O Valencia de Héctor Cúper, Parte 2

  • por Igor Leal da Fonseca
  • 8 Anos atrás

Ontem falamos do Valencia durante a temporada 1999/00. Hoje falaremos da temporada 2000/01.

Se por um lado a equipe perdeu Claudio ‘’El Piojo’’ López para a Lazio, por outro ganhou os experientes Ayala, Deschamps, Vicente e Carew – todos chegaram ao clube com status de titulares – as promessas Pablo Aimar e Fábio Aurélio e o polivalente Zahovic. Mas a grande ‘’contratação’’ foi a manutenção de Mendieta para mais uma temporada.

A temporada começou com um adversário fraco pela frente, o Tirol Innsbruck-AUT, em confronto válido pela última fase de qualificação da Champions. E o Valencia aplicou 4×1 no agregado, sem maiores sustos. Na Liga BBVA, uma estreia de peso: o Real Madrid, no Santiago Bernabéu. E para mostrar que a equipe da temporada anterior não era fogo de palha, jogo duríssimo, com o time de Cúper abrindo o placar faltando menos de 15 minutos para o fim do jogo e tomando a virada no final. Na Champions, o Valencia caiu no grupo de Lyon, Olympiakos e Heerenven, bem diferente do grupo da temporada anterior.

Depois da derrota para o Real Madrid, o time enfileirou seis jogos sem derrota, com cinco vitórias e um empate, se mantendo no topo da tabela. Na Champions, tudo caminhando perfeitamente, com três vitórias em três jogos. Na abertura do returno da fase de grupos na Champions, nova vitória, 2×1 sobre o Lyon, fora de casa. A equipe chegava aos 12 pontos, contra 6 de Olympiacos e Lyon, garantindo sua vaga na segunda fase. Pelo espanhol, empates contra Rayo Vallecano, Alavés, Valladolid e Bilbao deixaram a equipe em situação complicada na luta pelo título. Na sequência, a equipe ainda perdeu os dois últimos jogos da primeira fase de grupos da Champions.

Na segunda fase de grupos, o Valencia teria pela frente o Manchester United-ING, o Sturm Graz-AUT e o Panathinaikos-GRE. Longe de ser um grupo complicado. Nas duas primeiras rodadas, o Valencia fez quatro pontos, contra seis do Manchester. No espanhol, a equipe não emplacava, sofrendo seguidas derrotas para Deportivo, Barcelona e Madrid, mantendo-se longe da disputa pelo título. A esperança estava na Champions, e a equipe passou pela segunda fase de grupos em primeiro lugar, sem derrotas.

Nas quartas-de-final, outro grande desafio de peso no caminho do Valencia de Cúper: o Arsenal, dos franceses Vieira, Henry, Pirès, e do holandês Bergkamp, equipe que começava a encantar a Europa e que brigava ponto a ponto pelo título inglês contra o Manchester United. No jogo de ida, o Valencia abriu o placar com Ayala, mas Henry e Parlour viraram para os Gunners. No jogo da volta, 48 mil torcedores lotaram o Mestalla para empurrar o Valencia rumo à vitória, que seria conquistada com um gol de Carew aos 76 minutos de jogo. O Valencia estava na semifinal. Na Espanha, as coisas mantinham-se da mesma forma, a equipe não conseguia uma sequência de vitórias, para se manter de forma tranquila entre os quatro primeiros colocados.

Na semifinal, mais um inglês no caminho do Valencia: o surpreendente Leeds United, que tinha despachado Barcelona, Lazio e La Coruña, então campeão espanhol. No jogo de ida, disputado na Inglaterra, 0x0 no placar. Na volta, 53 mil pessoas compareceram ao Mestalla para ver Juan Sánchez (duaz vezes) e Mendieta fazerem os gols da vitória por 3×0 e garantirem a vaga na final.

23 de Maio de 2001, San Siro. Valencia e Bayern entravam em campo para a disputa da final do maior torneio de clubes do mundo. O Bayern, que não conquistava o título desde 1976, perseguia o tetracampeonato desde a inacreditável final perdida para o Manchester United dois anos antes. O Valencia, mais experiente e rodado em relação ao ano anterior, buscava seu primeiro título. Mas não teria um dos expoentes dessa experiência: Deschamps não estava entre os titulares, pois como não estava em condições físicas ideais, Cúper decidiu não escalá-lo e obrigatoriamente ter que gastar uma alteração durante o jogo. O Bayern tinha força máxima para o jogo e confiava na solidez de seu sistema defensivo e nos gols do brasileiro Élber para garantir o título.

