Quando o improvável dá as caras


No dia 5 de outubro, após a acachapante derrota sofrida pelo Sport diante da Portuguesa por 5×1, fiz aqui uma análise escatológica da situação do clube no Brasileirão. O cenário, com a 28ª rodada terminada, era de terra arrasada: o esboço de reação manifestado pelo Leão fora duramente golpeado pela goleada sofrida. O parágrafo final do texto:

Ainda faltam dez jogos para o término do campeonato e, seguindo a média das últimas edições do Brasileirão, 45 pontos são suficientes para salvar qualquer time da degola. Para o Leão da Ilha do Retiro, isso se traduz em seis vitórias. Não seria nada do outro mundo para um time competitivo e brioso, o que não é o caso do Sport: absolutamente nada leva a crer que o clube terá forças para escapar da volta à Segundona. Evidentemente, no futebol, o improvável às vezes dá as caras. Mas depois do milagroso acesso do ano passado, é difícil acreditar que a sorte bata duas vezes à porta. Ela não seria tão generosa diante de tanta incompetência.

Ainda bem que deixei aberta a porta para o improvável. Pois a vertiginosa subida de produção do Sport é um fenômeno insólito e difícil de explicar. A matemática tenta: a 12 de outubro – portanto, no dia seguinte à derrota do rubro-negro para o Grêmio, em casa, por 3×1 – o matemático Tristão Garcia afirmou que as chances de rebaixamento do Leão eram de 90% (ver: http://goo.gl/28QC4). Hoje, o percentual caiu para 61,5% (http://goo.gl/TrSdx). Mas a fração crua não é suficiente para se entender os fatores que levaram o Sport, de virtual rebaixado, à possibilidade cada vez mais concreta de uma outrora improvável salvação.

Antes de mais nada, é necessário elogiar a decisão da diretoria rubro-negra de demitir Waldemar Lemos – ainda que seja difícil saber se foi algum senso de estratégia ou o puro desespero a motivar a atitude. Waldemar assumiu o clube em um momento bastante crítico, e conseguiu lá seus resultados. Porém, era nítida a falta de alternativas do time dentro de campo. Aparentemente, o treinador – conhecido como exímio motivador – “fechou” com seus onze titulares e garantiu alguns resultados com base nessa confiança adquirida. No entanto, as duras derrotas contra Corinthians e Lusa esgotaram seu pacto com os atletas. Há que se reconhecer seus méritos: foi sob seu comando que algumas peças passaram a render mais, e seu meio-campo de muita força e disposição (Tobi, Rithelly, Moacir e Hugo) garantiu alguns pontos preciosos ao clube pernambucano. Mas a substituição no comando técnico parece ter dado novo ânimo ao elenco. A melhora, porém, não deve ser atribuída somente a fatores motivacionais: é dentro do campo que o Sport apresenta mais claramente sua evolução.

Se antes havia entrega de sobra mas faltava qualidade tanto na marcação quanto na concretização das chances de gol, o Sport de Sérgio Guedes apresenta ao torcedor rubro-negro o que ele não pôde ver o ano inteiro: um time com padrão tático e uma proposta de jogo, que busca marcar o adversário no campo de ataque e, consequentemente, disfarçar um pouco as limitações dos jogadores de defesa. Além disso, o Leão passou a usar de uma arma que estava esquecida até a chegada do ‘McGyver’: a bola parada. Nas últimas partidas, o time tem criado mais chances, inclusive em escanteios e faltas laterais. Se várias oportunidades ainda são desperdiçadas, ao menos o time agora consegue ser menos ameaçado. A sequência dos resultados recentes já é uma das melhores da história recente do Sport: são quatro vitórias e um empate nos últimos oito jogos, um desempenho que, aliado a um vacilo da Portuguesa em algum dos dois jogos restantes, pode assegurar o Leão na Série A de 2013.

Enquanto na Ilha do Retiro o clima é de empolgação e esperança, na Conselheiro Rosa e Silva o sinal amarelo está aceso. O Náutico, que vem apresentando um ótimo futebol desde o início do campeonato, está pagando agora pelo desempenho irregular nas partidas fora de casa. No Estádio dos Aflitos, o Timbu foi avassalador: tem apenas três derrotas em 18 jogos. Em seus domínios, o time alvirrubro geralmente se comporta de forma insinuante, parte para cima e tem peças capazes de decidir. Jogadores como Elicarlos, Souza, Martinez, Rhayner e Kieza têm sido destaques não só do clube, mas do campeonato como um todo. No entanto, mesmo a ótima campanha em casa e os 45 pontos conquistados podem não ser suficientes para garantir ao Náutico a permanência na elite do futebol brasileiro.

Apesar do bom jogo coletivo, o Náutico não tem sido capaz de pontuar quando viaja: é a pior campanha fora de casa dentre todos os times da Série A. Os melhores resultados obtidos foram uma vitória por 1×0 contra o lanterna Atlético-GO e três empates por 0x0. Essa dificuldade em somar pontos longe de casa faz com que o Náutico, que sem dúvida foi a principal surpresa do campeonato dentro de campo, ainda precise torcer por resultados favoráveis para se manter na Primeira Divisão. Qualquer tropeço de Portuguesa ou Sport pode garantir automaticamente a vaga, e um ponto conquistado pode levar o time de volta à briga pela Sulamericana. Para isso, o Timbu tem duas alternativas: ou quebra o estigma de “caseiro” e pontua contra o Bahia, na próxima rodada, ou aposta em sua torcida para vencer um clássico que tem tudo pra ser o mais disputado dos últimos tempos, caso os dois clubes cheguem à rodada final ainda em situação indefinida.

PAU DE ARARA

– O Santa Cruz passa por um processo eleitoral acirrado: o embate entre Antônio Luiz Neto, que tenta a reeleição, e Joaquim Bezerra. Em jogo, a continuidade da gestão que deu ao Tricolor um bicampeonato pernambucano e o acesso à Série C no ano passado.

– Sidney, que comandou o Boa Esporte durante a Série B pode ser o novo treinador tricolor. O ex-volante com passagens por Sport, São Paulo e Fluminense confirmou ter recebido uma sondagem da diretoria coral. Outros nomes especulados são os de Marcelo Martelotte e Leandro Campos, que treinou o Joinville na Série B. Por outro lado, o treinador Waldemar Lemos (ex-Náutico e Sport) almoçou com a chapa de oposição e é cotado para assumir o time em caso de vitória de Joaquim Bezerra no bate-chapa.

– O atacante Warley, “cigano” que já passou por vários grandes clubes e até pela seleção, acertou com o Botafogo/PB para a próxima temporada.  O clube acertou também as contratações do meia Fábio Neves e do atacante Wanderley.

– No Maranhão, ocorrerá um amistoso entre o Moto Clube e o Ceará. O jogo servirá para saldar as dívidas do clube maranhense, que não paga os salários dos jogadores há nove meses. A partida contará com uma presença ilustre: em busca do seu milésimo gol, o atacante Túlio Maravilha jogará pelo time motense.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.

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