O mineirinho de ouro

  • por Henrique Joncew
  • 6 Anos atrás

7 de dezembro de 1966, segundo tempo de Santos 2×0 Cruzeiro. O alvinegro liderado por Pelé buscava forçar um jogo extra na decisão da Taça Brasil, pois fora atropelado por 6×2 no Mineirão. Tudo parecia bem, até a marcação de um pênalti para o time azul, desperdiçado por um jovem de 19 anos (que havia marcado um gol no jogo de ida). Fato raro, uma penalidade perdida dar motivação a alguém. Mas o garoto sabia que precisava compensar seu erro. E o fez: comandou uma virada celeste para 3×2 dentro de um Pacaembu lotado com um gol de falta e uma assistência. O menino colocou o Cruzeiro em foco, com a conquista de seu primeiro título nacional diante do melhor time do mundo. Nunca um Tostão havia tido tanto valor.

Belo-horizontino, Eduardo Gonçalves de Andrade, quando novo, brincava de futebol com meninos maiores e mais velhos, que lhe deram o apelido de Tostão, moeda de pequeno valor, em analogia com seu tamanho. Relegado à ponta esquerda, para não atrapalhar muito no jogo da “gente grande”, Tostão mostrava um potencial crescente, dominando os fundamentos da bola como ninguém antes havia visto na capital mineira.

Na década de 1960, passou pela base do Cruzeiro e do América, até que o clube celeste enfim decidiu ver quanto valia aquele Tostão. E descobriu que valia 1 Taça Brasil, um pentacampeonato mineiro (1965-66-67-68-69) e 249 gols, marca nunca antes ou depois (até hoje) atingida por nenhum jogador com a camisa azul. O futebol de Tostão era um reflexo de sua personalidade fora de campo: inteligente e elegante. Não à toa demonstrava uma técnica ímpar para movimentar-se, posicionar-se e, claro, criar jogadas de gol com dribles, passes e chutes.

Um jogador tão singular não passou batido diante dos olhos da Seleção Brasileira. Em 1966, participou apenas da derrota brasileira para a Hungria por 3×1 na Copa do Mundo, mas marcou o gol canarinho na ocasião. Mas aquele era o início de uma trajetória muito maior.
Tostão foi o artilheiro do Brasil nas eliminatórias para a Copa de 1970, com 10 gols. Porém, em 1969, dentro de um intervalo de pouco menos de 2 meses, dois acidentes com o olho esquerdo (um choque com Castaños, zagueiro colombiano do Millionarios, da Colômbia, em amistoso da Seleção, e uma bolada do zagueiro corintiano Ditão, num jogo do Cruzeiro) causaram um descolamento de retina que colocou sua carreira em risco. A Copa de 1970 parecia inalcançável para o atacante. Mas Tostão conseguiu retornar ao futebol e iniciou a escrita de que a camisa 9 não significa apenas gol e bom futebol, mas também redenção. Titular do tricampeonato mundial do Brasil, Tostão fez 2 gols na campanha, além de mostrar muita disciplina e inteligência tática. Se Pelé foi o grande craque aos olhos do mundo, o jogador celeste foi eleito o craque da competição por muitos órgãos da imprensa esportiva. O Tostão que valia ouro em 1966 agora valia mais que ouro, diamante, platina e qualquer outra coisa.

Em 1972, o Vasco decidiu comprar o jogador, e desembolsou o maior valor visto até então em uma transferência entre clubes brasileiros. Espantando uma crise, o time cruzmaltino iniciava sua caminhada para seu primeiro título brasileiro, em 1974, contra o Cruzeiro, antigo lar de Tostão. Mas o jogador apenas iniciou o ciclo vencedor, sem colher os frutos do sucesso.

Com apenas 26 anos, Tostão abandonou a carreira em 1973. A alternativa à aposentadoria era continuar jogando e perder a visão do olho esquerdo, que inflamara após um amistoso entre o Vasco e o Argentinos Juniors. Diante dessas duas possibilidades, o abandono foi a melhor escolha. Foi grande o lamento pela perda de um jogador diferente, que aliava um grande futebol com uma postura culta e politizada longe dos gramados.

Humilde, o inteligente ex-jogador buscou novos rumos. Tornou-se médico pela Universidade Federal de Minas Gerais e dedicou-se a falar sobre o esporte que conhecia tão bem. Reconhecidamente um dos grandes comentaristas de futebol, Tostão escreve com simplicidade e correção, mostrando sempre muita lucidez em análises táticas e defendendo sempre o futebol como deve ser: bonito e elegante, tal qual era o seu e dos times cujas cores defendeu.

E hoje, 25 de janeiro, é quando esse Tostão de valor inestimável completa mais um ano de vida. Eterno ídolo celeste, que Tostão continue a contribuir para o futebol com seu trabalho e seus textos exemplares.
Parabéns, Dr. Eduardo! Parabéns, Tostão!

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Geólogo. Fã de futebol, Fórmula 1, paleontologia, astronomia e pirataria desde criança. Belo horizontino, cruzeirense e líbero, armador ou atacante canhoto. Tem Zidane e Velociraptor como grandes ídolos e modelos de vida. Gosta de batata frita, do espaço e de combater o crime à noite sob o disfarce de Escorpião Negro.