A Bulgária da Copa do Mundo de 1994

  • por Igor Leal da Fonseca
  • 8 Anos atrás

Copa do Mundo de 1994, Estados Unidos. Os favoritos mais uma vez eram Brasil, Argentina, Alemanha, Itália. Mas foi a Copa do Mundo das surpresas, de jogadores carregando times até então sem tradição no futebol mundial. E um desses times foi a Bulgária de Stoichkov.

 

O começo das Eliminatórias.

 

Nossa história começa no dia 14/5/1992, em Helsinque, Finlândia. Nesse dia, a Bulgária fez 2×0 na Finlândia, gols de Balakov e Kostadinov e começou as Eliminatórias da UEFA com vitória. Pouco mais de 3 meses depois, o primeiro grande resultado: com gols de Stoichkov e Balakov, o time bateu a favorita França em Sofia. Na rodada seguinte, derrota para a Suécia por 2×0. O grupo ficou embolado, com franceses e suecos considerados como favoritos às vagas. Em Dezembro de 92 uma vitória sobre Israel e os 3 times permaneceram embolados.

 

A fase difícil no grupo, França e Suécia favoritas às vagas.

 

Na retomada das Eliminatórias, em fevereiro de 93, os franceses emplacaram 3 vitórias seguidas, chegando aos 10 pontos e colocando a pressão nos búlgaros e nos suecos. A Bulgária venceu a Finlândia, mas empatou com Israel em casa, enquanto a Suécia venceu Áustria e Israel e empatou com a França. No começo de Setembro de 93, a Bulgária empatou novamente em casa – 1×1 contra a Suécia – e se complicou, pois a França venceu a Finlândia fora de casa, chegou aos 13 pontos e fazia suas duas últimas partidas em casa, contra Israel (lanterna do grupo) e contra a própria Bulgária. A Suécia tinha Finlândia (C) e Áustria (F), enquanto os búlgaros enfrentariam Áustria (C) e a frança em Paris.

 

A redenção búlgara e o pesadelo francês.

 

Mas a sorte para os búlgaros começou a mudar na penúltima rodada: o time bateu a Áustria (4×1) e viu a França perder para Israel em Paris (2×3), num jogo que os franceses venciam até os 38 minutos do segundo tempo, quando tomaram o empate. A virada veio aos 45’.

A situação ainda era complicada para a Bulgária, pois visitariam a França na última rodada e os comandados de Gérard Houllier precisavam apenas do empate. E a situação ficou pior, pois Cantona abriu o placar para a França, aos 31 minutos do primeiro tempo. Kostadinov empatou, mas ainda era pouco. Até que aos 44 minutos do segundo tempo, a França tem uma falta pra cobrar no campo de ataque. O time faz cera, até que cobra, um cruzamento despretensioso para a área. A bola sobra para a Bulgária, que sai tocando, até que Kostadinov recebe lançamento nas costas da zaga e solta a bomba antes da chegada de Blanc. Caprichosamente, a bola bate no travessão e entra, sem chance para Lama. Era o gol da classificação búlgara e da eliminação francesa.

 

O desespero francês após o gol da Bulgária.

 Copa do Mundo de 1994, o mito Stoichkov.

 

Para a Copa do Mundo de 94, as pretensões búlgaras eram mínimas. E quando os grupos foram definidos, a Bulgária passou a ser vista como equipe que poderia classificar como um dos melhores terceiros colocados, mas nada muito além. E a estreia deu razão aos que pensavam assim, um passeio nigeriano contra o time de Stoichkov. 3×0, fora o baile.

Na rodada seguinte, vitória contra a Grécia por 4×0, mas seria preciso pelo menos um empate contra a Argentina para sonhar com uma vaga. Mas o imprevisto mais uma vez entrou no caminho do time comandado por Stoichkov e Maradona, estrela argentina, foi pego no exame anti dopping e suspenso da competição. Sem seu comandante, a Argentina foi presa fácil para a Bulgária, que venceu por 2×0, gols de Stoichkov e Sirakov. A surpreendente Nigéria avançou em primeiro, a Bulgária em segundo e a Argentina em terceiro.

 

Stoichkov comemora um gol.

