Anos 70, a era dourada do futebol polonês

  • por Vicente Freitas
  • 8 Anos atrás

 

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Hoje, quem é aficionado por futebol internacional conhece “um tal de” Robert Lewandowski, atacante cobiçadíssimo no mercado da bola. Os mais “antenados” conhecem também o ponta-direita Jakub Błaszczykowski, o “Kuba”, e Łukasz Piszczek, lateral-direito, todos os três do Borussia Dortmund. Tem ainda o Wojciech Szczęsny, goleiro do Arsenal de Londres, Ludovic Obraniak, meia do Bordeaux etc. Mas esses nomes, quando juntos no selecionado nacional polonês atual, nem de perto tangenciam os brilhantes feitos do Esquadrão de jogadores como Lato, Deyna, Gadocha, Szymanowski, Szarmach, Tomaszewski, Lubański entre outros grandes (às vezes literalmente) nomes do futebol polonês. Duvida? Leiamos.

O ano é 1972, a Cortina de Ferro pesava sobre a Europa Oriental. Em direção às Olimpíadas de Munique, o esquadrão Białe Orły saiu pelos férreos pórticos de seu país, sem pressão alguma, para deixar o mundo do futebol atônito com um futebol intenso, rápido, técnico e ofensivo. O time era formado por nomes, até então, desconhecidos, sendo Kazimierz Deyna, camisa 10 clássico (mesmo utilizando-se da camisa 12, na “Representação Nacional”) o principal deles. Tal desconhecimento pode ser explicado pelo fato do regime comunista polonês impedir seus jogadores de se profissionalizarem e desfilarem sua classe nos gramados das maiores potências européias (apenas após os 30 anos de idade, era concedida uma espécie de licença para o exercício da atividade fora do país). Por isso a surpresa ante o futebol apresentado por aqueles eslavos, uma geração até hoje lembrada pelos seus pontas velozes (Lato, por exemplo, fazia 100 metros em 10,8 segundos!!!) e sólida defesa.

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A equipe polonesa foi sorteada para testar sua força nos Jogos Olímpicos de Verão de 1972 no Grupo D, junto à Alemanha Oriental, Colômbia e Gana. Sua jornada começou com uma espetacular vitória por 5×1 sobre o escrete sul-americano, com dois gols de Deyna e um “hat-trick” de Gadocha. No jogo seguinte, outro passeio contra os africanos: 4×0 (Deyna, Gadocha (2), Lubański). O jogo mais difícil e que decidiria o 1º colocado no grupo seria contra a forte Alemanha Oriental. O selecionado polonês venceu por 2×1, com dois tentos de Gorgoń.

Já na segunda fase, não havia os tradicionais “playoffs”/mata-matas, mas tão somente dois grupos quadrangulares, d’onde os vencedores de cada um fariam a final com o outro e os segundos colocados jogariam entre si pela medalha de bronze. Sendo assim, à Polônia coube enfrentar, no Grupo 2, Dinamarca, União Soviética e Marrocos.

Na partida contra a Dinamarca, uma surpresa: apenas um empate por 1×1, com gol de Deyna. Tudo levava a crer que era apenas fogo de palha, já que a força-mor do grupo era a temida URSS, próxima adversária, que vinha de vitória por 3×0 sobre Marrocos. Mas os bravos poloneses, talvez motivados pela histórica rivalidade acirrada contra os “russos” (a URSS englobava povos de outra nacionalidade), bateram-nos por uma vitória de virada por 2×1. Mais uma vez o camisa 12, Deyna, balançou as redes da marca da cal, e Zygrfryd Szołtysik completou o placar aos 42 minutos do segundo tempo.

A Polônia assumiu a liderança do seu grupo para não mais perdê-la, já que a URSS massacrou a Dinamarca por 4×0 e os poloneses apenas tiveram que empurrar bêbado em ladeira ao bater a fraca equipe do Marrocos, por 5×0 (Kmiecik, Lubański, Deyna (2) e Gadocha).

Ao longo da competição olímpica, o escrete alvirrubro, liderado e armado num 4-3-3 pelo lendário técnico Kazimierz Górski, obteve a surpreendente medalha de ouro, cruzando com a temida Hungria na final, detentora do título, e vencendo-os por 2×1. Novamente a vitória veio de virada, na derradeira batalha do Estádio Olímpico de Munique, com um novo par de gols do, a essa altura, já mítico Kazimierz Deyna, (o primeiro deles um golaço, após driblar dois jogadores e chutar de fora da área). Era, enfim, verdade. A tão sonhada medalha de ouro resplandecia no peito daqueles jovens jogadores (Deyna e Lubański tinham 24 anos, Ćmikiewicz, 23, Gorgoń, 22 etc). A Polônia passou a ser, ao menos, conhecida.

