A “Era dos Pequenos” na Argentina e suas lições para o futebol brasileiro

Arsenal de Sarandí e a taça inédita: consequências da democratização.

Muito se discute sobre a distribuição de receitas de televisão como fator que pode ser obstáculo ou, em alguns casos, incentivo ao equilíbrio no futebol mundial. Infelizmente, nos últimos anos o Brasil tem realçado sua posição de país-modelo de desigualdade. Até 2011, quando se discutia a renovação do contrato de transmissão do Brasileirão, as cotas eram negociadas coletivamente entre os clubes e a Rede Globo, detentora dos direitos de transmissão há décadas. O Clube dos Treze havia recebido da Record uma proposta muito superior à da emissora carioca. Boa parte dos clubes ficou tentada a aceitar os valores da emissora do bispo, mas Andrés Sanchez, então presidente do Corinthians, aproveitou o cenário de incertezas e pulou fora das tratativas com o C13: fechou individualmente um contrato de cifras altíssimas com a Globo. A partir daí, diante do impasse, todos os outros clubes partiram para negociações isoladas de renovação com a emissora carioca.

Andrés Sanchez: o articulador da implosão do C13

Mesmo tendo apresentado uma proposta inferior, a Globo se viu numa situação extremamente favorável: depois de fechar com o Corinthians e mais alguns dos maiores clubes do país, houve uma pressão natural para que os demais clubes também acertassem valores com a emissora, sob pena de sofrer um boicote global. Nesse contexto, o abismo econômico entre os clubes cresceu a olhos vistos: se todos os clubes cederam seus direitos de imagem por valores bem maiores do que o que costumavam receber, por outro lado, o futebol brasileiro passou a viver um cenário de polarização. Flamengo e Corinthians, times mais populares do país, hoje recebem valores consideravelmente superiores ao que recebem outros membros do chamado “G12”. Os clubes de fora do “eixo”, por sua vez, recebem valores ainda menores, e sofrem as consequências de um mercado inflacionado por uma disputa absolutamente desleal em todos os sentidos.

Na Argentina, o futebol sempre teve um caráter extremamente restrito e centralizado. A maioria absoluta dos clubes da Primera Liga são sediados em Buenos Aires e sua região metropolitana. Até a década de 80, não havia campeonato nacional: se chamava Metropolitano, e reunia os principais clubes do país, marginalizando todo o restante das agremiações. No final da década de 80, criou-se o Nacional, porém com ampla prevalência dos clubes da capital. Mas um fenômeno interessante vem acontecendo desde 2009: clubes de menor expressão têm feito boas campanhas, alguns deles alcançando o melhor desempenho de sua história. O Banfield, por exemplo, conquistou o primeiro título nacional de sua centenária história exatamente há três anos, no Apertura de 2009. O Arsenal de Sarandí, que tem quase meio século, venceu o Clausura de 2012, também com ineditismo. Em segundo lugar, ficou o Tigre, pequeno clube do subúrbio de Buenos Aires que só havia feito campanhas tão consistentes em outras duas oportunidades – nos vice-campeonatos dos torneios Apertura de 2007 e 2008. Alguns clubes ainda menores, como o Colón e o Godoy Cruz, não conseguiram títulos, mas protagonizaram campanhas belíssimas, que seus torcedores nunca antes haviam tido o prazer de acompanhar. Todos esses sucessos “inesperados” são frutos de uma mesma semente: a política de Estado batizada de ‘Fútbol para Todos’.