 

Argentina 0x2 Bulgária

Nas oitavas de final, jogo contra o México, que havia eliminado a Bulgária em 86. Hristo abre o placar logo no começo do jogo, mas o México empata ainda no primeiro tempo. Nada mais de gols no tempo normal, na prorrogação e nas penalidades a Bulgária vence por 3×1, com grande atuação do goleiro Mikhailov, que pega 2 cobranças mexicanas. Uma curiosidade: uma das balizas teve que ser trocada durante esse jogo.

Bulgária 1×1 México – Gols

Jogadores e voluntários trocam uma das balizas durante o jogo.

A favorita Alemanha nas quartas: Stoichkov e Letchkov brilham.

 

A tabela apontava um confronto contra os favoritos alemães. O time tinha jogadores como Hassler, Matthaus, Voller e Klinsmmann, todos experientes em Copas do Mundo e acostumados à decisão. E os alemães abriram o placar aos 2 minutos do segundo tempo, gol de Matthaus. Com o jogo sendo disputado ao meio dia, em pleno verão americano, parecia que os búlgaros não teriam força para buscar a virada. Mas aos 30 minutos do segundo tempo a história começou a mudar, após Stoichov acertar uma cobrança de falta magistral e vencer um estático Illgner para empatar o jogo.

Stoichkov cobra falta com precisão e vence um estático Illgner.

 

Três minutos mais tarde, Iankov faz boa jogada pela direita e cruza para Letchkov, que se antecipa à zaga alemã e acerta cabeçada no ângulo de Illgner, num dos mais belos gols de cabeça da história das Copas do Mundo. Os alemães ainda tentaram buscar o empate, mas o calor cobrou o preço do time alemão e a equipe acabou sendo eliminada.

 

Letchkov se antecipa e cabeceia, para marcar o segundo gol da Bulgária.

Gols de Stoichkov e Lechkov na vitória contra a Alemanha.

Sem final, a redenção de Baggio.

Na semi final, os búlgaros enfrentariam outro peso pesado: a Itália. O time italiano vinha de uma primeira fase ruim, mas tinha eliminado Nigéria e Espanha no mata-mata. Os búlgaros se apegavam aos problemas de contusão da Azzurra, que não tinha Baresi e tinha Baggio em péssimas condições físicas, embora o camisa 10 da Itália tivesse decidido os 2 confrontos de mata-mata até então.

Mas se Hristo era craque, o mesmo se pode dizer de Baggio, que fez 2 gols antes dos 30 minutos do primeiro tempo e colocou sua seleção em excelentes condições para avançar à final. Stoichkov ainda diminuiu cobrando penalidade antes do intervalo, mas a Itália conseguiu segurar o resultado no segundo tempo e avançou à final.

Baggio e Albertini comemoram o segundo gol do camisa 10 da Azzurra no jogo.

 

Restou aos búlgaros a disputa pelo terceiro lugar, quando foram atropelados pela Suécia de forma inexplicável, um 4×0 com todos os gols no primeiro tempo. Mas a história já estava feita pelo time búlgaro, no melhor resultado do país na história. Stoichkov foi artilheiro da competição ao lado de Salenko e terminou como terceiro melhor jogador da competição, atrás de Romário e Baggio.

 

4 anos mais tarde, a Bulgária foi à Copa do Mundo da França e chegou como candidata à surpresa, credenciada pela Copa de 94 e pela excelente campanha nas Eliminatórias para a Copa do Mundo da França. Mas a equipe foi muito mal e caiu na primeira fase de forma vexatória.

 

Mas isso é assunto para outro post.

 

Até semana que vem!

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33 anos, morador do Rio de Janeiro. Rubro Negro de coração, apaixonado pelo Maracanã, tem no Barcelona o exemplo de clube para o que entende como futebol perfeito, dentro e fora do campo. Estudioso da memória do futebol, tem nessa sua área de maior atuação no site, para preservar a memória do esporte. Dedica especial atenção aos times mais alternativos, equipes que tiveram grandes feitos, mas que não são tão lembradas quanto as maiores do mundo. Curte também futebol do centro e do leste da Europa, com uma coluna semanal dedicada ao assunto. Um Doente muito antes de fazer parte desse manicômio, sua primeira memória acadêmica é uma redação sobre o Zico, na qual tirou 10 e a mesma foi para o mural da escola. Nunca trabalhou com futebol dessa forma, mas adora o que faz junto com o restante do pessoal e se pergunta o porquê de não ter começado com isso antes. Espera recuperar o ''tempo perdido''. Acha Lionel Messi o melhor que viu jogar e tem em Zico, Petkovic e Ronaldo Angelim como heróis.