Aboutrika, um ídolo além do futebol

foto:trivela.uol.com.br

Parecia impossível para um clube, cujo campeonato local está há mais de 10 meses parado por causa da tragédia de Port Said – ocasião que deixou o saldo de 79 mortos e mais de mil feridos durante a partida Al-Masry 3 x 1 Al-Ahly pelo campeonato egípcio de 2012, conseguir chegar até a semifinal do Mundial de Clubes da FIFA. Entretanto, nada parece tão impossível para os torcedores do Al Ahly quando Mohamed Aboutrika está em campo. E foi dele o gol contra o Sanfrecce Hiroshima, colocando os africanos na disputa para um lugar na final.Com este gol, Aboutrika se juntou ao argentino Messi e ao brasileiro Denílson (que disputou a Série B 2012 pelo CRB) e fez o seu 4º gol na sua 4ª partida em Mundias de Clubes FIFA. Mas não é apenas por isso que Aboutrika é um ídolo nacional. Também não é pelo fato dele ser 5 vezes considerado o melhor jogador egípcio do ano, 12 vezes campeão nacional em competições egípcias, 4 vezes campeão da Liga dos Campeões da África ou então por ser eleito pela BBC como o melhor jogador africano de 2008, disputando com nomes como Drogba, Essien, Eto’o e Adebayor. Os feitos do maior símbolo do Al Ahly vão além do campo.No início de sua carreira, quando ainda jogava pelo pequeno Tersana, do Egito, Aboutrika negou-se a renovar seu contrato simplesmente pelo fato do seu novo salário ser maior do que dos seus companheiros de equipe. Mais tarde, com todos os salários iguais, ele assinou a renovação.

Além de feitos envolvendo o futebol, Aboutrika é embaixador de um programa voluntário das Nações Unidas contra a fome. Em 2008, ele recebeu cartão amarelo em uma partida contra a seleção do Sudão por ter levantado sua camisa e ter outra por baixo com os dizeres: “Simpatizem com Gaza”.

Infelizmente, até os mais bondosos passam por situações terríveis. Durante a confusão causada na Tragédia de Port Said, um adolescente de 14 anos, fã de Aboutrika, acabou morrendo nos braços do seu herói, ainda dentro do vestiário do Al-Ahly, local para onde ele foi levado pelo seu ídolo, que estava tentando salvá-lo. O último rosto que o garoto viu era do seu maior herói.

Após isso, Aboutrika comunicou a Federação Egípcia para que o campeonato fosse suspenso até que a segurança em campo fosse restabelecida. Semanas depois, ele não deu nenhuma entrevista à imprensa. Apenas aparecia publicamente quando estava nos funerais das vítimas do acidente. Além disso, Aboutrika ofereceu sua casa para que os mais necessitados, que estavam envolvidos com o acidente, pudessem ficar sob seus cuidados.

Quando a situação melhorou, Aboutrika retornou ao futebol para ajudar o Al-Ahly na Liga dos Campeões da África e a seleção egípcia, tanto nas Olimpíadas quanto nas qualificatórias pra Copa de 2014. Aliás, este é o seu maior sonho: levar o Egito para a Copa de 2014 no Brasil. Porém, o futebol em si não é o maior ideal dele. Em setembro, Aboutrika teve que escolher entre jogar a Supercopa do Egito ou protestar com os Ultras Egípcios para que eles não tivessem nenhum jogo nacional enquanto as famílias da Tragédia de Port Said não recebessem ajuda do governo. E ele não pensou duas vezes: foi protestar com o seu povo.

Depois de conquistar uma vaga na semifinal do Mundial, Aboutrika disse à imprensa que a meta do Al-Ahly não é ganhar, mas sim divertir um povo que não assiste o futebol nacional desde fevereiro. E diferente de outros jogadores africanos, Aboutrika nunca jogou em uma liga europeia e muito menos centralizou sua carreira buscando um enorme salário. Ele apenas quer trazer alegria para o povo africano, vendo no Mundial de Clubes e na próxima Copa do Mundo como suas maiores chances de alcançar seu objetivo.

Créditos: Firdose Moonda, jornalista sul-africana, correspondente da ESPN britânica na África.

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Estudante de Redes de Computadores. Fanático por futebol, seja brasileiro ou europeu. Sua preferência, na Europa, é a Premier League.