71 anos de Eusébio, o Pantera Negra

  • por Levy Guimarães
  • 8 Anos atrás

O local era Lourenço Marques (atual Maputo), capital do Moçambique, na época um território ultramarino pertencente a Portugal. A data, 25 de janeiro de 1942. Dona Elisa Alissabana, mãe de três homens, sonhava em dar à luz uma menina, mas sua expectativa momentaneamente foi frustrada. Nascia naquele dia Eusébio da Silva Ferreira. Mal sabia ela que acabava de presentear o futebol com um dos maiores craques de sua história.

Durante a sofrida infância, Eusébio só tinha um passatempo: jogar futebol nas ruas e nas várzeas improvisadas de Maputo. De mãe pobre e órfão de pai desde os 8 anos, via no esporte bretão sua melhor distração, um momento único para esquecer as mazelas que a vida lhe trazia. 

Começou a jogar ainda adolescente, no Sporting Leandro Lourenço, uma filial do clube homônimo de Lisboa. Por pouco seu destino não tomou rumos completamente diferentes na carreira: observado por Bauer, ex-volante da seleção brasileira nas Copas de 1950 e 1954, foi indicado ao São Paulo. O tricolor paulista desprezou a joia. Com isso, Bauer comentou sobre o jovem jogador com Béla Guttman, treinador do Benfica na época. Foi aí que surgiu o interesse do clube português pelo moçambicano.

Foto: reprodução. Eusébio ainda adolescente pelo Sporting de Lourenço Marques

Foto: reprodução. Eusébio ainda adolescente pelo Sporting de Lourenço Marques


A ida para a Metrópole, aos 18 anos, foi bastante conturbada. Sporting e Benfica lutaram até o fim pela contratação do jogador. Estava tudo acordado entre Sporting, Eusébio e a filial de Lourenço Marques. Numa operação digna de filme policial, representantes do Benfica anteciparam-se ao rival, trazendo o jogador secretamente de avião para Lisboa (foi enviado um telegrama ao Sporting avisando que ele ia de barco) a fim de assinar o contrato com o jovem, tudo com a concordância de sua mãe. Desembarcou no aeroporto, foi rapidamente colocado em um táxi e assinou com as Águias imediatamente, frustrando por completo os dirigentes sportinguistas. Começava, então, a se desenhar uma história que mudaria totalmente os rumos do Benfica e do futebol português.

Devido às várias complicações que envolveram sua transferência, Eusébio só pode estrear pelo Benfica em maio de 1961, já com 19 anos, em um amistoso frente ao Atlético, da 2ª divisão portuguesa, tendo marcado três gols na vitória por 4×2. Com isso, só estreou em jogos oficiais na temporada seguinte.

Teve o privilégio de entrar em um time que acabara de se sagrar campeão europeu e bicampeão nacional em 1960/1961, ao lado de jogadores já consagrados no clube, como Mário Coluna, José Augusto Torres e Antônio Simões . Mas a expectativa em torno do moçambicano era tanta que já chegou com status de estrela, e isso não intimidou a jovem promessa. Logo em sua primeira temporada, marcou 12 gols em 17 jogos pela Primeira Divisão, mas seu maior brilho foi já na Copa Europeia. Foi o principal nome da conquista do segundo título europeu pelo Benfica, marcando 5 gols em 6 partidas (dois deles na decisão frente ao supertime do Real Madrid, com direito a uma atuação de gala do atacante na vitória por 5×3). Naquele momento, a Europa passava a conhecer a magia do futebol do Pantera Negra, marcado pela velocidade, habilidade e pela precisão no arremate.

