Os gênios e a causa nobre

  • por Eduardo Jenisch Barbosa
  • 7 Anos atrás
Foto: Eduardo Jenisch - Fenômeno e Zidane em coletiva oficial.

Foto: Eduardo Jenisch – Fenômeno e Zidane em coletiva oficial.

Para os Doentes por Futebol, a última quarta-feira amanheceu diferente em Porto Alegre. Não por alguma decisão que Grêmio e Internacional iriam participar, até porque estão de férias, mas em função de um evento muito aguardado. A América do Sul, pela primeira vez, recebeu o Jogo Contra a Pobreza. Coube à capital gaúcha e ao novo estádio do Tricolor dos Pampas a honraria de sediar um amistoso muito especial.

O primeiro e mais importante motivo para caracterizar a partida com adjetivos tão generosos é justamente a generosidade, principal intuito do acontecimento. É claro que inciativas como esta estão longe de sanar os problemas da miséria do mundo, mas ajudam a mudar milhares de realidades. A grande maioria fica de braços cruzados. Então, nos resta aplaudir quem tira a bunda do sofá e se dispõe a ajudar o próximo.

É claro que não vou ser hipócrita e negar o óbvio. Os promotores do evento aumentaram substancialmente a minha vontade de ir até a Arena do Grêmio. Acordei ansioso e entrei em contato com o Cleiton dos Santos, companheiro de Doentes aqui do Rio Grande do Sul. Marcamos de nos encontrar em frente ao hotel que hospedou os jogadores e onde foi realizada a coletiva oficial. Os gênios a apenas alguns metros de distância. Para um apaixonado por futebol como eu, momentos para ficar na memória.

Um deles é simplesmente um dos melhores e maiores centroavantes que o mundo já viu. Com o peso das lesões graves ao longo da carreira, a fadiga de meses de exercícios físicos visando emagrecer e uma recente contusão na panturrilha, dificilmente o maior artilheiro das Copas do Mundo iria brilhar em campo. O Fenômeno foi então genial na entrevista. Dono de uma história de superação e talento quase que inigualáveis, Ronaldo encanta a todos com o seu carisma igualmente quase inigualável.

E foi ele que melhor definiu o sentimento de milhões de brasileiros em relação ao outro promotor do amistoso. “Mesmo que tu tenhas frustrado o sonho da nossa Seleção em duas Copas do Mundo, o Brasil te ama, Zidane”. Foi assim que, oficialmente, um gênio recebeu o outro. Reservado, Zinédine até distribuiu sorrisos e falou da felicidade em atuar no Brasil. Mas a presença dele foi mais impactante do que qualquer palavra. Segui praticamente toda a carreira deste jogador, que tinha na genialidade e na elegância as suas principais marcas. Sempre pela televisão. 

O famoso “jogava de terno”, tão clichê quanto verdadeiro para descrever Zizou. E eu estava pertinho desta lenda durante a coletiva. Pode parecer bobo para quem não tem uma ligação tão profunda com o futebol, mas foi histórico ver que o francês era de verdade. Acabada a sessão de respostas, segui com Cleiton para a Arena, onde encontrei Ronaldo Ferreira. Três “Doentes por Futebol” fãs do Fenômeno, mas que estavam ali para ver pela primeira vez Zinédine Zidane atuar diante de seus olhos.

E ele não decepcionou. Lançamentos precisos foram o aperitivo, a forma como fatiou a bola para colocá-la nos pés ou no peito do companheiro, que podia estar a sessenta, setenta, oitenta metros de distância. Foi magistral como sempre. O domínio perfeito e absoluto foi o almoço, o carinho com que matou a pelota, que podia chegar quadrada e parava, redondinha, redondinha, perto do mestre. As passadas largas e a elegância peculiar foram o café da tarde, enquanto que o GOLAÇO cumpriu a função do jantar. A Arena do Grêmio viu um gol de Zidane. Histórico! Refeição completa e um estádio inteiro extasiado diante de tanta genialidade.

Para não ser injusto com Ronaldo em campo, apesar de só andar e pouco participar, o passe para Neymar no primeiro tento de seu time mostrou que o talento não se perde jamais. O mesmo serve para descrever um tal Arthur Coimbra, o quase sessentão Zico. Que habilidade, que técnica, amigos. Ver Bebeto também foi muito especial, um dos ídolos do tetra. O povo gremista ainda pôde vibrar e rir com um Jardel nitidamente fora de forma, enquanto a massa colorada celebrou o gol de Leandro Damião, que decretou a vitória dos Amigos do Ronaldo por 3 a 2.

Cabe uma citação especial ao maior e melhor jogador de Futsal de todos os tempos, Falcão. Deitou, para não acabar o texto sem uma expressão dos boleiros. Abaixo, você confere as escalações completas e outros eternos e atuais craques que passaram por Porto Alegre. Sessenta mil pessoas saíram felizes do estádio. Obrigado, futebol, por você existir.

Ficha técnica:

Jogo Contra a Pobreza — 19/12/2012

Amigos de Ronaldo: 3
Dida (Danrlei); Cafu (Cacá Ferrari e depois Bruno), Júnior Baiano (Réver), Roque Júnior (Amaral) e Roberto Carlos (Serginho); Paulinho, Emerson (Roger Flores), Zico (Leandro Damião); Ronaldo (Djalminha), Neymar (Juninho Paulista) e Bebeto (Lucas)

Amigos de Zidane: 2
Victor Baía (Diego Cavalieri); Salgado (Welerson), Montero (Dedé), Hierro (Gamarra) e Sorín (William); Karembeu (Guiñazu), Deco (Alex), Solari (Ljungberg), Nakata (Falcão); Zidane (Deco), Pauleta (Loco Abreu e depois Jardel)

Gols: Bebeto (R), aos 36min do primeiro tempo; Falcão (Z), aos 15min e Zidane (Z), aos 20min e Cacá Ferrari (R), aos 34min e Leandro Damião (R), aos 41min do segundo tempo.
Arbitragem: Pierluigi Collina (Itália), auxiliado por Altemir Hausmann e Tatiana Freitas.
Local: Arena do Grêmio, em Porto Alegre.

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