O preço da competitividade

nautico

No ano de 2012, todos os fãs do futebol brasileiro viram a boa campanha protagonizada pelo Náutico na elite do futebol brasileiro. Mesmo sem conseguir pontuar com frequência fora de casa, o time apresentou um ótimo futebol e obteve alguns resultados memoráveis dentro de seus domínios, derrubando alguns gigantes do futebol nacional. O bom desempenho pode ser creditado à grande sintonia entre diretoria, comissão técnica, torcida e boa parte do elenco, que mesmo com alguns poucos problemas disciplinares, conseguiu absorver os conceitos do treinador Alexandre Gallo. O padrão de jogo fez florescer vários destaques individuais no Timbu: boa parte do elenco que conquistou a vaga para a Sulamericana terminou a temporada em alta, e o clube hoje tem alguns jogadores valorizados no mercado, que despertam a cobiça dos grandes clubes do país. Se por um lado é um inegável reconhecimento à boa participação dos atletas, por outro, é uma amarga “recompensa” ao clube que teve todo o trabalho de garimpá-los ou até mesmo recuperá-los para o futebol.

É público e notório que os clubes nordestinos sofrem com uma enorme dificuldade para disputar reforços com os clubes do chamado ‘Eixo’. Isso se deve, basicamente, a dois fatores: primeiramente, às óbvias restrições econômicas dos clubes da região. Em segundo lugar, porque os jogadores dificilmente resistem à imensurável oportunidade de estar diuturnamente sob os holofotes de uma mídia que, em um país continental, só olha para meia dúzia de clubes de uma das sub-regiões brasileiras. Poderia ser citado ainda como fator adicional a diferença de nível técnico entre os campeonatos estaduais, mas esse argumento só se aplicaria a alguns casos e, ainda assim, a uma pequena parte da temporada. Por todos esses motivos, boa parte dos jogadores não veem no futebol nordestino um bom destino: muitos preferem até mesmo ser alternativa num “gigante” do que ser titular num clube de menor porte. Assim, a dificuldade econômica dos nordestinos fica ainda mais latente – não raro, os atletas pedem mais alto aos clubes que julgam ser uma oportunidade esportiva menos valorosa.

O “multifuncional” Rhayner: muita entrega, nenhum gol.

O alvirrubro sofre agora, na pele, o preço de ter montado um elenco competitivo. Se o garimpo dos atletas já foi extremamente complicado e mesmo custoso, a dificuldade agora é ainda maior para renovar com os principais destaques do time. O caso de Rhayner é emblemático. O meia-atacante apresentou um futebol de muito vigor físico e entrega, e se valorizou muito com a campanha alvirrubra. Ele, que até hoje nunca havia conseguido se consolidar em nenhum clube e recebeu do Náutico uma grande oportunidade – mesmo contra a vontade de boa parte da diretoria -, recebeu e aceitou uma proposta do campeão Fluminense, já sabendo através de declarações do próprio treinador do Flu que seria contratado para ser reserva de Wellington Nem. Ou seja, o meia perderá a oportunidade de continuar como titular absoluto do Timbu para esquentar o banco de reservas do Tricolor das Laranjeiras. Elicarlos, pilar defensivo do esquema de Gallo, é especulado no Grêmio, cuja torcida já lhe proferiu diversos insultos racistas. Martinez, talvez o principal jogador do time na campanha, agora pede o dobro do valor que recebeu durante 2012. Nesse contexto, o clube fica numa verdadeira sinuca de bico: se vê obrigado a reformular radicalmente seu elenco mesmo tendo tido uma temporada vitoriosa. Se o ano tivesse sido ruim, a reformulação seria igualmente necessária. Ou seja: enquanto os clubes grandes têm todas as condições de manter seus elencos, sendo cada vez menos ameaçados pelas cifras do futebol europeu, os intermediários correm para se reinventar e apostar em garotos ou em veteranos geralmente decadentes.

Essa é apenas mais uma das contradições que fazem do futebol brasileiro um dos menos democráticos do planeta. É evidente que clubes maiores sempre atraíram os melhores jogadores, e isso dificilmente mudará. Dentro do atual cenário do nosso futebol, no entanto, a grandeza (fundamentalmente mercadológica) dos “gigantes” é enormemente desproporcional, a ponto de oprimir e não dar chances aos inúmeros clubes menores, que passam a viver um intenso e crescente ostracismo por simplesmente não ter como competir.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.