O velado preconceito contra treinadores negros no Brasil

  • por Igor Leal da Fonseca
  • 8 Anos atrás

Andrade

Nesse dia da Consciência Negra, poderíamos louvar o Rei Pelé, o maior jogador de futebol da história. Ou poderíamos falar de Leônidas da Silva, ‘’o Diamante Negro’’, um dos maiores atacantes da história do futebol mundial. Ou de Zizinho, ídolo do Rei. Ou de Didi, um dos maiores meias da história. Ou de Jairzinho Furacão, um dos3 jogadores a fazer pelo menos um gol em todos os jogos de uma Copa do Mundo. Ou de Domingos da Guia, considerado um dos maiores defensores da história. Ou de Barbosa, referência na posição de goleiro por anos, injustamente crucificado pela derrota de 50. Tantos e tantos jogadores negros que foram, cada um na sua época, responsáveis por vários momentos de alegria do povo brasileiro.

Mas nosso foco será outro. Nosso foco será a ausência de treinadores negros comandando times grandes no Brasil e a Seleção Brasileira em Copas do Mundo. Começamos pelo Brasileiro de 1971.

1971 – Atlético MG Campeão. Treinado por Telê Santana.
1972 e 73 – Palmeiras. Treinado por Osvaldo Brandão
1974 – Vasco. Treinado por Mário Travaglini
1975 e 76 – Internacional. Treinado por Rubens Minelli
1977 – São Paulo. Treinado por Rubens Minelli
1978 – Guarani. Treinado por Carlos Alberto Silva
1979 – Internacional. Treinado por Ênio Andrade
1980 – Flamengo. Treinado por Cláudio Coutinho
1981 – Grêmio. Treinado por Ênio Andrade
1982 – Flamengo. Treinado por Carpegiani
1983 – Flamengo. Treinado por Carlos Alberto Torres
1984 – Fluminense. Treinado por Carlos Alberto Parreira
1985 – Coritiba. Treinado por Ênio Andrade
1986 – São Paulo. Treinado por Pepe
1987 – Flamengo. Treinado por Carlinhos
1988 – Bahia. Treinado por Evaristo de Macedo
1989 – Vasco. Treinado por Nelsinho Rosa
1990 – Corinthians. Treinado por Nelsinho Baptista
1991 – São Paulo. Treinado por Telê Santana
1992 – Flamengo. Treinado por Carlinhos
1993 e 94 – Palmeiras. Treinado por Luxemburgo
1995 – Botafogo. Treinado por Autuori
1996 – Grêmio. Treinado por Felipão
1997 – Vasco. Treinado por Antônio Lopes
1998 – Corinthians. Treinado por Luxemburgo
1999 – Corinthias. Treinado por Osvaldo de Oliveira
2000 – Vasco. Treinado por Osvaldo de Oliveira (disputou a semi final e a decisão)
2001 – Atlético PR – Treinado por Geninho
2002 – Santos. Treinado por Leão
2003 – Cruzeiro. Treinado por Luxemburgo
2004 – Santos. Treinado por Luxemburgo
2005 – Corinthians. Treinado por Antônio Lopes
2006, 07 e 08 – São Paulo. Treinado por Muricy
2009 – Flamengo. Treinado por Andrade
2010 – Fluminense. Treinado por Muricy
2011 – Corinthians. Treinado por Tite
2012 – Fluminense. Treinado por Abel

Arte: Doentes por Futebol | Andrade, único negro campeão brasileiro como treinador.

Peguem os nomes, joguem no Google e constatem: Andrade é o único negro da lista. E o único que mesmo após ganhar um Brasileiro, nunca mais recebeu oportunidade em clube grande, nem mesmo em time médio de Série A. Saiu de um título Brasileiro para o completo ostracismo.

Enquanto isso, treinadores como Leão e Geninho vivem até hoje de títulos conquistados há 10 anos. Autuori vive de um título no Botafogo em 95, uma Libertadores em 97 e uma campanha de reta final de Libertadores em 2005. E sempre está sendo cogitado para assumir grandes times, mesmo com o fracasso absoluto nas suas 2 últimas passagens pelo Brasil.

Cristóvão Borges levou o Vasco a um patamar que nem o mais otimista dos vascaínos acreditava. Teve seu time desmontado, manteve-se entre os 4 melhores, foi vaiado, xingado e finalmente despedido, o Vasco despencou na tabela após a saída dele e ele está no ostracismo, não se fala mais em Cristóvão Borges. (Atualização em 20/11/2014): Cristóvão treina atualmente o Fluminense, é um dos poucos treinadores negros, senão o único, a treinar um time de ponta do futebol brasileiro.

O país da diversidade racial, da mistura, da maior população de negros da América Latina, dos craques negros que fizeram a história da maior Seleção do Mundo, ainda carrega racismo e preconceito na hora de dar oportunidades iguais aos treinadores que trabalham em clubes brasileiros. E a situação é ainda pior na Seleção Brasileira: o último negro a dirigir a equipe foi Gentil Cardoso, em 1959. Dirigiu a Seleção por 5 jogos, perdeu 2, ganhou 3 e saiu do comando da equipe. Pra quem nunca ouviu falar, Gentil foi o primeiro treinador profissional de Garrincha, treinador que viu a joia que tinha nas mãos, mesmo com as pernas tortas e joelhos problemáticos. Devemos a ele uma Copa do Mundo.

Infelizmente há um velado preconceito contra treinadores negros no Brasil, fica aqui a reflexão.

p.s. Caso tenham dúvidas quanto aos nomes dos treinadores da Seleção nos últimos 53 anos, clique aqui para ver a lista.

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33 anos, morador do Rio de Janeiro. Rubro Negro de coração, apaixonado pelo Maracanã, tem no Barcelona o exemplo de clube para o que entende como futebol perfeito, dentro e fora do campo. Estudioso da memória do futebol, tem nessa sua área de maior atuação no site, para preservar a memória do esporte. Dedica especial atenção aos times mais alternativos, equipes que tiveram grandes feitos, mas que não são tão lembradas quanto as maiores do mundo. Curte também futebol do centro e do leste da Europa, com uma coluna semanal dedicada ao assunto. Um Doente muito antes de fazer parte desse manicômio, sua primeira memória acadêmica é uma redação sobre o Zico, na qual tirou 10 e a mesma foi para o mural da escola. Nunca trabalhou com futebol dessa forma, mas adora o que faz junto com o restante do pessoal e se pergunta o porquê de não ter começado com isso antes. Espera recuperar o ''tempo perdido''. Acha Lionel Messi o melhor que viu jogar e tem em Zico, Petkovic e Ronaldo Angelim como heróis.