A bola rola e logo o Valencia teve uma penalidade assinalada a seu favor. Mendieta cobrou e fez 1×0, logo aos três minutos de jogo. Pouco depois, o francês Angloma fez penalty em Effenberg, mas Cañizares defendeu com as pernas a cobrança de Scholl. O primeiro tempo terminou 1×0 para o Valencia. Na volta do intervalo, Cúper sacou Aimar para colocar Albelda, e Hitzfeld tirou o lateral Sagnol para colocar o centro avante Jancker em campo. E o ofensivismo do treinador alemão foi premiado logo aos 5 minutos do segundo tempo: em disputa com Jancker, Carboni colocou a mão na bola dentro da área. Pênalti que Effenberg cobrou para empatar o jogo. Não houve mais alterações no placar durante o tempo normal e a prorrogação.

Nas penalidades, o Bayern começou cobrando, com o brasileiro Paulo Sérgio chutando por cima do travessão. Nas quatro cobranças seguintes, quatro gols: Mendieta e Carew pelo Valencia, Salihamidzic e Zickler pelo Bayern. Na terceira cobrança do Valencia, Kahn pegou chute de Zahovic e o Bayern perdeu mais um, com o zagueiro Andersson. Em seguida, Kahn brilhou novamente, após desviar a cobrança de Carboni, que explodiu no travessão e não entrou. Quatro penais cobrados para cada lado, 2×2 no placar. Nas 5 cobranças seguintes, Effenberg, Lizarazu e Linke marcam para os alemães e Baraja e Killy González para os espanhóis. 5×4 para o Bayern e a bola estava nas mãos do argentino Pellegrino, que precisava confirmar a cobrança para empatar a disputa. Mas Kahn brilhou novamente, fez sua terceira defesa na disputa e o Bayern conquistou o tetra da Champions League.

O Valencia saiu de campo arrasado pela forma como foi derrotado, mas ainda tinha uma reta final de Liga BBVA para disputar, visando voltar à Champions na próxima temporada. Mas os deuses do futebol ainda tinham mais uma crueldade para aprontar com aquela equipe.

Após ficar quatro jogos sem vencer na reta final da Liga BBVA, o Valencia foi ao Camp Nou para enfrentar o Barcelona precisando apenas de um empate para ir à Champions e impedir a ida do clube catalão. Mas logo aos quatro minutos de jogo, Rivaldo cobrou falta com perfeição e abriu o placar. Baraja empatou para o Valencia, mas nos acréscimos do primeiro tempo Rivaldo fez grande jogada, se livrou do marcador e soltou a bomba de fora da área. Bola no canto inferior direito de Cañizares, festa no Camp Nou. Mas a festa tomou ares de tragédia quando Baraja – novamente ele – empatou o jogo, logo aos dois minutos do 2º tempo. Um Camp Nou lotado pulsava, empurrando a mediana equipe catalã comandada por Van Gaal, mas nada do gol da vitória e da classificação para a Champions sair. O Barcelona martelava, pressionava, mas parecia que os deuses do futebol estavam cansados de tripudiar da equipe do Valencia e o 2×2 permanecia no placar.

Porém, faltando apenas 1 minuto e 30 segundos para o fim do tempo regulamentar, Frank de Boer levantou a bola no peito de Rivaldo. O brasileiro estava na risca da grande área, de costas para o gol do Valencia, cercado por 3 jogadores. Rivaldo estufou o peito, a bola subiu e ficou na altura certa para a bicicleta, que entrou no canto inferior esquerdo de Cañizares. Redenção do brasileiro vestindo a camisa do Barcelona, (mais um) momento de tristeza para o Valencia. O time terminou a Liga com os mesmos 63 pontos do Barcelona, mas perdeu a vaga para a Champions no confronto direto. Cúper deixou a equipe e rumou para a Internazionale e Rafa Benítez assumiu o Valencia. O espanhol aproveitaria o bom trabalho do argentino e já na temporada seguinte o Valencia conquistaria o título espanhol, que não vinha desde a temporada 1970/71. Mas isso é outra história…

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33 anos, morador do Rio de Janeiro. Rubro Negro de coração, apaixonado pelo Maracanã, tem no Barcelona o exemplo de clube para o que entende como futebol perfeito, dentro e fora do campo. Estudioso da memória do futebol, tem nessa sua área de maior atuação no site, para preservar a memória do esporte. Dedica especial atenção aos times mais alternativos, equipes que tiveram grandes feitos, mas que não são tão lembradas quanto as maiores do mundo. Curte também futebol do centro e do leste da Europa, com uma coluna semanal dedicada ao assunto. Um Doente muito antes de fazer parte desse manicômio, sua primeira memória acadêmica é uma redação sobre o Zico, na qual tirou 10 e a mesma foi para o mural da escola. Nunca trabalhou com futebol dessa forma, mas adora o que faz junto com o restante do pessoal e se pergunta o porquê de não ter começado com isso antes. Espera recuperar o ''tempo perdido''. Acha Lionel Messi o melhor que viu jogar e tem em Zico, Petkovic e Ronaldo Angelim como heróis.