A Premier League enriquece; a Seleção Inglesa padece

English Team deixa a Euro-2012 pela porta dos fundos: crise de identidade.

Por Raniery Medeiros

Em pleno século XXI, ano de 2013, o amante do futebol deleita-se mediante a gama de opções para assistir ao futebol internacional. Mas nem sempre foi assim.

Diante do cenário imensurável de opções, existe sempre aquele campeonato que agrada mais. Seja por identificação com um país, clube, jogador, história, etc. Até a década de 90 o Campeonato Italiano era a “terra prometida” para jogadores e espectadores. Os maiores craques encontravam-se na velha bota. Porém, o cenário foi alterado.

A Premier League (Campeonato Inglês) alavancou as suas estruturas e passou por uma verdadeira transformação em 1991/1992, culminando com ideias rentáveis e modernas para o futebol local que ainda sofria com os resquícios de algumas tragédias “campais”. O montante de dinheiro investido proporcionou o crescimento do futebol inglês. Os maiores craques já não mais se encontram na Itália. A “terra prometida” da nova geração é a Premier League. Claro que existem outros campeonatos que também atraem a nossa atenção. No entanto, é difícil tirar a PL do foco no futebol atual.

Com muito dinheiro, investidores pesados, empresas importantes e os melhores jogadores atuando na Inglaterra, ficou impossível não ser fisgado pelo futebol rápido e dinâmico que nos encanta rodada após rodada na PL. A ideia, ainda deturpada, sobre o estilo inglês de jogar (lançamentos e bola aérea) já não cabe mais no contexto atual. Nos alfarrábios? Quem sabe! Porém, existe um refluxo dentro desse investimento pesado que foi feito. Existe algo inversamente proporcional à importação de grandes craques. Esse “quê” de fragmentação é a Seleção Inglesa.

Com a contratação dos grandes craques por parte dos principais clubes, a identidade inglesa foi perdendo espaço dia após dia. Será que os dogmas dessa ilha foram sendo extirpados? Não é demagogia alguma falar que os clubes ingleses estão cada vez menos… ingleses. E quem sofre com isso? A seleção.

Paul Gascoigne chora a eliminação na última boa campanha do English Team.


A última grande campanha do English Team em uma copa do mundo foi o 4º lugar na copa de 1990 realizada na Itália. Perceberam o contraste? A liga local cresceu, tomou corpo, possui os melhores jogadores, altos salários, mas a seleção caminha pela estrada contrária. Quando deveria ser uma via de mão dupla. Mas não é o que acontece.

Durante as copas de 2002, 2006 e 2010 o comandante da seleção não era inglês. Se formos pensar na magnitude disso, é estranho. No mínimo, controverso. Será que não tinha sequer um cidadão inglês (britânico) capaz de comandar a seleção? O último foi Glenn Hoddle, na copa de 1998, quando a Inglaterra sucumbiu diante da Argentina nas oitavas de final.

Não há como mascarar os problemas do English Team. É notório. Se nos principais clubes não se tem um elevado número de ingleses entre os titulares, como girar a manivela e transformar a ação em reação? Ou seja: como firmar jogadores e ter uma seleção forte? Depender das gerações passadas, de craques já em idade avançada não é uma das soluções. Por onde anda a base? Por onde anda o investimento e oportunidade para o jogador local? Isso destoa do que poderia ser feito. A Liga vai muito bem, obrigado. Mas a seleção virou o “bagaço” da laranja. Sem alma, sem vida, sem forças para lutar e transmitir medo ao oponente.

Seleção espanhola conquistou tudo o que era possível nos últimos cinco anos.

No cenário do futebol atual nós temos a Espanha ganhando tudo. Seja no time principal ou nas categorias de base. Modelo a ser copiado? Pode ser. Desde que exista planejamento para tal. A Alemanha não vem vencendo, porém convence com seu futebol vistoso. O que há em comum entre esses dois países? Pesado investimento em jogadores locais e, principalmente, na base. Que é a mola propulsora da rotatividade no futebol. Sai uma geração? Ok! Vamos formar outra. Claro, com a mescla necessária. A identidade não retrata em erro crasso. 

Talvez a Federação Inglesa tenha percebido tamanho erro e após a controversa saída de Fábio Capello, chamou o Inglês Roy Hodgson para comandar a equipe na Eurocopa de 2012. O time parou diante da Itália nas quartas de final, nos pênaltis. Um avanço? Só o tempo poderá nos dizer. Entretanto, a aposta em um técnico local foi o primeiro passo dado em todo esse retrocesso.

