Duas ilhotas, uma rivalidade: uma reflexão sobre o futebol “pasteurizado”

Park Jong-Woo: o medalhista sul-coreano que comprou a briga do seu povo (Foto: BOL Esporte)

Na última segunda-feira, a FIFA anunciou a punição ao meia sul-coreano Park Jong-Woo, em função de uma manifestação política do jogador durante as Olimpíadas: ao conquistar a medalha de bronze, com uma vitória sobre o rival histórico Japão, ele recebeu de um torcedor uma faixa que dizia: “Dokdo é nosso território”. A entidade entendeu que o ato do jogador, “embora não pareça ter sido premeditado ou intencional, contradiz a ideia principal e o objetivo do comportamento esportivo e do jogo limpo, e não pode, portanto, ser tolerado”. Jong-Woo foi multado em US$ 3.800 e ainda pegou uma suspensão de duas partidas. A aplicação de multas e penas é comum em casos de atos políticos-ideológicos e até mesmo religiosos – por exemplo, a oração da seleção brasileira na Copa das Confederações de 2009, repreendida pela FIFA. A ideia é que o esporte seja um terreno livre de desavenças que não sejam de natureza esportiva, muito embora isso seja discutível: muitas vezes, o futebol é o único espaço em que certas minorias têm sobre si os holofotes do mundo. E a História mostra que o esporte pode ser o berço de profundas mudanças sociais e políticas.

Ilhas Dokdo: duas ilhotas que há séculos abalam as relações diplomáticas entre Coreia do Sul e Japão.

O caso das Ilhas Dokdo entrou, graças ao corajoso ato do jogador coreano, no já extenso rol de manifestações políticas em grandes eventos esportivos. Trata-se de uma disputa entre Japão e Coreia do Sul pela posse de dois pequenos rochedos  localizados no Mar do Japão – que os coreanos preferem chamar de ‘do Leste’. Praticamente inabitáveis, as ilhotas são pontos estratégicos na região e, muito além disso, possuem uma enorme reserva de gás natural. Nessa briga, como em tantas outras, há um lado claramente hipossuficiente: a ONU determinou ao Japão o dever de mapear a região e fornecer os dados coletados às entidades internacionais. Por isso, praticamente tudo o que se vê/lê/ouve sobre o assunto em veículos da imprensa mundial é, enquanto fruto do trabalho japonês, produzido a partir da óptica nipônica, o que dificulta e obscurece o debate para os coreanos. Há séculos em curso, a disputa por Dokdo – ou Takeshima, para os japoneses – entrou nos gramados olímpicos para acirrar ainda mais a histórica e intensa rivalidade entre Japão e Coreia do Sul.

Animosidades entre países, muito geralmente, não nascem em competições esportivas. Quase sempre há um elemento histórico, e nesse caso não é diferente: a história japonesa passa diretamente pela Península da Coreia. Geograficamente, o Japão é um país isolado e desfavorecido: possui um pequeno e acidentado território, que sempre impôs limites às potencialidades econômicas do país. Esse isolamento era bem mais do que geográfico até o início das grandes navegações, que levaram o homem branco europeu aos quatro cantos do planeta. Até meados do século XVI, os países asiáticos viviam num quase absoluto isolamento entre si, o que sempre se refletiu na cultura destas nações, marcadas cada uma por sua particularidade e originalidade. Entretanto, esse cenário de desintegração foi gradualmente se acabando por razões primordialmente econômicas: a voracidade dos mercados europeus fez o Oriente virar alvo de muita cobiça, que em casos extremos era demonstrada de uma maneira truculenta, com que os orientais não estavam habituados. A Guerra do Ópio é um grande exemplo de como as potências capitalistas europeias tinham os mais tradicionais países orientais em suas mãos. Na segunda metade do século XIX, o poder econômico e bélico dos países europeus – amplamente superior – colocou japoneses, chineses e coreanos contra a parede: ou se tornavam mais competitivos ou seriam esmagados.

Imperador Meiji, em gravura de Chiossone: o patrono da industrialização – e do imperialismo japonês.

