”Ah, se tivéssemos o Romário…”

  • por Igor Leal da Fonseca
  • 8 Anos atrás

 

“Se, se, se…. Isso não existe em futebol”.


A prática é recorrente em uma discussão sobre futebol. Quando a coisa esquenta – especialmente quando o assunto é conversa sobre ex-jogadores –  o “se” entra em campo usando camisa 10 e faixa de capitão.

Como nós também discutimos futebol aos gritos e com copo de cerveja na mão, a questão do “se” está sempre presente em nossos debates. Então, nada melhor que levar isso para nosso local de discussão atual, o site da Doentes. E já começamos com uma para mostrar a que viemos: e se Romário não tivesse perdido as Copas de 90 e 98 por contusões, a de 2002 por problemas com Felipão e as Olimpíadas de 96 e 2000 por diferenças com Zagallo e Luxemburgo?

Copa do Mundo da Itália


No seu segundo ano de Holanda, Romário voava. Na primeira temporada (88/89), o Baixo tinha feito 26 gols em 34 jogos (sendo 19 no nacional, artilharia da competição), garantindo o título para o PSV.

Em 89/90 (temporada da Copa do Mundo), a Holanda viu um Romário ainda mais avassalador, talvez para mostrar ao mundo o que os aguardava na Copa de 90. Mas faltando pouco menos de 3 meses para a Copa do Mundo, a primeira decepção: Romário sofre grave lesão no tornozelo. O jogador perdeu o restante da temporada e o PSV perdeu o título para o Ajax por 1 ponto, mas Romário termina como artilheiro, mesmo jogando apenas 20 das 34 partidas da sua equipe (fez 23 gols na Eredivisie 89/90, 31 em 26 jogos na temporada).

O Baixo foi convocado para a Copa de 90 e inscrito com a camisa 11. Mas ainda se recuperando da lesão, pouco contribuiu, jogando apenas um tempo e meio contra a Escócia, no último jogo da fase de grupos. 

Em forma, seria titular absoluto ao lado de Careca e formaria uma dupla temível com o jogador do Napoli, que na época era um dos principais jogadores da Itália e tinha acabado de ganhar o Calcio. Pouco provável que o Brasil ganhasse a Copa de 90 (muito por questões internas), mas certamente jogaria um futebol melhor e poderia passar tranquilamente pela Argentina de Maradona nas oitavas, mudando a história daquela Copa do Mundo.

Olimpíadas de 96 e Copa do Mundo da França

Após a Copa do Mundo dos EUA, Romário ficou afastado da Seleção Brasileira por quase 2 anos. Sua presença era praticamente exigida nos Jogos Olímpicos de Atlanta, mas Zagallo – um dos maiores desafetos do Baixinho – , o deixou na “geladeira”, preferindo levar Aldair, Bebeto e Rivaldo como jogadores acima dos 23 anos. 

Rivaldo foi mal – chegando a ser sacado do time –  o Brasil perdeu a semi final contra Nigéria e viu a medalha olímpica escapar mais uma vez. Romário voltaria à Seleção apenas em 97.

Já foi mostrado por nós aqui mesmo: durante o ano de 97, Romário foi titular da Seleção ao lado de Ronaldo. Fizeram 32 gols em 18 jogos (tem mais um gol de Ronaldo em 99, contra o Barcelona) – sendo 18 de Romário, média de 1 gol por jogo. Conquistaram as 2 competições que disputaram com sobras. No fim do ano de 97, assombraram o mundo na Copa das Confederações, com o auge sendo um “duplo hat-trick” na final. Romário e Ronaldo fizeram 3 gols na goleada sobre a Austrália (6×0).

A titularidade dos dois na Copa de 98 era certa, formando com Rivaldo (que voava na Espanha) um trio de ataque que tinha tudo pra ser considerado um dos maiores na história do futebol. Mas novamente uma lesão entrou no caminho do Baixinho, dessa vez seu crônico problema de panturrilha. Romário foi cortado em decisão que ainda gera polêmica e o Brasil perdeu a Copa do Mundo para a França.

Caso tivesse permanecido no grupo e estivesse em condições, seria titular ao lado de Ronaldo. O autor respeita demais Bebeto, mas o baiano já estava em fim de carreira, com números ruins e sem apresentar um grande futebol desde sua volta ao Brasil. Romário daria um acréscimo monstruoso no ataque da Seleção. 

“Ah, mas e a história da convulsão do Ronaldo na final? Não faria tanta diferença assim”. Faria sim. A França temia o Brasil, por causa de Rivaldo e Ronaldo. Com Ronaldo sem a menor condição de jogo, os franceses tiveram menos preocupação e puderam sair para atacar o Brasil de uma forma que jamais fariam caso Ronaldo estivesse 100%. A presença de Romário no ataque da Seleção contrabalancearia isso, segurando mais jogadores franceses no campo de defesa e evitando que o Brasil fosse pressionado em seu campo durante todo o primeiro tempo, quando a França fez 2×0 e decidiu o jogo.