Já no decorrer das eliminatórias, a Polônia já dava indícios de que chegaria com força na Copa do Mundo. Em seu grupo, sua concorrente direta por um lugar na Copa era a seleção da Inglaterra. Na partida de ida, em casa, vitória por 2×0, gols de Gadocha e Lubański. Na volta, jogando no Wembley, o time polonês conseguiu um empate épico por 1×1, com atuação exuberante do fantástico guarda-metas Tomaszewski e com gol marcado por Domarski. Assim, os poloneses deixaram de fora da Copa o “English Team”.

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Foto: Reprodução – Os medalhistas olímpicos.

Dois anos após a estarrecedora conquista em Munique, mantendo a base do grupo dourado de 1972, a Reprezentacja Polski voltou à Alemanha Ocidental para mais uma vez encantar o mundo do futebol, que talvez cresse que o visto em Munique fosse um mero evento único. Mas os acontecimentos daquele verão europeu provaram o contrário, mesmo com a triste baixa de Lubański, devido a uma fratura no pé. Ele foi substituído por um então desconhecido chamado Grzegorz Lato, que liderou o time polonês que assombrou o Globo mais uma vez, mesmo tendo caído num grupo forte, composto pela sempre “chata” Itália, além da forte Argentina. A Polônia era vista como a terceira força neste Grupo D, completado pelo pobre Haiti.

A campanha começa em 15 de junho de 1974, com uma vitória apertada contra “La Albiceleste” por 3×2, gols de Lato (2) e Szarmach.

A partida seguinte foi extremamente tranqüila, vitória de 7×0 contra os haitianos, com tentos de Szarmach (3), Lato (2), Deyna e Gorgoń.
Com a classificação encaminhada, era a hora de jogar contra a Itália e, mais uma vez, “os Águias Brancas” triunfaram, com o placar de 2:1. O placar foi construído com gols de Szarmach e Deyna, terminando a primeira fase com 100% de aproveitamento, com seis pontos (na época a vitória valia apenas dois pontos).

Igualmente às Olimpíadas, não havia a fase de “mata-mata”. Era o mesmo regulamento em que os vencedores dos grupos quadrangulares fariam a decisão e os segundos colocadas pelejariam pela medalha de bronze. Sendo assim, à Polônia coube enfrentar, no Grupo 2, a Iugoslávia, a Suécia e a Seleção dona da casa.

Foi neste momento decisivo que Lato (“verão” em polonês) mostrou que esta era a sua época, marcando o gol da vitória contra os suecos (1×0) e contra a Iugoslávia (2×1). O outro tento deste último embate foi marcado por Deyna, de pênalti.

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Foto: Reprodução – Lato é o maior jogador desta geração polonesa.

Os 100% de aproveitamento foram embora com a derrota para os “Panzer” alemães, por 1:0 (gol dele, Gerd Müller). Com o resultado, a Alemanha Ocidental ficou com a liderança do grupo, frustrando o sonho dos Biało-czerwoni de se tornarem a primeira seleção eslava a se sagrar campeã mundial de futebol (o Brasil frustrou a Tchecoslováquia na final de 1962, no Chile), já que os teutões venceram todos os jogos do seu quadrangular, deixando os poloneses em segundo do grupo.

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Foto: Reprodução – a equipe que conquistou o terceiro lugar na Copa do Mundo de 1974.

Mesmo abatidos, coube à seleção polonesa jogar contra os atuais campeões mundiais, os temidos brasileiros, que foram surpreendidos pelo futebol total do Carrossel Holandês, ficando em segundo do Grupo 1, que foi liderado pela Laranja Mecânica.


A batalha pela honra brônzea foi bastante acirrada, com Lato marcando, aos 31 minutos do 2º tempo, o seu sétimo gol no torneio, sagrando-se artilheiro do certame. 

Mais que conhecida, a Polônia era, naquele momento, futebolisticamente respeitada.

Comentários

Pernambucano. Formado em Direito, pela UFPE. “Sofredor” do Santa Cruz FC e apaixonado pelos Aurinegros de Dortmund, acompanha o Tottenham Hotspurs na Premier League. Germanófilo e Eslavófilo, apesar de não saber nada em alemão, muito menos em russo, tcheco ou polonês. Entende que o futebol perfeito seria uma mistura de verticalidade e disciplina tática alemã, técnica e elegância argentina e raça uruguaia. É fã de Nedved, Pirlo, Zidane, Romário, Kahn, Messi. Tem raiva de não ter visto Puskas, Heleno de Freitas, Cruyff, Pelé, Maradona, Sammer e nem Beckenbauer jogar.