O retorno da Família Scolari

  • por Victor Gandra Quintas
  • 8 Anos atrás

Foto: AFP – Scolari assume novamente a Seleção Brasileira.

Luiz Felipe Scolari, o Felipão, foi anunciado pelo presidente da CBF como substituto de Mano Menezes no comando técnico da Seleção Brasileira. Para alguns é um retrocesso, para outros é a garantia de experiência para um torneio de extrema grandeza e importância.

Ninguém morre de amores por ele, não era o mais desejado pela torcida, mas entre todas as opções de brasileiros, seu nome era o mais indicado para o cargo, principalmente se levarmos em conta a mídia esportiva. Vinha de um trabalho entre fraco e ruim no Palmeiras. A conquista da Copa do Brasil em 2012, título que levou o time verde de São Paulo para a Copa Libertadores da América de 2013, pouco clareia a manchada segunda passagem do experiente treinador pelo clube. Cheio de erros, seu trabalho estava fadado desde o início ao rebaixamento, muito devido às suas escolhas inusitadas – se não estranhas – seu autoritarismo, a dependência de jogadores em final de carreira e de apenas um esquema tático, sem atualização do modo de jogar futebol.

Mas então, depois do fracasso palmeirense, porque Felipão seria o favorito ao cargo de treinador? Simples: seu título da Copa do Mundo de 2002.

Naquela época, como agora, Luiz Felipe chegou como um possível tampão após a saída conturbada de outro treinador, no caso Vanderlei Luxemburgo. Claro, Emerson Leão chegou a treinar a Seleção neste meio tempo, mas foi apenas uma transição para o favorito da CBF (e da torcida brasileira) assumir a posição. Faltavam por volta de 11 meses para o Mundial, cinco a menos do que agora, mas Felipão conseguiu dar rumo ao time, mudou drasticamente o esquema tático, onde priorizava a defesa, já que esta passava por uma situação até constrangedora, e se classificou nas eliminatórias após grande dificuldade (graças aos dois gols de Luizão na última partida, na vitória por 3×0 contra a fraca Venezuela).

Sua convocatória para aquela Copa foi deveras conturbada, apoiando-se em revelações do futebol brasileiro, como Gilberto Silva e Kléberson, e alguns medalhões como Ronaldo e Rivaldo. Mas esta fase ficou marcada sobretudo pela não convocação do baixinho Romário, que grande parte da mídia e do povo brasileiro queria ver naquele time, e acreditava que sem ele o Brasil pouco conseguiria.

Contradizendo a opinião da maioria, a Seleção, dependendo do brilhantismo dos “R’s”, Rivaldo, Ronaldinho e Ronaldo, além de um goleiro Marcos em boa forma e uma defesa sólida montada no esquema de 5-3-2 (ou 5-2-3 em alguns casos), acabou por levar o título de forma heroica, consolidando Felipão como um dos maiores nomes entre os treinadores brasileiros.

Mas ainda antes de 2002, Luiz Felipe colecionava bons trabalhos, já possuía um currículo invejável, com duas Copas Libertadores da América conquistadas, uma em 1995 (Grêmio) e outra em 1999 (Palmeiras), mais o Campeonato Brasileiro de 1996 (Grêmio), e as Copas do Brasil de 1991 (Criciúma), 1994 (Grêmio) e 1998 (Palmeiras). Além disso, uma boa passagem pelo Cruzeiro, onde foi semifinalista da Copa João Havelange de 2000, último trabalho antes de assumir o comando da Seleção do Brasil.

Após o título do Mundial, Felipão deixou o cargo de técnico do selecionado brasileiro e aceitou assumir a Seleção de Portugal. Nos quase seis anos que lá permaneceu, montou uma equipe digna das maiores da história do país, sendo finalista da Eurocopa de 2004, jogando em casa, e semifinalista na Copa do Mundo seguinte, em 2006, disputada na Alemanha, feito antes ocorrido somente em 1966. Em alta, foi para o Chelsea, onde teve seu primeiro grande fracasso na carreira, não se adaptando ao futebol inglês, e tendo dificuldades de relacionamento com os medalhões da equipe londrina.

Acabou indo parar no Uzbequistão, no clube que seu ex-comandado de Seleção e amigo Rivaldo atuava, o Bunyodkor. Foi uma transferência inusitada, mas segundo algumas notícias da imprensa em geral, justificada pelos montantes envolvidos. Depois disso, resolveu voltar ao seu país e assumir um clube brasileiro. Seu destino foi o Palmeiras, clube com o qual se identificava, principalmente pelos títulos que outrora conquistou. E como já falado, foi sua derrocada como treinador.

Muitos consideram Felipão um treinador ultrapassado, sem muito conhecimento tático, que se baseia na vontade, mas consegue tirar o máximo de seus jogadores. Tem o gênio forte, bastante enérgico, muitos que já passaram pelo seu comando dizem não querer voltar pela forma como tende a lidar com os profissionais.

No entanto, em vista da atual fase do futebol brasileiro, seu retorno pode ser positivo em um momento que a Seleção ainda não possui um time certo, repleto de dúvidas deixadas por Mano Menezes. Seria ainda uma boa pedida a volta do seu esquema de 2002, já que a seleção enfrenta os mesmo problemas daquela época, uma defesa pouco confiável, com jogadores irregulares, mas um ataque de mais qualidade, onde sua maior estrela da atualidade atua.

E pessoalmente, para o treinador, seria sua chance de se reerguer e voltar ao topo. Feliz ele está, como mostrou ao jornal português Record: “É um sonho tornado realidade. O momento mais alto da minha carreira como treinador foi em 2002. É o reconhecimento de um trabalho vitorioso que já foi feito e que quero repetir.”

Portanto, a família Scolari está de volta, fortalecida com o também acerto de Carlos Alberto Parreira como Coordenador Técnico, um apoio para quem aprova um comando com bagagem internacional (Parreira foi o treinador na conquista do Tetracampeonato Mundial em 1994). Haverá novos membros, é verdade, e provavelmente alguns antigos também retornarão, já que contam com a confiança de seu patriarca. Resta saber o que o destino reserva para 2014.

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Natural de Belo Horizonte. Torcedor do Cruzeiro e da Juventus. Um Doente por Futebol. Desde pequeno um apreciador do esporte mais popular do mundo, preferindo mais em acompanhar do que jogar (principalmente por não ter talento algum com a bola).