Tout Puisant Mazembe: o orgulho Congolês, da África Negra!

  • por Rogério Bibiano
  • 6 Anos atrás

TP Mazembe x Internacional. Mundial de Clubes 2010.
Foto: Getty Images.

Mama África na área e aproveitando o clima, em ritmo de Mundial de Clubes, para esta semana recordaremos a história do Tout Puissant Mazembe Englebert, o TP Mazembe, que entrou para os anais, ao colocar um clube da África, pela primeira vez na história do Mundial de Clubes, numa decisão, conquistando o vice-campeonato mundial em 2010. 

É do conhecimento da maioria que acompanha o futebol num todo, que o continente africano ofereceu e oferece ao Mundo grandes jogadores há um bom tempo. Porém, a maioria das estrelas do continente, numa época de total globalização, têm pouca oportunidade, ou quase nenhuma, de atuar por clubes de seus países, devido aos salários baixos em comparação com qualquer outro mercado futebolístico mundo afora, além da falta de estrutura. Apesar dos avanços organizacionais e financeiros, visíveis dos últimos anos, ainda há muitos aspectos que beiram o amadorismo, no esporte que cada dia mais movimenta cifras milionárias, mas que na África ainda encontra uma breve resistência, claro, tudo isto explicado em grande parte pelos problemas sociais que afetam a maioria das nações do continente africano. Reside aí, nestes aspectos, a grande façanha do TP Mazembe que conseguiu quebrar a sequência de finais América do Sul x Europa, tornando-se o único “intruso” até hoje, na “festa”.

Para que o Doente por Futebol compreenda a grandeza desta façanha, é necessário voltar um ano antes de 2010, quando no dia 15/03/2009, o TP Mazembe fez a sua estréia na Liga dos Campeões da África atropelando o Atlético Petróleos Luanda-ANG, impondo um respeitável 5-1 no agregado. Oito meses depois, o clube de Lubumbashi na República Democrática do Congo ganhava o seu terceiro titulo continental, então treinado pelo francês Diego Garzitto e tendo como destaque os congoleses Dioko Kaluyituka e Trésor Mputu, um time que jogava um futebol funcional e prático, numa clara influência do treinador francês. Naquele Mundial Interclubes, derrota na estreia para o Pohang Steeler-KOR (2×1) e o fim de algo maior, concluído com outra derrota, desta feita para o Auckland City-NZL (3×2), com a equipe ficando na sexta colocação naquele Mundial. 

Em 2010, a equipe congolesa trocou de treinador, saindo Diego Garzitto e assumindo o comando técnico, o senegalês Lamine N’Diaye, que então mudou bastante a forma de jogar da equipe. Se com Garzitto, o time jogava mais fechado, explorando bastante a bola parada, com N’Diaye a situação mudou, com o TP Mazembe passando a atuar num esquema bastante ofensivo e com muita liberdade para o poder técnico disponível. A nova maneira de atuar foi muito bem assimilada pelos jogadores e em campo o resultado foi o bicampeonato da Liga dos Campeões da África, incluindo um inacreditável 5×0 no primeiro jogo da final continental, contra o Espérance-TUN, num 6×1 no agregado final. E lá estava novamente o TP Mazembe rumo ao seu segundo Mundial seguido. Desta vez o time não contava com Trésor Mputu, lesionado, mas ganhava um ótimo camisa dez, o zambiano Given Singuluma, contratado para a Liga dos Campeões e jogador importante naquela no bicampeonato. No Mundial de Clubes, o time tinha 15 jogadores que haviam participado da campanha de 2009.

No dia 10/12/2010, o TP Mazembe estreou em Abu Dhabi-EAU, contra o Pachuca-MEX. Com um futebol leve de bom toque de bola, marcação bem ajustada e muita vontade, surpreenderam os mexicanos, favoritos, vencendo por 1×0, gol do meia defensivo Bedi Mbenza, num belíssimo arremate de fora da área. A vitória pareceu apenas mais uma de um time considerado mais fraco contra um time favorito, mas para o TP Mazembe representava, acima de tudo, uma injeção de confiança e moral.