Nesse contexto, a população japonesa se dividiu: alguns julgavam que um recrudescimento do isolamento e o fechamento dos portos traria tranquilidade ao país. O terror era justificável: a vizinha China acabara de ser violentamente constrangida a abrir seus portos para o comércio (e à exploração imperialista) das potências ocidentais. O sentimento da maior parte do povo, no entanto, era de extrema insatisfação com a estagnação econômica e tecnológica do país. Esse descontentamento popular desencadeou um processo que, em 1868, resultou numa radical mudança na estrutura política do país: a Restauração Meiji. O imperador, que tradicionalmente era uma figura meramente decorativa e não participava das decisões do xogunato, passou a ser o centro de uma sofisticada estrutura política. A revolução consolidou o Estado nacional japonês, seguindo o ideário do iluminismo francês. Aboliu privilégios de uma nobreza desinteressada e fez profundas reformas administrativas, tirando o país do feudalismo. No plano econômico, o Japão experimentou grandes avanços. O país se industrializou rapidamente, e passou a consumir cada vez mais tecnologia nacional. Além disso, o Imperador Meiji deu início a uma controversa política de expansão territorial: sob o lema “Enriqueça o país; fortaleça as forças armadas”, o Japão teve um enorme crescimento de seu potencial bélico.  Seu exército aprendeu táticas de guerra ocidentais e passou a ser conhecido pela sua extrema crueldade nas batalhas. Assim, o imperador partiu em sua campanha conquistadora, formando um dos maiores impérios marítimos da História.

O Império Meiji conquistou boa parte do Pacífico e do Leste asiático.

Então, em 1894, pela primeira vez o Império Japonês voltaria seus olhares para a Península da Coreia: os interesses expansionistas do país insular provocaram aquela que ficou conhecida como Guerra Sino-Japonesa. A Coreia, preocupada com o avanço dos japoneses, solicitou ajuda à China imperial, que enviou suas tropas para proteger os coreanos e também para impedir uma prograssão das tropas nipônicas – que ameaçava até mesmo a própria China. A guerra atingiu um estágio de equilíbrio estratégico e foi encerrada com a assinatura de um tratado entre os dois países, segundo o qual o Japão receberia a ilha de Taiwan e a península de Liaodong, que posteriormente seria ocupada pelo Império Russo. A Coreia continuou autônoma, mas não por muito tempo: poucos anos depois, em 1904, os japoneses deram início à Guerra Russo-Japonesa, na qual os russos foram implacavelmente derrotados. A vitória japonesa abriu caminho para a definitiva anexação da Península da Coreia, chamada então de Manchúria, em 1910. A dominação colonial japonesa, que se acabou com a derrota do Eixo na Segunda Guerra Mundial, até hoje causa mal estar entre os coreanos de mais idade. Lembranças da truculência e crueldade das tropas nipônicas estão bem vivas na memória dos que viveram a época, e relatos de torturas, estupros, execuções brutais e trabalho forçado ainda resistem ao tempo e ao esquecimento.

Toda essa história diz muito a respeito da disputa sobre o controle das Ilhas Dokdo. A confusão começa na própria denominação das ilhas: historicamente, japoneses e coreanos sempre as chamaram de nomes diferentes. Logo, há documentos determinando a posse  dos rochedos em ambos os países – em cada um, usando nomes diferentes. Com a dominação colonial sobre a Manchúria, o Japão manteve as ilhas sob seu poder. No entanto, com a derrota na Segunda Guerra Mundial, os rochedos foram entregues à Coreia do Sul, já separada da comunista República Popular da Coreia (que surpreendentemente apoia a pretensão sul-coreana). Há, portanto, claros vestígios de colonialismo nessa briga, o que os coreanos se recusam terminantemente a aceitar. Este é um dos poucos temas que unem quase toda a opinião pública no país, e por este motivo os chefes de estado sul-coreanos têm sido irredutíveis em afirmar que as ilhas são território nacional da Coreia do Sul. E, de fato, há uma série de documentos do pós-Guerra que confirmam a soberania sul-coreana sobre as ilhas. Coincidentemente ou não, o presidente Lee Myung-Bak fez uma visita surpresa a Dokdo em 10 de agosto deste ano, exatamente no dia do jogo entre Japão e Coreia pelas Olimpíadas. O ato foi visto pelos japoneses como uma afronta, e desde então as relações diplomáticas entre os dois países têm azedado.

A opressão colonial é a raiz da rixa que entra em campo quando Japão e Coreia disputam uma partida de futebol. Dokdo é apenas o capítulo mais recente de uma história marcada por sangue e violência, sobretudo no último século. É compreensível que a FIFA tenha seus mecanismos para evitar que tais rivalidades antigas se manifestem exacerbadamente: trata-se de um perigo para a difusão de um esporte que, por si só, provoca intensas reações emocionais em seus adeptos. Mas o corajoso gesto do medalhista Park Jong-Woo serve como reflexão: até que ponto o futebol deve ser preservado da espontaneidade e dos princípios e valores de seus próprios atletas, e quem são os maiores interessados nessa “pasteurização” do esporte que já foi palco para tantas transformações sociais?

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.