Costa do Marfim: geração de ouro sem resultados

  • por Lucas Sartorelli
  • 8 Anos atrás

2014

Barry; Aurier, Zokora, Bamba e Boka;  Tioté, Serey Die e Yayá Touré;  Kalou, Gervinho e Drogba.

A mais brilhante geração de jogadores da Costa do Marfim perdeu, na Copa do Mundo de 2014, provavelmente sua última chance de obter o tão aguardado destaque no cenário internacional para sua seleção.

Depois de um heroico 4º lugar na Copa das confederações de 1992, o país pobre de 20 milhões de habitantes começou a aparecer de fato para o futebol há pouco mais de 10 anos, quando transformou-se em um dos mais fascinantes viveiros de talentos do futebol africano.

Parte desse sucesso deve-se ao ASEC Mimosas, tradicional clube marfinense, que nos últimos 20 anos manteve ligações íntimas com o time belga Beveren. Turbinado financeiramente pelo francês Jean-Marc Guillou, deu um salto gigantesco em sua estrutura, modelando-a ao melhor estilo europeu e evidenciando as categorias de base, fator determinante no surgimento de tantas promessas. Barry, Eboué, Zokora, Boka, Romaric, Gervinho, Kalou e os irmãos Touré são exemplos de jovens formados e revelados na academia de talentos. O astro maior, Didier Drogba, é uma exceção.

ASEC Mimosas: exportadora de craques marfinenses para a Europa

ASEC Mimosas: exportadora de craques marfinenses para a Europa

A histórica classificação para seu primeiro mundial, em 2006 na Alemanha, viria de forma tranquila. Comandada pelo bósnio Vahid Halilhodzic e já com inúmeros jogadores de renome internacional, a seleção liderou o grupo 3, deixando os tradicionais Camarões e Egito para trás. Porém, a mesma sorte não a acompanhou na Alemanha. Depois de cair no chamado Grupo da Morte, com Argentina, Holanda e Sérvia e Montenegro, a Costa do Marfim acabaria eliminada logo na primeira fase, com duas derrota e uma vitória.

A Copa Africana de Nações de 2008 seria o objetivo. Após uma campanha incontestável na primeira fase, terminando invicta, os “elefantes” mostraram nas quartas de final que não estavam para brincadeira, goleando Guiné por 5×0. O castigo, porém, viria na fase seguinte, contra o mesmo Egito do grupo das eliminatórias da Copa de 2006. Em uma partida irreconhecível, os marfinenses foram derrotados por 4×1 e o sonho do título terminou ali.

A classificação para a Copa do Mundo de 2010 era conquistada novamente com facilidade. Na primeira fase, a Costa do Marfim terminou na liderança de seu grupo com três vitórias e três empates, enquanto na fase decisiva foi ainda melhor e conquistou cinco vitórias e apenas um empate, sem ser derrotada nenhuma vez.

Em março de 2010, após mais um fracasso na Copa Africana de Nações do mesmo ano e há poucos meses da Copa na África do Sul, o treinador sueco Sven Goran-Eriksson assumiu a seleção, que naquela altura já sabia que precisaria dar o melhor de si para avançar em um grupo com Brasil e Portugal e apenas duas vagas a serem disputadas. No entanto, apesar de conquistar uma boa vitória por 3×0 contra a Coréia do Norte, empatou com Portugal e perdeu para o Brasil, terminando na 3ª colocação do grupo e amargando mais uma vez a eliminação em um mundial.

Copa de 2010: vitória contra a Coréia do Norte não foi suficiente para classificação

Copa de 2010: vitória contra a Coréia do Norte não foi suficiente para classificação

Enfim, vieram mais duas Copas Africanas, e mais duas decepções. A de 2012, quando a seleção comandada pelo artilheiro Didier Drogba chegaria na final e perderia de forma dramática para Zâmbia, nos pênaltis; e a de 2013, que após mais uma boa campanha, sucumbiria para a tradicional Nigéria, nas semifinais.

Copa Africana de Nações 2013: eliminação para a Nigéria

Copa Africana de Nações 2013: eliminação para a Nigéria

Para a Copa de 2014, além do elenco novamente estrelado, a grande aposta era o treinador francês Sabri Lamouchi que, apesar da pouca experiência no cargo, teve boas passagens por grandes clubes europeus como jogador.

A Costa do Marfim esteve presente no Grupo C das Eliminatórias, juntamente com Marrocos, Tanzânia e Gâmbia. Passou com muita facilidade à segunda fase, não perdendo nenhum jogo. Na segunda fase, contra o bom Senegal, manteve o retrospecto: venceu em casa por 3×1 e empatou fora. O passaporte para mais um mundial estava garantido.

Livre dos tradicionais grupos da morte e disputando duas vagas com seleções de nível técnico equivalente (Grécia, Japão e Colômbia), o time desembarcou no Brasil confiante na passagem de fase, especialmente motivado pela presença do volante Yayá Touré no Manchester City, considerado um dos melhores jogadores do mundo na atualidade por seu futebol apresentado na última temporada. Em campo, no entanto, o renomes mais uma vez não se justificaram. Apesar da vitória na estreia contra o frágil Japão por 2×1, os africanos perderam os dois confrontos finais contra Colômbia e Grécia pelo mesmo placar e deram adeus à Copa ainda na primeira fase.

Eléphants équipe vert

Foto: fif-ci.com | Copa 2014: a última chance

Azar? Falta de entrosamento? Difícil explicar.

O que vemos é um grupo talentoso que, coletivamente, não faz jus à fama que cada jogador conquistou em seu clube europeu. Treinam pouco tempo juntos e estão longe, no campo e fora dele, de formar uma verdadeira equipe. Situação que Gana, sétima colocada em 2010, enfrenta de forma semelhante, porém mostrando mais consistência na hora de montar um time.

Fato é que boa parte dessa geração marfinense, hoje já mais envelhecida, teria tido claras condições de transformar de vez o futebol africano, dando um salto a nível de Copa do Mundo e muito provavelmente de ter se tornado o melhor time africano de todos os tempos. Atualmente, os futuros candidatos a astros continuam surgindo do pequeno país e se destacando na Europa.

Nos resta torcer para que os investimentos em centros de formação continuem sendo feitos e que a seleção enfim passe da condição de favorita para campeã. Talento não falta.

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Paulistano, projeto de jornalista e absolutamente ligado a tudo o que envolve essa arte chamada futebol, desde a elegante final de uma Copa do Mundo às peculiaridades alternativas das divisões mais obscuras de nosso amado esporte bretão. Frequentador assíduo nas melhores (e piores) várzeas e peladas de fim de semana, sempre à disposição para atuar em qualquer posição.