Quatro dias após a estreia vitoriosa, o TP Mazembe estava nas Semifinais do Mundial, desta vez para enfrentar o Internacional, campeão da Libertadores da América de 2010, campeão Mundial de 2006 e amplo favorito. Uma imensa maioria imaginava que neste confronto teríamos um ataque x defesa. Ledo engano, pois o TP Mazembe, após um começo de jogo mais recuado, com pouca posse de bola, aos poucos foi adentrando no jogo, atacando a equipe colorada. Teve no seu goleiro, Muteba Kidiaba, uma figura importante nos momentos de pressão colorada e conseguiu terminar a primeira etapa daquele confronto sem levar gols. Absolvido da famosa obrigação pela vitória, o TP Mazembe voltou mais confiante, em contrapartida, o Internacional era uma equipe que mostrava-se incomodada com a resistência congolesa e o TP Mazembe soube tirar proveito desta situação de ansiedade e passou a jogar no melhor estilo africano, tocando a bola. 

Até que aos oito minutos da segunda etapa, o meia direita Mulota Kabangu, um dos destaques daquele jogo e daquele time, recebeu ótimo passe no bico da grande área, dominou e colocou, com muita categoria, no ângulo do goleiro Renan. Se antes do gol, o Internacional já demonstrava ansiedade e nítido incomodo com a situação do jogo, após o gol, esta postura piorou, com a equipe brasileira detendo maior posse de bola, tentando o ataque em muitos momentos de forma desordenada, esbarrando num TP Mazembe bem postado defensivamente, que não abdicava da sua proposta de jogo. Então, aos 40 minutos, Alain Dioko Kaluyituka, dominou uma reposição de bola do goleiro Kidiaba, pedalou pra cima do marcador e bateu rasteiro no canto de Renan, decretando assim, o nome na história do clube africano.

No dia 18/12/2010, o TP Mazembe adentrou ao estádio Zayed Sports City, em Abu Dhabi-EAU, para uma inédita final do Mundial, entre África x Europa. Contra algumas expectativas anteriores ao jogo, que imaginavam uma equipe mais recuada, por enfrentar a Inter-ITA, campeã da UEFA Champions League 2009/2010, o treinador Lamine N’Diaye escalou a equipe no mesmo sistema ofensivo dos jogos anteriores:

Muteba Kidiaba no gol; Miala Nkulukutu na lateral direita e Kiritsho Kasusula na lateral esquerda; no centro defensivo Joel Kimwaki e o capitão Mihayo Kazembe, formando a defesa na tradicional linha de quatro defensores; no meio de campo, a equipe tinha quatro jogadores, num losango, com Bedi Mbenza à frente da zaga, pela direita Mulota Kabangu e pela esquerda Given Singuluma faziam um trabalho interessante, pois conforme a situação do jogo, ambos invertiam de posição; mais centralizado, compondo o losango e encarregado de armar as principais ações ofensivas, Digo Kaluyituka, que posteriormente ganhou a bola de prata do Mundial; no ataque, com bastante movimentação, o camaronês Narcisse Ekanga, formava dupla com Kasongo Ngandu. 

A derrota na final para a Internazionale de Milão por 3×0 pouco representou e era algo até certo ponto esperado, mas a equipe africana tinha feito até então algo que ninguém imaginava.
Atualmente dez jogadores que participaram desta campanha estão no elenco do TP Mazembe, que nesta temporada foi semifinalista da Liga dos Campeões da África (eliminado pelo vice-campeão Espérance-TUN). A equipe é tricampeã da República Democrática do Congo e está assegurada para disputar a Liga dos Campeões da África de 2013 e certamente entrará como uma das favoritas. O clube hoje é um dos mais estruturados do continente e conta com diversos jogadores da seleção de Zâmbia, atual campeã da Copa Africana das Nações, além de outros selecionáveis locais e de outros centros da África. 

Um clube que serve de referência dentro da chamada África Negra (países do centro-sul da África), um clube que é orgulho para o seu povo e seus inúmeros torcedores.

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Natural de Telêmaco Borba-PR e criado em meio à "boemia futebolística", com horas de papo sobre futebol, samba e cervejas na pauta. Influência do pai, que também adorava futebol, e da mãe, que sempre apoiou a iniciativa. Técnico em Eletrônica, formado desde 1999, e fanático por futebol, futsal, futebol de praia, society e todo esporte que tenha no futebol a sua essência.

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