Hiperinflação futebolística

  • por João Rabay
  • 7 Anos atrás

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*Nota: o texto abaixo foi escrito antes de se noticiar o absurdo pedido salarial de R$1,1 milhão de reais livres de impostos feito por Robinho para fechar com um clube do Brasil. Talvez o mais chocante exemplo de salário fora de realidade no futebol brasileiro.

Em todo final de ano, com o futebol brasileiro de férias, resta aos doentes por futebol, além dos campeonatos europeus, acompanhar as especulações, contratações e vendas  de jogadores para ter uma ideia de como estará seu time na temporada seguinte. E, ano após ano, somos surpreendidos pelos absurdos salários pagos aos jogadores e técnicos brasileiros.

Os exemplos são muitos. O atacante Wallyson negocia com o São Paulo e, segundo notícias, pode fechar por R$180 mil mensais. Loco Abreu foi contratado pelo Figueirense em 2012 recebendo R$ 285 mil por mês. Valdivia, meia que mal entra em campo e pouco produz, recebe seus R$ 500 mil por mês do Palmeiras. Também no Verdão temos o caso de Marcos Assunção, que, aos 36 anos, pediu salário de R$ 450 mil para renovar.

Dois grandes exemplos de gastança são os tricolores Grêmio e Fluminense. Os gaúchos viraram motivo de piada na internet por pagar meio milhão de reais por mês a Kleber, atacante que marcou apenas seis gols no Brasileirão. Já o Flu, turbinado pela Unimed, tem, não por acaso, a mais cara folha salarial do Brasil. O atual campeão brasileiro paga mais de R$ 700 mil por mês a pelo menos três jogadores: Deco e Fred recebem em torno de R$ 750 mil, e Thiago Neves, R$ 720 mil.

 

 

 

As renegociações de direitos televisivos do Campeonato Brasileiro, que elevaram bastante a arrecadação dos clubes, fizeram com que muita gente imaginasse um salto de qualidade técnica nos gramados. Na prática, o que se vê são os empresários pedindo quantias maiores pelos mesmos jogadores de antes. O caso de Thiago Neves é emblemático. Em 2009 ele recebia, do mesmo Fluminense, R$ 120 mil mensais. Em três anos seu salário multiplicou por 6.

 

 

A farra da inflação salarial é vista também nas repatriações de jogadores que não deram certo no exterior. Funciona assim: o atleta se destaca em um clube brasileiro e se transfere para fora para ganhar duas, três vezes mais. Não dá certo e volta para o Brasil em seis ou doze meses, mas sem aceitar reduzir o salário que recebia do clube estrangeiro. Basta fazer um leilão com duas ou três diretorias que se alcança o valor esperado, ou até mais.

A explicação para isto está em um fator comum à economia dos negócios e à da bola: o livre mercado. Os valores pagos aos atletas se ajustam de acordo com a competição existente entre os clubes para fazer as contratações. Se um time bate o pé e não aceita cobrir a oferta dos outros, fica sem o jogador. É o caso da diretoria do Santos, que vem sofrendo pressão da torcida por não ter fechado grandes contratações para 2013. Os dirigentes chegam a acordos com os atletas, mas, antes de assinar o contrato, aparece outra equipe com uma proposta maior e leva o jogador.

 

 

 

Curioso é ver, na lista das maiores folhas salariais, que o Corinthians ocupa apenas a sétima posição entre os que mais gastam. Atual campeão mundial e campeão do Brasileirão em 2011, o Timão gastava, à época da divulgação da lista, “apenas” R$ 5,1 milhões por mês com salários dos jogadores. Menos que o rival Palmeiras, rebaixado para a série B.

Isso porque o clube possui a marca mais valiosa do futebol brasileiro, segundo estudo da BDO RCS Auditores Independentes. Para não falar nos impressionantes valores arrecadados pelo Corinthians com patrocínios e direitos de televisão.

Marcado pela força do conjunto, o elenco corintiano não apresenta extravagâncias na folha salarial. Paulinho, talvez o craque do time, recebeu aumento para $ 350 mil mensais para não deixar o clube após a Libertadores. Emerson Sheik, autor dos gols na final da competição continental, ganha cerca de R$ 300 mil por mês, e o goleiro Cássio, herói da conquista do Mundial, negocia aumento para a próxima temporada. Até dezembro, ele recebia cerca de R$ 70 mil mensais.

 

Após o título mundial sobre o Chelsea, torcedores de outros clubes brasileiros publicaram na internet diversas opiniões preocupadas com o futuro da competitividade do futebol local. A causa é a diferença de arrecadação entre Flamengo e Corinthians e as demais equipes. Os dois times de maior torcida são campeões disparados quando se trata de cotas de televisão e patrocínios nos uniformes.

Segundo a maioria dos relatos desses torcedores, a situação é apocalíptica, e poderemos ver, no Brasil, uma polarização parecida com a que acontece na Espanha, com Real Madrid e Barcelona disputando todos os títulos. Mas, analisando o quanto os clubes têm pagado a jogadores pouco produtivos, talvez a grande questão para o futuro não seja o quanto se tem para gastar, mas sim a capacidade dos dirigentes de escolher melhor em quem investir. Considerando que ideias como um teto salarial para todos os clubes são utópicas, resta confiar no bom senso dos gestores. Caso contrário, mais cedo ou mais tarde poderemos ver novamente cenas como essa:

Comentários

Jornalista. Doente por futebol bem jogado e inimigo de jogadores que desistem da bola para cavar falta e de atacantes "úteis porque marcam os laterais".