O Fluminense dos sócios.

  • por Igor Leal da Fonseca
  • 8 Anos atrás

7 de Julho de 1912, Laranjeiras. Fluminense 3×2 Flamengo. O primeiro Fla x Flu da História daria a tônica do confronto pro resto da vida. As diferenças eram enormes, facilmente notáveis por qualquer pessoa, mesmo por uma que não goste de futebol ou conheça os clubes.

Nos anos seguintes, as equipes se tornaram ainda mais antagônicas, especialmente no quesito torcida. O Flamengo avançava pelo Brasil inteiro, especialmente pelas áreas mais carentes. O Fluminense permanecia sendo o clube elitizado, com seus principais nomes oriundos de famílias ricas e nobres da cidade do Rio de Janeiro. Como brilhantemente definiu Mário Filho, “o Flamengo se tornou o clube mais amado do Brasil porque se deixa amar à vontade”.Mário Filho – nome oficial do Maracanã – era irmão de ninguém mais ninguém menos que Nélson Rodrigues. As diferenças eram assim, irreconciliáveis. Fla x Flu separava família.

Os anos foram passando e as diferenças se mantinham lá, visíveis, para qualquer um que tenha ido a um clássico no Maracanã. Na entrada da UERJ, pessoas chegando de carro, cantorias tímidas, poucos tumultos, camisas do clube bem cuidadas, usadas mais como adereço que como definição de lado na guerra que duraria pouco mais de 90 minutos.

Pela entrada do Maracanã, a horda Rubro-Negra chegando de trem, com seus gritos de guerra, sangue quente, coração pulsando e a camisa, ainda que rasgada e suja, servindo como forma de reconhecimento de outros soldados para a luta que se iniciaria. Pro Rubro-Negro, a camisa do clube sempre foi a coisa mais importante do mundo, a “Bastilha Inexpugnável”, que um dia o tricolor Nélson Rodrigues reverenciou.

Mas 2012 é o ano das coisas estranhas e nesse fim de semana aconteceu mais uma. O Flamengo está em período eleitoral, um turbilhão político, se fechando cada vez mais e impedindo a torcida de fazer valer sua vontade.

Pelo lado tricolor, um passo importantíssimo para a história do clube foi dado ontem: o Fluminense, clube historicamente fechado no seu mundo da zona sul, abriu suas portas para torcedores menos abastados e criou a categoria de sócio do futebol. O associado pagará R$ 30,00 e terá direito a votar na eleição para presidente do clube, além de desconto nos ingressos, plano de vantagens, participação em eventos no clube, etc.

Os clubes mais antagônicos do Rio de Janeiro mais uma vez seguem caminhos diferentes. O antes fechado e elitista abre as portas para sua torcida e pavimenta, de forma irrevogável, o caminho para a democratização. O antes mais democrático e “Mais Querido” se fecha cada vez mais e, ano após ano, vai diminuindo e colocando empecilhos na participação da torcida.

Tudo obra de Peter Eduardo Siemsen, atual presidente do clube. Era um simples torcedor que frequentava o Maracanã e um dia, cansado das mazelas que assolavam seu clube de coração, decidiu sair da arquibancada e adentrar às Laranjeiras. No Rubro-Negro, quem tentou fazer isso foi impedido esse ano. Abrir o clube para a torcida é algo impensável para o Flamengo atual. A desculpa de sempre era “não temos estádio próprio para fazer sócio do futebol”. O Fluminense também não tem e fez mesmo assim.

O problema não está em ter ou não estádio. É ter ou não vontade de fazer. O Fluminense teve, o Flamengo não. Para tristeza de milhões de Rubro-Negros e a alegria de milhões de Tricolores, o Flamengo copiou a característica mais execrável da instituição Fluminense, que copiou a característica mais louvável da instituição Flamengo.

2012 é realmente um ano muito estranho. Que acabe o quanto antes.

O autor é Rubro-Negro e noivo de uma torcedora do Fluminense.

Comentários

33 anos, morador do Rio de Janeiro. Rubro Negro de coração, apaixonado pelo Maracanã, tem no Barcelona o exemplo de clube para o que entende como futebol perfeito, dentro e fora do campo. Estudioso da memória do futebol, tem nessa sua área de maior atuação no site, para preservar a memória do esporte. Dedica especial atenção aos times mais alternativos, equipes que tiveram grandes feitos, mas que não são tão lembradas quanto as maiores do mundo. Curte também futebol do centro e do leste da Europa, com uma coluna semanal dedicada ao assunto. Um Doente muito antes de fazer parte desse manicômio, sua primeira memória acadêmica é uma redação sobre o Zico, na qual tirou 10 e a mesma foi para o mural da escola. Nunca trabalhou com futebol dessa forma, mas adora o que faz junto com o restante do pessoal e se pergunta o porquê de não ter começado com isso antes. Espera recuperar o ''tempo perdido''. Acha Lionel Messi o melhor que viu jogar e tem em Zico, Petkovic e Ronaldo Angelim como heróis.