Sir Matt Busby, “Mr. Manchester United”

  • por Lucas Amaral Nunes
  • 7 Anos atrás

 

Quando Matt Busby ouviu as palavras “falha” e “técnica” em seqüência, por duas vezes consecutivas, sabia que havia algo de errado. O capitão James Thain acabava de abortar, pela segunda vez, a decolagem do vôo que levaria o time do Manchester United a Belgrado, na Sérvia, onde enfrentaria o Estrela Vermelha pela semifinais da Copa Europeia, hoje Liga dos Campeões. Se passava o ano de 1958 e a esquadra dos Reds era composta por jovens e promissores jogadores, alcunhados “Busby Babes” (Os Bebês de Busby), e era tida como uma potência emergente, galgando a largos passos entre os grandes clubes. Na terceira tentativa de decolagem, o treinador desatara a gravata, em um gesto que ao mesmo tempo lhe livraria da tensão sob a cabeça e lhe livraria a garganta para que confortasse o seu grupo de moços com palavras calmas. E ai veio explosão.

Busby havia servido na Segunda Guerra. Assitiu a partida do pai e três tios para nunca mais voltarem na Guerra antes desta. Viu morrer homens, mulheres, crianças. Viu injustiça. Mas aqueles eram seus filhos e, como pai, não há dor maior do que um filho ferido. Então, sentiu-se impotente após ser avistado e consolado pelo goleiro Harry Gregg com o pé quebrado, virado ao Sul quando deveria estar ao Norte. Os tímpanos em silêncio devido ao estrondo causado pelo impacto. Só então entendera. O avião havia colidido contra uma casa e um depósito de combustível e os gritos de “Vai explodir!” não o deixavam mais confortável.

Apesar da impossibilidade de ajudar com as próprias mãos, entreviu em um dos filhos um heroi de terno, dessa vez sem o característico número um bordado às costas. Gregg entrava e saia do avião carregando companheiros ou estranhos, inanimados ou não.“Mortos”, logo concluiu, e rezava para que estivesse errado. A imagem era a última lembrança que tinha após acordar uma semana depois, no hospital, com uma série de lesões e feridas que o tinham levado ao limite entre a vida e a morte. E, àquela altura, já não sabia mais a diferença.

Foi o próprio Harry Gregg quem entrou em seu quarto de enfermo com a notícia. Roger Byrne, Eddie Colman, Mark Jones, David Pegg, Tommy Taylor, Liam Welan e Greoffrey Bent. Nomes que comumente via na prancheta verde, agora seriam lidos em sepulturas cinzas. O maior astro da equipe, Duncan Edwards, viria a falecer pouco depois, após resistir bravamente por dez dias com ferimentos graves. Ao todo, morreram 23 pessoas entre atletas, jornalistas, comissão técnica, tripulação, tripulantes e moradores. Busby havia perdido oito de seus comandados, oito de seus jogadores da brilhante geração do Manchester United. “Oito familiares”, pensara.

O “Senhor Manchester United”, como viria a ser conhecido, havia atuado como jogador nos rivais azuis da mesma cidade e co-irmãos vermelhos de Liverpool. Mas foi nos Reds, como treinador, que seria imortalizado, a partir do ano de 1945, colocando o clube, definitivamente, lado a lado com as principais forças europeias. Por quatro vezes consecutivas foi vice campeão nacional, alcançando a glória na temporada 1951/1952, com a conquista da FA Cup.

Anos sem grandes conquistas se sucederam a este, mas em 1955, uma geração de jovens jogadores, entre eles as estrelas Bobby Charlton, Harry Gregg e Duncan Edwards, impressionava fãs e órgãos de imprensa ao redor do mundo, com aquele que seria considerado um dos melhores times do mundo nos anos posteriores. Os “Busby Babes” germinam, e são os primeiros representantes da Inglaterra a participarem da até então recém-criada Copa dos Campeões da UEFA, sendo eliminados pelo poderoso Real Madrid a um jogo da final. Em sua segunda participação, quando eram favoritos, aconteceria o acidente aéreo que entraria para a história.

Com o elenco em ruínas devido à morte de vários de seus alicerces e a precipitação do encerramento da carreira de outros, Busby foi o encarregado por iniciar uma nova era na equipe. Alguns dos sobreviventes somados a novos contratados conseguem o vice do campeonato inglês logo na temporada seguinte. No início da década de 1960, chegariam a Old Trafford personalidades como George Best e Denis Law que, comandados pelo treinador, conquistariam por duas vezes o Campeonato Inglês, por uma a Copa da Inglaterra e, como prêmio máximo de sua extensa trajetória, a Liga dos Campeões em 1968, quando seria nomeado Sir pela Rainha.

Os anos que se arrastaram até o fim da vida foram nos bastidores, primeiro como diretor, mais tarde como presidente do clube. Amigos próximos contam que Busby sempre se lembrou emocionado daquele acidente que arrancaria de seus dedos de mineiro, profissão que exercera quando jovem, o comando sobre pedras preciosas que jamais voltariam a ter o brilho realçado. Em 1994, a leucemia lhe tiraria a vida que a explosão não conseguiu. Sob um semblante pálido, porém sossegado, partiu ao encontro de suas crianças, mas deixou um legado que jamais será esquecido pelo lado vermelho de Manchester.

Sir Alexander Matthew Busby

★ 1909 † 1994

Títulos

Como jogador:

Copa da Inglaterra

Como treinador:

Campeonato Inglês (5)

Copa da Inglaterra (2)

FA Charity Shield (5)

Liga dos Campeões

Comentários

Lucas é jornalista desde 2011, mas o fanatismo pelo futebol o acompanha desde o berço. Aficionado por história, jogadores antigos e contemporâneos e causos e contos sobre o mais famoso esporte bretão. Participou de sites como o cruzeiro.org e o fanáticos por futebol. Atualmente atua como editor do futebol mineiro na Doentes por Futebol, onde também é o responsável pela coluna “Lendas do Futebol”.

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