França: terra fértil para se plantar e colher nas categorias de base

Lacazette, Grenier, Gonalons e Umtiti comemoram gol do Lyon juntamente com Gomis | FOTO: Lancenet

Lacazette, Grenier, Gonalons e Umtiti comemoram gol do Lyon juntamente com Gomis | FOTO: Lancenet

Aproveitar os jovens valores que surgem nas categorias de bases é um artifício que, a cada temporada, mais e mais times utilizam no futebol mundial. No Brasil, essa tática sempre foi recorrente – não em função de opção, mas por sobrevivência – contudo, na Europa, promover atletas das categorias inferiores e dar chances às joias vem se tornando uma prática cada vez mais aparente, até mesmo nos grandes clubes. O badalado Barcelona é o exemplo mais clássico e didático que podemos utilizar. Antes dele, o Ajax, da Holanda, já fazia isso de forma muito bem feita na década de 90, principalmente. Nesse período, grandes jogadores foram revelados ao mundo, dando muita credibilidade ao trabalho das categorias de bases do time holandês.

No França, todos os clubes da primeira divisão utilizam-se de tal artifício. Isso acontece devido ao fato do Campeonato Francês ser um grande exportador de jogadores, tendo, inclusive, a Premier League – considerada por muitos a melhor liga atualmente – como um dos clientes mais fiéis. O continente africano, por ter uma proximidade geográfica, acaba se tornando um grande alimento para as categorias de bases dos times franceses, que aproveitam muitos talentos nascidos por lá ou com raízes e descendências africanas. O fraco nível das competições nacionais, seja na “África Negra” ou no norte do continente, faz com que os bons jogadores saiam de lá e busquem o sonho de despontar em uma grande liga da Europa. E a França, quase sempre, é o destino mais procurado.

Além de ser perto da África, como já foi dito, a Liga Francesa se torna um dos caminhos prediletos dos africanos por também dar chance aos jovens. E isso é um estimulante fundamental para alimentar os sonhos dos garotos que largam a vida africana para se aventurar no frio europeu. E a receita vem dando certo já faz algum tempo. Ano após ano os clubes franceses estão deixando de investir pesado em contratações para dar chances ao que vem de seu quintal.

O único time que, recentemente, foge dessa linha de pensamento é o PSG. Isso ocorre até mesmo por motivos óbvios. A estratégia do bilionário Paris-Saint Germain é outra, o que o torna uma exceção entre todos os outros 19 times da Ligue1. E isso é possível de se comprovar nessa última janela de inverno. O time de Paris foi o único que gastou mais do que recebeu em transações de jogadores. Não fez nenhuma venda envolvendo dinheiro – isso significa que se desvencilhou de alguns jogadores sem receber nada em troca – e gastou uma boa nota na contratação do brasileiro Lucas (40M de euros).

Fechando o adendo em relação ao PSG, voltamos ao tema principal: os frutos das categorias de bases. O Lyon, atualmente segundo colocado na Ligue1, e ainda fazendo frente ao poderoso Paris-Saint Germain, utiliza-se em sua equipe titular de cinco a seis jogadores formados em suas escolas. E todos com grande futuro pela frente no futebol, até mesmo por já terem certo destaque na competição nacional. Outro exemplo clássico é o Lille, que também aposta em seus jovens talentos e consegue vendê-los a preços salgados algum tempo depois de “colhê-los”.

Até mesmo na Ligue2 é possível enxergar grandes talentos e que podem alçar voos ainda maiores. Na atual temporada do Campeonato Francês, é possível falar de dois jogadores que, até pouco tempo, rondavam a segundona francesa e hoje são as principais armas de seus respectivos clubes: Valentin Eysseric (meia cerebral do Nice, 20 anos, formado nas categorias de bases do Mônaco) e Romain Alessandrini (meia-atacante do Rennes, 23 anos, formado na base do Gueugnon e com recente passagem pelo Clermont). Ambos os atletas já possuem um destaque respeitável na Ligue1. Alessandrini, por exemplo, recentemente foi convocado por Didier Deschamps, alcançando a Seleção Francesa de maneira, digamos, meteórica.

Buscar um compilado de gols e jogadas do Eysseric é complicado. Ele despontou tão rápido que ainda não criaram nada para ele no YouTube. Mas você pode achar alguns gols deles espalhados por aí. Do Alessandrini já está mais “famoso” no site de videos. Segue o vídeo dele abaixo:

Os dois jogadores citados acima foram só exemplos rasos de jogadores que eram da Ligue2. Mas na própria Ligue1 já existem bons talentos que, logo mais, irão aparecer em grandes potências mundiais. Hoje mesmo, o ótimo meia do Montpellier – e principal responsável pelo título nacional do MHSC na última temporada – deu entrevista ao Canal + dizendo que não fica no clube na próxima temporada. Younès Belhanda afirmou que já tem proposta de um grande clube europeu e que deixará a sua casa logo mais. Sorte daquele que conseguir contratar esse baita jogador:

Ficar falando aqui de um por um seria difícil e trabalhoso. Repito que são inúmeros jogadores que já possuem condições de deixar o Campeonato Francês e atuar, inclusive, em times de primeira linha de outras ligas maiores. Fiz uma busca nos 20 clubes da primeira divisão francesa e deixo aqui abaixo os nomes de jogadores, todos eles com menos de 24 anos, que são destaques no seus respectivos times (ou joias a serem lapidadas), e que logo terão seus nomes voltados aos holofotes dos mercados de transferências. Vários deles são franceses, mas ao lado, deixei a descendência de cada um deles para se notar a influência do continente africano nas categorias de bases dos clubes franceses.

Não necessariamente todos abaixo são formados nas categorias de base. Mas certamente todos eles foram observados de maneira precoce pelos clubes franceses e, com certeza, não saíram de seus times de origem por um dinheiro muito alto. Segue a listagem:

GOLEIROS:
David Ospina (Nice – 24 anos, colombiano);
Ali Ahamada (Toulouse – 21 anos, francês);
Pierrick Cros (Sochaux – 21 anos, francês);

LATERAIS DIREITO:
Brice Djá Djédjé (Evian – 22 anos, marfinense);
Sébastian Corchia (Sochaux – 22 anos, francês);
Gaëtan Bong (Valenciennes, 24 anos, camaronês);
Kévin Théophile-Catherine (Rennes, 23 anos, francês);

LATERAIS ESQUERDO:
Timothée Kolodziejczak (Nice – 21 anos, francês/polonês);
Fabrice N’Sakala (Troyes – 22 anos, francês);
Lucas Digne (Lille – 19 anos, francês);
Samuel Umtiti (Lyon – 19 anos, francês/camaronês);
Faouzi Ghoulam (Saint-Étienne, 22 anos, argelino);

ZAGUEIROS:
Nicolas N’Koulou (Marseille – 22 anos, camaronês);
Nicolas Isimat-Mirin (Valenciennes – 21 anos, francês/haitiano);
Mamadou Sakho (PSG – 23 anos, francês/senegalês);
Aymen Abdennour (Toulouse – 23 anos, tunisiano);

VOLANTES:
Maxime Gonalons (Lyon – 23 anos, francês);
Franck Tabanou (Toulouse, 24 anos, francês);
Joshua Guilavogui (Saint-Étienne, 22 anos, francês/guineense);
Adrien Rabiot (Toulouse, 17 anos(!!), francês);
Benjamin Stambouli (Montpellier, 22 anos, francês);
Gueïda Fofana (Lyon, 21 anos, francês);
Idrissa Gueye (Lille, 23 anos, senegalês);

MEIAS:
Younès Belhanda (Montpellier, 22 anos, marroquino);
Romain Alessandrini (Rennes, 23 anos, francês);
Rémy Cabella (Montpellier, 22 anos, francês);
Marvin Martin (Lille, 24 anos, francês);
Yohan Mollo (Saint-Étienne, 23 anos, francês);
Valentin Eysseric (Nice, 20 anos, francês);
Ryad Boudebouz (Sochaux, 23 anos, francês/argelino);
Whabi Khazri (Bastia, 22 anos, tunisiano);
Karim Aït-Fana (Montpellier, 23 anos, marroquino);
Clément Grenier (Lyon, 22 anos, francês);
Rachid Ghezzal (Lyon, 20 anos, argelino);

ATACANTES:
Wissam Ben-Yedder (Toulouse, 22 anos, tunisiano);
Ryan Mendes (Lille, 23 anos, caboverdiano);
Neal Maupay (Nice, 16(!!!) anos, francês/argentino);
Pierre-Emerick Aubameyang (Saint-Étienne, 23 anos, gabonês);
Alexandre Lacazette (Lyon, 21 anos, francês);
Andre Ayew (Marseille, 23 anos, ganês);
Jordan Ayew (Marseille, 21 anos, ganês);
Yassine Benzia (Lyon, 18 anos, francês/argelino);
Cédric Bakambu (Sochaux, 21 anos, francês/congolês);
Vincent Aboubakar (Valenciennes, 21 anos, camaronês);
Nolan Roux (Lille, 24 anos, francês)

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Curte Campeonato Francês e é torcedor do Olympique LYONnais. Dono do único blog do Lyon no Brasil. Já foi colaborador do Jogo Aberto, blog do Lédio Carmona. Já foi colunista de futebol francês da extinta Revista Doentes por Futebol e do portal Os Geraldinos. Foi comentarista da Rádio Futebol Plus. Hoje em dia é editor chefe e sócio-fundador da Doentes Por Futebol. Participa do "Le podcast du Foot", podcast sobre futebol francês do colunista Bruno Pessa, do Portal IG. E é colaborador de futebol Francês no programa "[email protected]", da Rádio Globo SP.