Dez anos de Meninos da Vila

  • por João Rabay
  • 8 Anos atrás

 

 

Dezoito anos sem títulos importantes. Faixas da torcida viradas de cabeça para baixo em protesto contra os anos de fracasso. Troca de treinador após eliminação na primeira fase do torneio Rio-São Paulo, o que deixou o clube sem jogos oficiais por três meses até o início do Brasileirão, que só começaria após a Copa do Mundo. Um elenco formado quase que inteiramente por jovens desconhecidos da torcida. As expectativas do Santos para o Campeonato Brasileiro de 2002 eram as piores possíveis.

Marcelo Teixeira, então presidente santista desde 2000, havia colocado dinheiro do próprio bolso no clube para contratar medalhões caros como Carlos Germano, Rincón, Marcelinho Carioca e Edmundo. Após dois anos de decepções, incluindo a traumática eliminação na semifinal do Paulistão de 2001, com gol de Ricardinho, do Corinthians, aos 47 do segundo tempo, o Santos estava quebrado. A solução foi apostar nos jovens para a disputa do Brasileirão.

É bom lembrar que nem Leão, técnico contratado após a dispensa de Celso Roth, motivada pela queda no Rio-São Paulo, nem o presidente Marcelo Teixeira botavam muita fé no elenco. Leão pediu reforços, mas, por causa da falta de dinheiro, não foi atendido. Quando decidiu que o elenco de garotos estava fechado, preocupou Teixeira, que, segundo diz Leão, chegou a temer o rebaixamento, posição negada pelo ex-presidente.

O time-base que disputou o Brasileirão dispensa muitas apresentações: Julio Sérgio; Maurinho, André Luis, Alex e Léo; Paulo Almeida, Renato, Elano e Diego; Robinho e Alberto. É bom lembrar que Fábio Costa passou boa parte do ano machucado, voltando para o mata-mata, e que o zagueiro Preto, o volante Alexandre, o meia Robert e o atacante William também jogavam com frequência.

 

 

Em pé: Alex, Preto, Pereira, Fábio Costa, Renato, Maurinho, Rafael, André Luís e Paulo Almeida; Agachados: Alexandre, Douglas, Diego, Michel, Robert, William, Léo, Robinho e Elano. (Foto: Arquivo / Agência Estado)

Em pé: Alex, Preto, Pereira, Fábio Costa, Renato, Maurinho, Rafael, André Luís e Paulo Almeida;
Agachados: Alexandre, Douglas, Diego, Michel, Robert, William, Léo, Robinho e Elano. (Foto: Arquivo / Agência Estado)

 

O certo é que, para a torcida, não ser rebaixado parecia suficiente para que 2002 passasse como mais um ano de fila, em vez de o pior da história do clube. Mas o time se aproveitou do recesso antes da Copa para se acertar e começou a dar indícios de que poderia fazer bonito ao bater o Corinthians por 3 x 1 em um amistoso na Vila Belmiro, com destaque para Robinho, que começava a aparecer para a torcida – Elano e Renato, outros destaques do elenco, já estavam na equipe desde 2001 e Diego já havia sido aproveitado por Celso Roth.

A campanha do Peixe na primeira fase do Brasileirão foi marcada por altos e baixos, oscilações comuns para um time de jovens que começava a prometer frutos para os anos seguintes. A equipe terminou o turno com 39 pontos em 25 jogos. Foram 11 vitórias, 6 empates e 8 derrotas, sendo sete vitórias na Vila Belmiro, iniciando uma era de muita força do Santos jogando em casa.

Apesar de ter passado a maior parte do campeonato entre os oito primeiros, o que levaria a equipe para a fase final, a falta de experiência pesou, e após uma sequência ruim nas últimas rodadas, incluindo derrota para o São Caetano na partida final da primeira fase, o Santos só se classificou, em oitavo, graças à surpreendente goleada do rebaixado Gama sobre o Coritiba por 4 x 0.

No mata-mata, a história é famosa e prazerosa de ser lembrada pelos santistas. Nas quartas de final, o duelo entre as sensações do campeonato: os surpreendentes Meninos da Vila contra o avassalador São Paulo, primeiro colocado na fase de classificação, vindo de uma sequência de dez vitórias, inclusive sobre o Santos, em uma partida sensacional no Morumbi, marcada pela polêmica comemoração de Diego em cima do escudo do tricolor.

