O reconhecimento que sai caro, ou: O preço da competitividade – parte II

Após bom trabalho no Náutico, Gallo não titubeou em aceitar o convite para dirigir Seleção sub-20.

No final da tarde de hoje, o futebol pernambucano foi surpreendido com o inesperado anúncio de que o treinador Alexandre Gallo havia sido escolhido como novo treinador da Seleção brasileira sub-20. Após o fiasco no Sul-Americano da categoria, a CBF deu início a uma reformulação radical, que ocasionou a nomeação de Bebeto para o cargo de Coordenador de Seleções de base e já ceifou, entre outros membros da comissão técnica, o treinador Émerson Ávila. Gallo levará consigo o auxiliar Mauricio Copertino, que deixará o clube de forma definitiva, e os preparadores Eduardo Bahia e Elliot Paes, que continuarão no Náutico e se juntarão à seleção apenas nas datas dos jogos.

Conforme já havíamos discutido anteriormente, esta é apenas mais uma faceta (neste caso, bastante excepcional) da imensa dificuldade imposta ao planejamento de todos os clubes médios e pequenos que conseguem resultados expressivos durante um determinado espaço de tempo. Mesmo depois de duras penas para renovar com seus principais destaques e de perder alguns deles para clubes de maior expressão, o Timbu parecia seguir no rumo de um bom trabalho de longo prazo. Boa parte do elenco que conseguiu a classificação para a Sul-Americana na temporada passada foi mantida, e o clube iniciou os trabalhos em 2013 de forma sóbria, numa pré-temporada que visou aprimorar o físico dos atletas para este que promete ser um ano longo, com várias competições por disputar.

Douglas Santos, convocado para a sub-20, é uma das joias do Timbu. Foto: Divulgação/CBF

Até o momento, nas duas primeiras partidas da temporada, o Náutico veio jogando com seu time sub-20, que ainda não perdeu no Campeonato Pernambucano, enquanto os jogadores do time principal continuam a preparação para entrar em campo somente a partir da próxima semana. Ao dar oportunidades aos atletas da base, o Náutico não só dá início ao processo de maturação de seus jovens valores em competições oficiais, como também analisa o material humano disponível no clube para, eventualmente, completar o elenco profissional com os pratas da casa que conseguirem se destacar. Isso mostra que vem sendo feito nos Aflitos um trabalho integrado, entre os profissionais e as categorias de base, que tem gerado bons frutos também dentro de campo, com a revelação de alguns bons talentos como o lateral Douglas Santos, que disputou o Sul-Americano sub-20 pela seleção. O convite de Alexandre Gallo para assumir a função de treinador na seleção é mais um reconhecimento a esse bom trabalho. No entanto, para os clubes médios, o reconhecimento costuma custar muito caro.

Assim, do dia para a noite, toda a pré-temporada alvirrubra entrou em xeque: até que ponto o trabalho de preparação será afetado pela súbita saída do treinador? É uma pergunta difícil de responder, e que ainda depende do nome que será anunciado para substituir Gallo. Dificilmente o Náutico apostará em um nome que não enseje a continuidade de um trabalho pensado no longo prazo e que ainda não atingiu plenamente suas aspirações. Gallo trouxe ao Timbu um estilo de gestão que agradou muito à diretoria do clube, e provavelmente será substituído por um técnico de características parecidas, que não seja vaidoso o suficiente para modificar muito o planejamento traçado que já vem dando resultados. O nome de Cristóvão Borges, que vem sendo apontado pela mídia como prioridade da diretoria, parece se encaixar nesses requisitos, mas certamente não é o que mais agrada à torcida alvirrubra. Jorginho, que foi auxiliar de Dunga na seleção brasileira e estava no futebol japonês, é um dos nomes especulados e sem dúvida é uma das melhores opções disponíveis, mas sua contratação pode estar acima dos padrões econômicos do clube, além de que ele aparenta ser um técnico com mais personalidade, que possivelmente traria mudanças mais significativas. O fato é que o Timbu está numa grande encruzilhada: é hora de reafirmar o bom desempenho do ano passado com bom futebol e, possivelmente, títulos, e a troca no comando deve ser bem conduzida para evitar que todo o bom trabalho seja jogado fora.

Pré-temporada alvirrubra pode ter sido em vão.

Alexandre Gallo, por sua vez, encarou o convite como uma grande oportunidade em sua carreira, já marcada por outros abandonos de projetos em momentos não muito favoráveis. Numa análise mais rasa, pode-se afirmar que a seleção brasileira é sempre uma boa escolha, que traz visibilidade e pode servir de trampolim para grandes clubes, a exemplo do que ocorreu recentemente com Ney Franco. No entanto, o momento da seleção sub-20 não parece ser o mais adequado para quem deseja ser visto: com a pífia campanha na última edição do Sul-Americano, o Brasil não conseguiu a classificação para o Mundial da categoria, que acontecerá no próximo ano. Em outras palavras, Gallo não terá qualquer competição importante para disputar pelo menos até 2015, quando ocorrerá o próximo Sul-Americano. A princípio, nada garante que ele se manterá no cargo até lá – sobretudo num cenário tão cheio de velhas e novas incertezas. Nos próximos dois anos, sua atividade se resumirá a convocar atletas para jogos desimportantes de torneios que pouco valerão para a reafirmação da camisa amarela no cenário do futebol de base.

Um período que poderia ser precioso para alguém que, ao contrário de Gallo, tivesse experiência no trabalho de base, na formação de atletas. Os próximos dois anos, sem dúvida, serão cruciais para o desenvolvimento de promessas como Rafinha Alcântara, Adryan, Ademilson, Bruno Mendes ou o próprio Douglas Santos, e poderiam ser usados para a implementação de mais do que um padrão tático: uma filosofia, que integrasse as seleções brasileiras de base e remodelasse a estrutura da formação de atletas dentro da Seleção. Porém, o atual contexto é extremamente delicado. Dentro de campo, vê-se um grupo de jogadores em frangalhos, recém-saído de um fiasco e cheio de jovens que, em sua maioria, ainda não tiveram grandes atuações nas fileiras profissionais de seus clubes, salvo algumas poucas exceções. O atual momento fora de campo também não ajuda: a CBF é administrada hoje por um presidente grotesco, de histórico medonho e claramente inapto para o cargo. O registro mais lembrado de seu envolvimento com o futebol de base é o lamentável episódio do roubo da medalha na final da Copa São Paulo de Juniores. E a formação de atletas exige atenção e cuidados que dificilmente veremos em uma gestão que sempre parece tomar suas decisões de forma abrupta, transpirando incertezas.

Alexandre Gallo já demonstrou algumas boas qualidades como treinador. Suas passagens pelo Sport e principalmente pelo Náutico o credenciaram a alçar voos maiores, e mais uma vez ele deixa o futebol pernambucano carregando um prestígio que ele não trouxe quando chegou. O desafio agora é a formação de atletas – e homens, sempre convém lembrar – em uma seleção em plena crise técnica e organizacional. Tudo isso sob a batuta de um presidente que caiu de pára-quedas no cargo e nem mesmo parece estar no comando efetivo da situação. O futebol brasileiro torce para que Gallo se mostre à altura das altas expectativas – e das responsabilidades – nele depositadas.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.