Olimpíadas de 2000 e Copa do Mundo do Japão e Coréia

Após a derrota para a França, Luxemburgo é chamado para assumir a Seleção Brasileira. Desafeto declarado do treinador, Romário fica afastado da Seleção durante todo o ano de 99, jogando apenas o amistoso comemorativo pelo centenário do Barcelona. Em 2000, Romário foi chamado para o jogo contra a Bolívia, pelas Eliminatórias, a poucos dias do início das Olimpíadas. Romário fez 3 gols, o povo praticamente exigiu a presença dele no time olímpico, mas Luxemburgo bateu o pé, só levou garotos e mais uma vez Romário – em excelente momento pelo Vasco –  foi preterido por caprichos de treinador. 

O Brasil caiu para Camarões, Luxemburgo foi demitido e antes da escolha de um novo treinador, Romário foi dirigido por Candinho, em jogo pelas Eliminatórias de 2002 contra a Venezuela. O Baixo fez 3 gols em 7 minutos (entre os 31 e os 38 do primeiro tempo) e Luxemburgo ficou ainda mais queimado pela passagem na Seleção. 

Leão assumiu a Seleção Brasileira em novembro de 2000 e convocou Romário para os jogos contra Equador e Peru pelas Eliminatórias. O Baixo fez um gol no jogo contra o Peru, mas inexplicavelmente Leão preferiu apostar em jogadores como Washington e Magno Alves para a disputa da Copa das Confederações de 2001. O Brasil empatou com Canadá e Japão, perdeu para França e Austrália e terminou com um vexatório quarto lugar na competição. Leão caiu, Felipão assumiu e chegou dando moral ao Baixinho, convocando-o para o jogo contra o Uruguai pelas Eliminatórias e dando-lhe a faixa de capitão.

O Brasil perdeu para o Uruguai no Estádio Centenário e logo depois estava marcada a disputa da Copa América. Felipão queria levar Romário para a competição, mas o Baixinho pediu dispensa, dizendo que precisava fazer uma cirurgia nos olhos. Felipão aceitou e declarou que contava com Romário para futuros jogos. Mas Romário foi excursionar com o Vasco e a relação azedou.

Em 2002, Romário esteve muito bem pelo Vasco no primeiro semestre, fazendo 26 gols em 25 jogos. A pressão pela sua convocação aumentou, a ponto de torcedores cercarem Felipão – em plena Avenida Rio Branco, Centro do Rio – e exigirem a convocação de Romário. A mãe de Felipão fez apelo emocionado e parecia que o treinador cederia à pressão popular. Mas Eurico Miranda – com quem o treinador tinha rusgas desde quando treinava o Palmeiras – entrou no circuito, falou algumas besteiras e Felipão decidiu não levar Romário.

O Brasil ganhou o Mundial utilizando jogadores como Edílson e Luizão em determinados momentos e Romário deixou de disputar sua terceira competição importante em 6 anos (Olimpíadas de 96/2000 e a Copa do Mundo de 2002) por problemas extra-campo. Com as lesões nas Copas de 90 e 98, foram 5 competições perdidas na carreira do Baixinho. Olhando os resultados do Brasil nessas competições e tendo a lembrança da bola jogada por Romário, é fácil imaginar que o Brasil ganharia pelo menos uma das Copas que perdeu (98) e a medalha de ouro em 96, dando a Romário um status maior que o de Pelé.

Como falamos no começo do texto, é apenas ”se”, o que não existe no futebol. Mas nossa imaginação pode existir, não?

 

Até a próxima!

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33 anos, morador do Rio de Janeiro. Rubro Negro de coração, apaixonado pelo Maracanã, tem no Barcelona o exemplo de clube para o que entende como futebol perfeito, dentro e fora do campo. Estudioso da memória do futebol, tem nessa sua área de maior atuação no site, para preservar a memória do esporte. Dedica especial atenção aos times mais alternativos, equipes que tiveram grandes feitos, mas que não são tão lembradas quanto as maiores do mundo. Curte também futebol do centro e do leste da Europa, com uma coluna semanal dedicada ao assunto. Um Doente muito antes de fazer parte desse manicômio, sua primeira memória acadêmica é uma redação sobre o Zico, na qual tirou 10 e a mesma foi para o mural da escola. Nunca trabalhou com futebol dessa forma, mas adora o que faz junto com o restante do pessoal e se pergunta o porquê de não ter começado com isso antes. Espera recuperar o ''tempo perdido''. Acha Lionel Messi o melhor que viu jogar e tem em Zico, Petkovic e Ronaldo Angelim como heróis.