandes feitos, mas que não são tão lembradas quanto as maiores do mundo. Curte também futebol do centro e do leste da Europa, com uma coluna semanal dedicada ao assunto. Um Doente muito antes de fazer parte desse manicômio, sua primeira memória acadêmica é uma redação sobre o Zico, na qual tirou 10 e a mesma foi para o mural da escola. Nunca trabalhou com futebol dessa forma, mas adora o que faz junto com o restante do pessoal e se pergunta o porquê de não ter começado com isso antes. Espera recuperar o ''tempo perdido''. Acha Lionel Messi o melhor que viu jogar e tem em Zico, Petkovic e Ronaldo Angelim como heróis.