Novo Mineirão: se a inauguração foi um teste, o estádio está sumariamente reprovado!

Revolta dos torcedores (Cam1sa Do2e)

Reprodução | Cam1sa Do2e

Tenho 24 anos. Frequento estádio de futebol em Belo Horizonte desde os meus sete, oito anos de idade… Durante a semana passada, imaginava que ir ao Mineirão neste domingo seria um dia de consagração. Não importa de que lado: seja do Cruzeiro ou do Atlético. Acima de tudo, o Mineirão é um patrimônio de todos os torcedores de BH. Supostamente atendendo aos padrões FIFA, previ que os torcedores teriam um tratamento VIP, bem diferente do que já estávamos acostumados a ver por aqui. Não só em Belo Horizonte, como em qualquer canto do Brasil.

Ledo engano! Os problemas começaram já na venda de ingressos. Muito tumulto, erros, atrasos, e até mesmo o nome do Cruzeiro sendo impresso de maneira vergonhosamente incorreta no próprio bilhete do estádio. Além disso, cerca de 600 sócios-torcedores do lado azul ficaram sem conseguir entradas para o jogo de hoje.

Até então, eu imaginava que poderia ser um acidente de percurso. Tudo é novo e essas coisas acontecem. Mas em relação à partida deste domingo, eu ainda tenha plena consciência que todos os empecilhos da semana seriam esquecidos. Novamente me enganei.

A partida começava às 17h do horário Brasília. Ainda às 13h, a primeira briga era relatada na estação do metrô do bairro Eldorado. De alguma maneira, a polícia simplesmente “esqueceu” de fazer a vigilância no local, que sempre se torna ponto de confusões em dia de clássico. Segundo o relato de um agente da estação, em entrevista a Rádio Itatiaia, o confronto entre os torcedores tinha cerca de 300 pessoas reunidas. Anote aí e não perca as contas: é o primeiro absurdo do dia. Felizmente, por milagre, não tivemos problemas mais sérios neste episódio.

Avançando um pouco o relógio, agora para as 14h. Resolvi sair de casa, de carro, perto do centro da cidade, em direção ao Mineirão. Três horas antes da partida se iniciar, enormes pontos de engarrafamento já eram relatados nas duas vias de acesso ao Mineirão: as avenidas Catalão e Antônio Carlos.

Na chegada aos arredores do novo Mineirão, a notícia que vinha dos meios de comunicação é a de que as portas do estacionamento do estádio não foram abertas no horário previsto, ocasionando grande parte do engarrafamento. Quando abertas, só havia 2.640 vagas, para uma quantidade de quase 50mil torcedores. Isso sem falar que os estacionamentos nos arredores do estádio foram proibidos, durante a semana, de serem abertos no dia do clássico. O motivo? Ninguém sabe ainda.

Quando finalmente arrumei uma vaga para estacionar – relativamente longe do estádio – me dirigi a minha entrada. Ao ingressar no Mineirão, tudo parecia estar bem. Passei pelo primeiro portão sem problemas. Pelo segundo, um agente da “Minas Arena”, empresa que gere o novo estádio, apenas conferiu o meu setor no ingresso e me pediu para prosseguir. Na hora de passar pelas roletas, encontrei um enorme tumulto. Muita gente se digladiava para passar pelo local. Um empurra- empurra sem nenhuma explicação. Havia poucos agentes para organizar a situação e cerca de quatro PMs para controlar uma multidão que já passava das duzentas pessoas. A situação beirava o caos. Se desse um princípio de briga, as grades de proteção fatalmente cairiam no chão e muita gente seria pisoteada. Felizmente nada disso ocorreu. Pelo menos até a minha passagem pelas roletas.

Já finalmente dentro do Mineirão, senti falta de um dos serviços mais básicos de qualquer grande evento: simplesmente não passei por nenhuma revista policial. Nada! Qualquer um ali poderia entrar com arma sem ser incomodado ou barrado por alguém. Ao que parece, o tal “padrão FIFA” exige uma revista de seguranças particulares e não de PMs. E não vi nenhum, nem outro por lá.

Subi as escadas e, quando me dei conta, estava no meio de uma das torcidas organizadas. Queria procurar o meu local, descrito no ingresso, mas quando olhei para o lado e vi todo mundo em “qualquer lugar”, e nem me dei ao trabalho de procurar a minha cadeira numerada. Somente visualizei um espaço aleatório, com cadeiras vazias, e sentei por lá, junto com alguns colegas.

Ainda faltava uma hora para o começo da partida. Um dos meus colegas, ao se levantar de uma das cadeiras (que até então eram descritas como super-resistentes, inclusive com a necessidade de uma ferramenta para arrancá-las do lugar) simplesmente a mesma se soltou e caiu no chão. Ele ainda tentou volta-la para o lugar… Em vão. Ficou por isso mesmo.