Na primeira partida o Peixe venceu o rival por 3 x 1, na Vila Belmiro, com gols de Alberto, Kaká, Robinho e Diego, nessa ordem. Na volta, Luís Fabiano abriu o placar para o São Paulo logo aos 4 minutos, mas, depois de várias chances perdidas pelos são paulinos, Léo empatou no segundo tempo, e Diego fechou a conta com um golaço nos acréscimos.

 

A semifinal foi disputada contra o Grêmio, que prometia jogos duros, principalmente por contrapor o estilo de jogo leve dos meninos santistas. Mas Robinho decidiu dar show na Vila e, com um 3 a 0 desnorteante, o Peixe garantiu a classificação à final logo na primeira partida. Destaque para o experiente goleiro Danrlei perdendo a cabeça diante da habilidade de Robinho e ameaçando o camisa 7. Na volta, o Santos cozinhou o jogo e garantiu a passagem de fase com a derrota por 1 x 0.

 

A grande final seria disputada frente ao Corinthians, em dois jogaços no Morumbi lotado. Não haveria roteiro melhor para acabar com a longa espera santista por um título grande. Sobre o maior rival, que havia conquistado o Rio-São Paulo e a Copa do Brasil daquele ano, sem falar na eliminação de 2001, ainda engasgada nos santistas.

A primeira partida foi vencida pelo Santos, por 2 x 0. Alberto abriu o placar aos 15 minutos da etapa inicial, após belo passe de Diego. Renato completou o marcador aos 43 do segundo tempo, depois de um erro de saída de bola do volante corintiano Fabrício. Boa vantagem para o jogo de volta, mas nada que garantisse o título. O Corinthians, por ter melhor campanha na primeira fase, levaria a taça se também ganhasse por dois gols de diferença.

 

O jogo de volta, disputado há exatos dez anos, começou preocupante. Logo aos 2 minutos, Diego, que entrou em campo no sacrifício, se machucou e foi substituído por Robert. Depois, o que se viu foi um bombardeio corintiano. O atacante Guilherme teve várias chances para abrir o placar, mas foi parado pela inspiração de Fábio Costa. O goleiro santista fez a melhor partida de sua vida, com verdadeiros milagres seguidos. A torcida do Peixe estava tensa e o gol rival parecia questão de tempo, até que, aos 36 minutos, a bola caiu nos pés de Robinho na meia esquerda.

A sequência é conhecida. Robinho avança, marcado por Rogério. O lateral recua, com medo de ser driblado pelo moleque habilidoso. Robinho segue em direção a Rogério, que se aproxima da grande área. Robinho pedala. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete vezes. Antes da oitava pedalada, dá um tapa para a esquerda. Rogério, já um passo dentro da área, estica a perna direita, mas não alcança a bola. Alcança o joelho do camisa 7, que cai, Rogério levanta as mãos, Carlos Eugênio Simon aponta a marca do pênalti. O lateral nem reclama, e a metade santista do Morumbi comemora.

 

Robinho pedala pra cima de Rogério (Foto: Arquivo / Agência Estado)

Robinho pedala pra cima de Rogério (Foto: Arquivo / Agência Estado)

 

Robinho pega a bola e abre o placar para o Santos, que vai para o intervalo com a vantagem no marcador. Poderia até perder por 2 x 1 que levaria o título. A situação poderia parecer tranquila, mas não para uma equipe que enfrentava um adversário tão qualificado quanto raçudo. O Corinthians pressionou, parando várias vezes em Fábio Costa, até que o ex-santista Deivid empatou aos 30, e o zagueiro Anderson virou aos 39.

A seis minutos do fim, a lembrança do gol de Ricardinho era a coisa mais presente na cabeça de todos os santistas do Brasil. Será possível que a história cruel se repetiria? Não, pois dessa vez havia Robinho.

O menino-prodígio brilhou novamente, fez grande jogada pela direita e cruzou para Elano marcar, aos 43. Aos 47, mais uma linda jogada de Robinho e gol de Léo. Durante a comemoração, o árbitro apita o fim do jogo, enquanto a torcida desvira as faixas na arquibancada, simbolizando uma nova era na história do Peixe. Depois de dezoito longos anos, a espera terminou. O Santos era campeão brasileiro, e a tarde daquele 15 de dezembro nunca deixaria a memória do torcedor santista.

 

Comentários

Jornalista. Doente por futebol bem jogado e inimigo de jogadores que desistem da bola para cavar falta e de atacantes "úteis porque marcam os laterais".