Em 2009, a globalização levava aos vários povos do mundo a maior crise econômica desde o crack de 1929. Na Argentina, as consequências da crise atingiram em cheio a TyC Sports, emissora do grupo Clarín, que detinha os direitos de transmissão do campeonato argentino. Neste contexto, a renovação do contrato ficou inviabilizada pelas profundas dificuldades financeiras por que passava o conglomerado midiático. O governo argentino, então, surpreendeu a todos e comprou os direitos de transmissão, negociando com os clubes um amplo pacote para o saneamento de suas dívidas. Inicialmente, no primeiro ano de contrato, o campeonato foi transmitido apenas pela TV estatal, e nas temporadas seguintes passou a ser distribuído para as emissoras privadas interessadas, por um valor proporcional aos seus índices de audiência. Em relação aos valores fechados com os clubes, houve uma diminuição considerável do abismo econômico entre os clubes grandes e os pequenos: o Boca, por exemplo, está no topo da arrecadação, com cerca de 48 milhões de pesos, enquanto clubes menores como o Arsenal de Sarandí recebem cerca de 26 milhões de pesos. Uma diferença de quase 100% em favor dos “gigantes”, que ainda é grande, mas não ao ponto de oprimir a evolução dos pequenos. Até porque os clubes mais tradicionais estão, em sua grande maioria, atolados de dívidas, cuja amortização vem sendo feita com o dinheiro das transmissões repassado pela AFA.

Javier Pastore: depois de quase conquistar o Clausura 2009, partiu para conquistar a Europa.

A busca por um cenário de igualdade fez da Argentina um país onde os clubes revelam jovens talentos e conseguem mantê-los por um tempo razoável. Se no Brasil os clubes “pequenos” têm dificuldades para descobrir revelações e as perdem com facilidade, diante do grande poder econômico dos principais clubes, nossos irmãos portenhos têm conseguido manter seus jovens craques por tempo suficiente para disputar títulos antes de perdê-los, geralmente para o futebol europeu. Um bom exemplo é o Arsenal de Sarandí, do ótimo zagueiro Lisandro López. O jovem defensor vem tendo bastante destaque nas últimas temporadas, tendo sido peça-chave das recentes conquistas do clube e acumulado algumas convocações para a seleção albiceleste. O futebol europeu e até mesmo o brasileiro já abriram os olhos para o futebol de López, que provavelmente deixará o Arsenal em breve, mas não sem antes ter marcado seu nome na história do clube – além de um gol que concorreu ao Prêmio Puskas de 2011. A Europa assiste há alguns anos o talento de James Rodríguez, apontando-o como um dos meias mais promissores da atualidade. O jovem construiu uma bela carreira no futebol português e hoje é titular da seleção colombiana e assediado por alguns dos gigantes europeus, mas tudo isso só foi possível graças ao seu protagonismo no título do Banfield em 2009. O clube vendeu-o ao Porto, onde hoje ele brilha e sofre assédio dos gigantes do futebol mundial. O Huracán, vice-campeão do Clausura de 2009, revelou o meia Javier Pastore, hoje no multimilionário PSG, e o meia Defederico, vendido ao Corinthians mas já de volta ao clube. Vendas importantes, que podem gerar as condições para a consolidação dos clubes menores. Este é o panorama atual dos clubes argentinos: eles revelam atletas e colhem os frutos, primeiro esportiva e depois economicamente.

Permanência do zagueiro Lisandro López ainda rende frutos ao Arsenal de Sarandí.

Tudo isso não significa, entretanto, que o futebol argentino esteja às mil maravilhas. O esporte ainda continua nas mãos de dirigentes corruptos, cristalizados há várias décadas no comando da AFA. Isso se reflete na grande seca de títulos da seleção argentina, há 20 anos sem nenhuma conquista, mesmo com todos os craques que vestiram a albiceleste nas últimas décadas. Enquanto isso, nesse mesmo período a seleção brasileira levantou vários troféus, e viu seu campeonato nacional repatriar alguns jogadores importantes. Mas o futebol não é uma ciência exata. O futebol brasileiro vive hoje um momento de euforia, sobretudo em função da realização da Copa do Mundo em 2014. Os clubes do “Eixo”, navegando em mares tranquilos e impulsionados pelos vultosos acordos de transmissão de TV, importam craques de outros países e contratam facilmente os destaques dos times de menor porte, que se veem cada vez mais oprimidos por um poder econômico com o qual é difícil competir. Por outro lado, é raro ouvir boas notícias sobre o futebol portenho na nossa mídia nacional – que morre de medo do sucesso do ‘Fútbol para Todos’. Mas depois de uma severa crise econômica na década passada, o futebol argentino começa a se reerguer – e quem puxa a fila são os pequenos.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.