A lógica implacável: para o Leão, uma temporada de fracassos

Gustavo Dubeux: sua gestão de futebol esteve sempre um passo atrás dos problemas.

Costuma-se dizer por aí que “o que começa errado, termina errado”. Esse adágio popular bem que poderia ser usado para definir em apenas uma linha toda a temporada do Sport em 2012. Mesmo com o bom futebol jogado no último trimestre e todo o apoio da torcida, que encheu o estádio na maior parte dos jogos e sobretudo na reta final do Campeonato Brasileiro, o clube não conseguiu a improvável salvação para um ano repleto de fracassos. Para explicar o fiasco, entretanto, é necessário voltar no tempo cerca de um ano, até o fatídico dia 26 de novembro de 2011.

O local é Goiânia, em dia de dilúvio. Gramado absolutamente inapto para a prática do futebol. Tudo para deixar ainda mais tensa uma situação que já era dramática para os torcedores rubro-negros. Após uma improvável combinação de resultados, o Sport chegou à última rodada da Série B dependendo apenas de si mesmo para conseguir o acesso. E subiu, com um gol salvador de Bruno Mineiro, aos 27 minutos do segundo tempo. Voltando ao Recife, euforia, clima de batalha e redenção, e a diretoria confirmou que manteria o técnico Mazola Júnior, que na condição de interino havia dado uma injeção de ânimo a um elenco que já parecia conformado com mais um ano na Segundona. Parecia haver alguma espécie de planejamento: a princípio, ficava faltando apenas reforçar o plantel, que claramente tinha deficiências em vários setores.

O Campeonato Pernambucano começou e o time que estreou, com empate, contra o Araripina era muito parecido com o que conseguiu o acesso em Goiânia, do qual a maior característica era a extrema dependência de um Marcelinho Paraíba sempre às voltas com problemas disciplinares. A instabilidade do “Diabo Loiro” se refletiu no time durante todo o Pernambucano: Mazola tentou dar alternativas ao elenco e experimentou alguns esquemas táticos, mas a fragilidade que já era visível ficou completamente exposta com a eliminação precoce na Copa do Brasil diante do Paysandu, num placar agregado de 6×2.  A derrota por 4×1 em plena Ilha do Retiro colocou sob questionamento o trabalho da comissão técnica, e a demissão de Mazola só não aconteceu porque o time era líder da fase classificatória do Estadual. Mas o desgaste culminou com a perda do título pernambucano para o Santa Cruz, dentro de casa. Assim, às vésperas do início do Brasileirão, a diretoria optou por demitir o treinador, que deixou o clube soltando cobras e lagartos. E se o horizonte já era negro com a necessidade de recomeçar um trabalho do zero, eis que o maior referencial técnico da equipe resolve deixar o time: Marcelinho recebeu uma proposta – segundo a diretoria, “irrecusável” – do Grêmio Barueri, que jogaria a Série B. Ao Sport restou apenas refazer seu precário planejamento.

Marcelinho e Mazola: o planejamento que só durou o Pernambucano. (Foto: Gazeta Esportiva)

Para a disputa da Série A, inicialmente apenas dois reforços “de peso”: os atacantes Felipe Azevedo e Henrique. O primeiro participou já da estreia do Leão, em casa, contra o Flamengo. O segundo, como veio do clube espanhol Granada, teve que esperar a abertura da janela internacional de transferências, em junho, para estrear. O técnico escolhido para dar sequência ao trabalho de Mazola foi Wagner Mancini, que a princípio apresentou um time aguerrido, compensando na raça as claras deficiências no elenco. Longas rodadas se passaram enquanto a diretoria rubro-negra estava “aguardando pelos reforços certos”, pois “o mercado estava muito difícil” (nesse mesmo período, o Náutico contratou vários jogadores importantes, que foram decisivos na campanha alvirrubra). Dentro de campo, o Sport mostrava dificuldades: nem mesmo a Ilha do Retiro, onde o Leão costumava ser imbatível, conseguiu empurrar o time para as vitórias. Foram três, nas dez primeiras rodadas: pontos extremamente suados, conquistados a fórceps.

Como sabemos, o modelo de pontos corridos costuma ser implacável com elencos mal montados: o Sport “engatou” uma sequência 11 (onze!) jogos sem vencer, sete deles sem marcar um gol sequer. De 25 de julho a 30 de agosto, o torcedor rubro-negro não soube o que era gritar um gol. Durante toda essa sequência, em que o time dava sinais claros de abatimento e falta de confiança, o presidente Dubeux deu várias entrevistas defendendo o trabalho de Mancini, afirmando cinicamente que o time “estava evoluindo”. O empate em casa, em 0x0, com o lanterna Atlético Goianiense, na 13ª rodada, foi sintomático: um time entregue, e um trabalho tático e motivacional totalmente jogado fora. Mas o presidente, homem de ampla visão empreendedora e míope para o futebol, resolveu continuar apostando no treinador.  A derrota para o Figueirense, em casa, pela 16ª rodada, selou a demissão de Wagner Mancini.

O Sport passou, então, a procurar seu terceiro treinador para a temporada. Na verdade, nem precisou, porque Waldemar Lemos estranhamente se ofereceu para o cargo através da imprensa. Ele, que havia sido demitido do Náutico, declarou – sempre em veículos de mídia – ainda ter seus objetivos pessoais no futebol pernambucano. Terminou recebendo a oportunidade. Assumiu o comando na 19ª rodada, justamente contra o Náutico. O time mostrou uma outra motivação. Partiu para cima do Timbu e só não marcou o tão sonhado gol porque o goleiro Gideão estava em dia inspirado. Apesar do empate em 0x0 e de mais um jogo sem ir às redes, os ares eram outros. O time dava sinais de que poderia reagir (conheça “Os clones da Ilha”).

E de fato, ensaiou uma reação: empatou fora de casa, em 1×1 com o Flamengo (o gol saiu!) e depois venceu o Santos na Ilha. Mas no duelo dos desesperados na rodada seguinte, perdeu por 3×1 para o Palmeiras, fora de casa. Daí em diante, o elenco pareceu não ter forças para consolidar o projeto de reação. Obteve mais alguns pontos mas as duras derrotas contra Corinthians e Portuguesa abalaram o grupo de uma forma que a situação parecia incontornável. A diretoria, então, agiu rápido e demitiu Waldemar, trazendo Sérgio Guedes para o seu lugar. A partir daí, a  equipe mostrou ainda mais evolução. O time passou a fazer boas partidas e só na reta final do Brasileirão, nas últimas dez rodadas, deu algum sinal de que poderia ter forças para escapar da degola (leia aqui: “Quando o improvável dá as caras”). Mas a difícil sequência de adversários e as próprias dificuldades de um time que, em novembro, ainda estava em formação, foram obstáculo grande demais para as pretensões rubro-negras. O rebaixamento se definiu – como se o drama fosse pequeno – na casa do grande rival leonino, em uma derrota que, apesar do placar estreito, mostrou a ampla superioridade do adversário.

Cicinho: ele tentou, mas já era tarde demais.

Assim, melancolicamente, terminou a temporada 2012 do Sport. Um ano que inicialmente marcaria o retorno do clube à elite do futebol brasileiro – que se havia dado num “golpe de sorte”, no chamado “milagre” de Goiânia -, mas que no final das contas apenas expôs as vísceras de uma gestão de futebol marcada por um pretenso ar de profissionalismo, que contrasta radicalmente com o amadorismo de suas práticas. O merecido rebaixamento apenas “coroou” uma temporada de planejamento mal feito e muitas decepções.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.