Tarde de sol forte e um calor tradicional do verão brasileiro. Em certo momento, a sede bateu. Na hora de procurar água – ou qualquer tipo de bebida – nada foi encontrado. Os bares do Mineirão estavam todos fechados. Pasmem: estavam sem o alvará de funcionamento. A burocracia impediu que qualquer tipo de serviço fosse comercializado dentro do novo Mineirão. Mas como não avisaram isso antes? Como colocar um evento desse porte sem poder vender sequer um copo d’água? Pode parecer clichê, mas IMAGINA NA COPA???

Pessoas se empurravam e faziam enormes filas para usar os poucos bebedouros encontrados. Aqueles que não funcionavam, eram depredados pelos torcedores que não se conformavam com o descaso. Os vídeos aqui anexados são do blog atleticano do Cam1sa Do2e, do jornalista Fael Lima. Reparem o nível de revolta daqueles presentes, que sentiam sede, e nada podiam fazer em relação a isso.

Sobre essa questão de água e refrigerantes, até mesmo nos camarotes, onde os preços dos ingressos eram, em média, de R$200,00, também chegou ao fim e não havia o que fazer para suprir a necessidade. O jeito era sentir sede mesmo, esperar a partida terminar, e “dar o seu jeito”.

E quem disse que o problema era somente com os comes e bebes? Os banheiros também estavam em situações precárias. Em praticamente todos eles não tinha papel higiênico. Relatos de torcedores apontam que em alguns toaletes ainda estavam em processo de construção. Isso quer dizer que o banheiro estava mal acabado. Mais um grande absurdo para um evento do porte de um Cruzeiro x Atlético na grande reinauguração do estádio.

Bebedouro Quebrado (Cam1sa Do2e)

O jornalista Fael Lima flagrou as depredações aos bebedouros | Cam1sa Do2e

Outro fato lamentável relatado por alguns amigos era a falta de divisão de setores dentro do Mineirão. Nas vendas, existiam valores diferenciados nos ingressos. Alguns, inclusive, eram comercializados pelo dobro do preço dos outros. Mas lá dentro do estádio, nas arquibancadas, não existia qualquer tipo de divisão. Nem grades, nem cordas, nem um agente da “Minas Arena” para resolver. Resultado? Obviamente alguns vários “espertões” passaram para o setor mais caro, o que causou superlotação nesses locais.

Durante o intervalo do jogo, poucas pessoas chegaram a perceber isto: O sistema de irrigação do gramado foi acionado. O calor era forte e o gramado realmente precisava daquilo. Acontece que alguns irrigadores foram colocados exatamente atrás das placas de publicidade. Ao serem acionados, começaram a molhar equipamentos e pertences das equipes de imprensa que por aquele lado trabalhavam. Vi câmeras filmadoras, máquinas fotográficas e mochilas sendo exaustivamente molhadas, enquanto os profissionais corriam para tentar salvar os seus objetos.

Somente tenho duas coisas a exaltar positivamente: 1) Dentro ou fora do estádio, não vi nenhuma confusão envolvendo torcedores (mesmo que meus irmãos, que foram em outro setor, tenham relatado um princípio de briga em função das cadeiras numeradas, que alguns queriam respeitar, mas que a gigantesca maioria não estava nem aí). 2) A partida, em si, que acabou se tornando um coadjuvante da coisa toda, foi um jogo digno de clássico e, ela sim, honrou a presença massiva dos torcedores. Sem querer julgar time A ou B, o jogo foi aguerrido, ao menos.

Juro que queria escrever um relato elogioso ao novo estádio de Belo Horizonte, mas o sentimento de revolta faz com que eu descrevesse situações como estas acima. A justificativa de que era o primeiro jogo não cabe. Faltou (e muito) preparo por parte de todo mundo, e bom senso também. Por hora, só voltarei ao Mineirão na Copa das Confederações… Isso somente porque já comprei os meus ingressos. Caso contrário, passaria longe.

Fico na torcida para que tudo se resolva o mais depressa possível. Hoje, o Mineirão virou um exemplo de vergonha, péssimo serviço, e mau-caratismo dos engravatados responsáveis por inaugurar um local que, ao que parece, não estava pronto para receber o jogo que recebeu hoje.

Termino aqui com um vídeo produzido pelo jornalista Carlos Brant, do site MG Esportes

Comentários

Curte Campeonato Francês e é torcedor do Olympique LYONnais. Dono do único blog do Lyon no Brasil. Já foi colaborador do Jogo Aberto, blog do Lédio Carmona. Já foi colunista de futebol francês da extinta Revista Doentes por Futebol e do portal Os Geraldinos. Foi comentarista da Rádio Futebol Plus. Hoje em dia é editor chefe e sócio-fundador da Doentes Por Futebol. Participa do "Le podcast du Foot", podcast sobre futebol francês do colunista Bruno Pessa, do Portal IG. E é colaborador de futebol Francês no programa "[email protected]", da Rádio Globo SP.