Eusébio levaria o Benfica a mais 10 títulos portugueses (1962/63, 63/64, 64/65, 66/67, 67/68, 68/69, 70/71, 71/72, 72/73 e 74/75), tendo sido o artilheiro em 7 ocasiões e protagonista do time em quase todas elas. Em 1967/1968, marcou 43 gols em 26 jogos, recorde absoluto de gols em uma única edição do campeonato português. Nesse mesmo ano, ganhou a primeira edição da Chuteira de Ouro da UEFA, prêmio dado ao melhor marcador da temporada no continente, façanha repetida em 1973. Conquistou, ainda, 5 Taças de Portugal e levou os Encarnados a mais três finais de Liga dos Campeões, em 1963 (perdendo para o Milan, por 2×1), 1965 (sendo derrotado pela Internazionale, por 1×0) e 1968 (caindo diante do Manchester United, por 4×1, na prorrogação). Foi artilheiro do torneio europeu em 1965, 66 e 68. Também em 1965, venceu a Bola de Euro da revista France Football, prêmio dado ao melhor futebolista europeu da temporada. Foi segundo colocado desta mesma premiação em 62 e 66.

Foto: L’Équipe – Eusébio, à esquerda, após conquistar a Liga dos Campeões pelo Benfica

Mesmo com tantas glórias por seu clube, foi na seleção portuguesa que chegou ao ponto máximo da carreira. Na Copa do Mundo de 1966, conquiatou um 3º lugar, tendo sido a seleção que apresentou o futebol mais vistoso durante toda a competição. Encantou e surpreendeu o mundo ao destroçar o Brasil de Pelé, marcando 2 gols na vitória por 3×1, que eliminara o atual bicampeão do mundo logo na primeira fase. Nas quartas, marcou mais três tentos na incrível virada contra a Coreia do Norte, por 5×3, depois de estar perdendo por 3 a 0. Foi parado apenas na semifinal, na dura marcação dos anfitriões ingleses, que viriam a ser os campeões do torneio. Porém, sua marca já estava deixada naquele mundial. Artilheiro da Copa, com 9 gols em 6 jogos, e considerado unanimemente o melhor atacante daquela edição.

Eusébio rescindiu com o Benfica ao fim da temporada 1974/75, afetado por uma série de lesões no joelho. Passou por diversos clubes dos Estados Unidos, do México e por dois clubes de menor expressão do futebol português, Beira-Mar e União de Tomar. Porém, as diversas contusões contraídas no joelho não lhe permitiram repetir o mesmo sucesso de seu auge. Seu melhor momento foi pelo Toronto Metros-Croatia, onde conquistou o título da liga norte-americana de futebol, em 1976, e foi eleito o melhor jogador da competição. Aposentou-se no fim de 1979, pelo Buffalo Stalions, da Major Indoor Soccer League.

Foto: reprodução - Eusébio na virada contra a Coreia do Norte, pela Copa de 66

Foto: reprodução – Eusébio na virada contra a Coreia do Norte, pela Copa de 66

Os números de Eusébio são impressionantes. Sua média de gols pelo Benfica em jogos oficiais supera 1 por jogo: são 462 gols em 437 partidas. Pela seleção, são 41 tentos em 64 jogos. No total da carreira, são 615 em 635 vezes que entrou em campo.

A marca do Pantera Negra jamais será esquecida. É, até hoje considerado o maior jogador da história do Benfica e, para muitos, o maior da história do futebol português (inclusive para este colunista). Foi um dos principais nomes do futebol europeu dos anos 60, ao lado de outras lendas como George Best e Bobby Charlton, entre outros. Seja por seus gols, suas arrancadas ou suas conquistas, Eusébio será lembrado eternamente como um dos gigantes que o futebol teve o prazer de assistir.

Foto: Wikipedia - Eusébio foi homenageado pelo Benfica com uma estátua em frente ao Estádio da Luz

Foto: Wikipedia – Eusébio foi homenageado pelo Benfica com uma estátua em frente ao Estádio da Luz

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Estudante de Jornalismo e redator no Placar UOL Esporte, belo-horizontino, apaixonado por esportes e Doente por Futebol. Chega ao ponto de assistir a jogos dos campeonatos mais diversos e até de partidas bem antigas, de décadas atrás.