Entre o sonho e a realidade, a minha despedida do Olímpico

  • por Eduardo Jenisch Barbosa
  • 7 Anos atrás

Foto: Eduardo Jenisch Barbosa – Eu no Olímpico, antes do Gre-Nal de despedida do estádio

 

“Filho, filho…chegamos, acorda”. Foi assim que amanheci neste último domingo, 2 de dezembro de 2012. Ainda sonolento, abri os olhos e parecia que minha cama estava em movimento. E não era impressão, me vi deitado no banco de trás do carro, minha irmã Renata sorria e meus pais me olhavam como se eu ainda fosse uma criança. E eles tinham razão. Eu era um guri de sete anos, na garagem do prédio do meu tio João Cláudio. Fui dormir em dezembro de 2012 e acordei na sexta-feira, 13 de dezembro de 1996. Nós morávamos em Tapes, interior gaúcho, e chegamos à Porto Alegre para um evento para lá de especial.

Fiquei um pouco assustado e depois de cumprimentar meus tios, primas e dindo, fui ao espelho mais próximo e me vi de camisa do Grêmio e cabelo crespo. Na mesma hora, liguei para o meu amigo “Doc Brown”, que disse que emprestou seu carro ao meu pai. Como tinha entrado no prédio ainda com muito sono, não tinha visto nada direito. Fui até a janela do apartamento e avistei o Delorean. Tinha voltado no tempo. Ainda sábado, fomos ao Olímpico. A torcida estava em chamas e, mesmo que a Portuguesa tivesse a vantagem de 2 a 0, a euforia era imensa e o pátio estava lotado. Lá de cima, quando a concentração ainda era no estádio, vi acenos de Rivarola, Arce e Goiano.

Novo pulo no tempo e eu estava de carro, novamente chegando ao Olímpico. Meu primo Dênis estava conosco. Minha ansiedade era para ouvir a já tradicional frase de meu pai Paulo Renato. Em meio à multidão que chegava entusiasmada ao estádio, ele finalmente aponta para o letreiro famoso e fala com uma felicidade que me arrepiava: “Grêmio, campeão do mundo…Grêmio, campeão do mundo”. Meus olhos brilhavam.

Chegamos cedo às sociais do Olímpico e minha mãe Maria Teresa já oferecia a todos os sanduíches, refrigerantes, sucos, água, o estoque que tinha feito para suportarmos uma espera de quase quatro horas até o início da peleja. Era domingo, 15 de dezembro de 1996. Um sol escaldante. Mas o sonho do título dava forças ao milhares de Imortais que lá estavam. A taça era questão de tempo.

Meu ídolo era Paulo Nunes, tinha tudo do número 7, o Diabo Loiro. Inclusive a camisa que eu estava usando era a do atacante. Número este que remetia meu pai à 1983, quando Renato Portaluppi achou um cruzamento da bandeira de escanteio e o cabeceio fulminante de César nos deu a primeira Libertadores. “O lance foi naquela bandeira e eu estava ali, ó, filho, atrás do gol”, dizia meu velho sem disfarçar o orgulho. E o tempo passava.

O gol de Paulo Nunes, que abriu o placar e explodiu o Olímpico, era realizado e tatuado na minha memória ao mesmo tempo. Loucura e caos. Era o retrato de minha família naquele momento. Ah, aqueles que subestimam o futebol, nunca passaram por isso. E tinha mais. E o tempo passava. Eu já sabia de tudo, afinal estava em 1996 com a memória de 2012. Ou estaria eu em 2012 com a memória de 1996? Nada mais importava quando Aílton soltou a canhota e o êxtase misturado ao choro tomou conta dos mais de 55 mil gremistas que ali estavam. 

Os óculos de minha mãe voaram de seu rosto e foram pisoteados. Enquanto isso, estava eu voando do colo de um anônimo ao colo de meu pai. O Brasileirão era nosso! E aqui fica o agradecimento ao meu pai por me ensinar a ser gremista e um abraço fraternal a todos os anônimos com os quais celebrei os gols gremistas em todos estes anos de Monumental. Esta, uma das belezas do futebol. Ali estamos todos por um só motivo e somente por isso já nos conhecemos. “Era uma pizza Portuguesa, com certeza, com certeza era uma pizza Portuguesa”. Foi assim que a caravana imortal chegou novamente ao prédio do meu tio, o colorado João Cláudio. A festa foi grande e a criança aqui não aguentou e foi dormir perto das três da madrugada.

Fui dormir em 1996 e acordei em 2012. O tempo passa. O domingo amanheceu ensolarado em Porto Alegre e eu estava nostálgico. Aprofundando mais este sentimento, era um misto de expectativa e tristeza. Era dia de dar adeus ao meu segundo pai, o de concreto. Palco onde transitei pela ansiedade, euforia, pela tristeza poética das derrotas e pela glória redentora das vitórias. O choro seria inevitável. Ainda não sabia bem o que era sonho e o que era realidade.

O fato é que, neste 2012, eu respirei o Olímpico. Aproveitei todos os rituais que envolvem ir ao estádio. Fui a todos os setores, senti o cheiro da atmosfera, chorei olhando para o cimento, caminhei sem rumo por várias vezes. O tempo passa. Era domingo, 2 de dezembro, o dia da despedida.

Tudo o que era tradicional me emocionou, a última entrada em campo, os últimos cantos, a última partida, enfim, mas foi uma circunstância específica, que eu dei sorte que acontecesse bem na minha frente, o que me levou às primeiras lágrimas. Enquanto os jogadores que fizeram a história do Grêmio faziam a volta olímpica, Paulo Nunes, com uma bandeira tricolor, chama Jardel. Então, acontece o abraço e a reverência das duas partes. Do torcedor ao ataque inesquecível e do ataque inesquecível ao torcedor. Ali eu voltei mais uma vez no tempo e vi os dois atuando naquele gramado em 1995, na campanha do bi da Libertadores. Não resisti e chorei.

O Gre-Nal da despedida teve quase tudo o que eu queria. A camisa tricolor, a camisa vermelha, as expulsões e a confusão entre os jogadores. Só faltou um GOLINHO nosso. Mas esta frustração momentânea foi embora ali mesmo, nas horas que fiquei no Olímpico depois da peleja e na linda avalanche que tomou conta de todo o anel inferior. Uma bela cena para encerrar uma história poética.

O Olímpico, meu segundo pai, o de concreto, irá acabar. Já o que fez parte da minha formação como torcedor e pessoa, ah, esse irá existir IMORTALMENTE em minha memória e coração. Ainda não sei se estou vivendo a realidade ou um sonho. Talvez descubra isso na inauguração da Arena, meu irmão mais novo, o de concreto. Novas histórias virão… 

DALE COPEIROS! Até a próxima, Doentes por Futebol.

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