Quem lembraria o último goleiro que obteve “sucesso” e sequência jogando na seleção? Claro, antes de Joe Hart. Foi David Seaman. Sim, ele mesmo. Que jogou muito tempo no Arsenal. Atuou nas copas de 1998 e 2002. Também jogou a Euro de 1996 e 2000. O gol, por muito tempo, foi a calamidade pelos lados da ilha que fica ao leste do Canal da Mancha. Parece que Hart já não mais passa esse medo. Aliás, é o único goleiro inglês titular que atua nos chamados grandes times. E dos 20 clubes que disputam a atual temporada da Premier League só 3 goleiros (Ingleses) são titulares: Bunn (Norwich), Foster (West Bromwich) e Davis (Southampton). O último não é titular absoluto.

David Seaman se aposentou e deixou a meta inglesa desprotegida durante anos.


Fiquei pensando e escalando os principais times e contrapondo o número de ingleses como titulares. Fiz melhor. Peguei as escalações de equipes da Alemanha, Espanha, Itália e Inglaterra, analisando quantos jogadores locais foram titulares e quantos entraram no decorrer do jogo. Que fique claro: escalações nas últimas partidas e/ou tendo como base alguns times que já possuem seus 11 titulares definidos. Clubes tradicionais e alguns que estão no topo da tabela.

ALEMANHA

B. Dortmund: Weindenfeller, Hummels, Schmelzer, Kehl, Gundogan, Gotze e Reus. Titulares: 7 / Entraram: Leitner e Bender. Total: 9

Bayern de Munique: Neuer, Lahm, Schweinsteiger Kross e Muller. Titulares: 5 / Entrou: Mario Gómez. Total: 6

ESPANHA:

Real Madrid: Diego López, S. Ramos, Arbeloa e Xabi Alonso. Titulares: 4 / Entrou: Callejón / Total: 5

Barcelona: Valdés, Puyol, Piqué Alba, Busquets, Xavi, Fàbregas, Iniesta e Pedro. Titulares: 9 

Atlético de Madrid: Juanfran, Gabi, M. Suárez, Adrián e Koke. Titulares: 5

ITÁLIA:

Milan: Abbiati, Abate, Montolivo, Pazzini, Balotelli e El Shaarawy. Titulares: 6 

Juventus: Buffon, Barzagli, Marrone, Pirlo, De Ceglie, Giovinco e Matri. Titulares:7 / Entraram: Quagliarella e Padoin . Total: 9

Napoli: De Sanctis, Grava, Cannavaro, Gamberini e Mesto. Titulares: 5 / Entrou: Insigne. Total: 6

INGLATERRA:

Manchester City: Hart, Lescott, Milner e Barry. Titulares: 4

Manchester United: Ferdinand, Cleverley, Carrick e Ronney. Titulares: 4 / Entrou: 1. Total: 5

Chelsea: A. Cole, G. Cahill, Terry, Lampard e Bertrand . Titulares: 5

Arsenal: Walcott, Wilshere e Chamberlain. Titulares: 2

Tottenham: Walker, Dawson, Parker, Lennon e Defoe. Titulares: 5

Alemanha vem apresentando bom futebol e ótimos talentos, mas ainda não conseguiu voltar a levantar troféus.

Conseguiram entender o contraste? Entenderam um dos fatores da crescente de Espanha e Alemanha nos últimos anos? Mesmo a Itália, que ainda vive sob antigos medalhões, está conseguindo revelar e colocar atletas em seus times titulares. A Alemanha (Bundesliga) aposta cada vez mais nos jogadores locais. E a Espanha tem no Barcelona o seu exemplo. Já os clubes ingleses não possuem algo em definitivo. A geração Lampard, Gerrard e Terry está chegando ao fim. A nova geração precisa ir sendo moldada e lapidada dentro da liga local.

Alguns clubes ingleses estão começando a lançar jogadores da base. Porém, é preciso ter paciência e fincar esses atletas em seus elencos. Não adianta fazer isso de maneira efêmera. Precisa ser um ato contínuo. Quem sabe a gente comece a ver a Inglaterra alçando voos mais altos. A geração não é provida de grandes revelações e de bons técnicos. Mas é preciso, no atual momento, achar água no deserto.

Técnico Brendan Rodgers trouxe um sopro de renovação ao Liverpool e ao futebol inglês.

Investimento na Liga sim. Padecer a prata da casa, o atleta local e perder a identidade? Não!

Nesse contexto de crise de identidade no futebol inglês, a exceção vai para o Liverpool. O clube adotou uma nova filosofia em que jovens jogadores e promessas da base estarão tendo maiores oportunidades. No jogo de hoje, diante do Manchester City, sete jogadores ingleses foram titulares. São eles: Wisdom, Carragher, Johnson, Gerrard, Downing, Henderson e Sturridge. Vem sendo a tônica durante a temporada. A crescente do time ao longo do campeonato se deve, é verdade, em grande parte ao desempenho avassalador de Luis Suárez. Mas a aposta no trabalho inovador de Brandon Rodgers e seus meninos dá sinais de que é possível, sim, confiar em jovens talentos. Quem mais torce pelo sucesso dos Reds, sem dúvida, é o combalido English Team.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.