O homem que falou demais

Esta é uma história de denúncias corajosas e agressões covardes. De um jornalista que compreendia plenamente a essência e a função social de sua profissão, e de certos marginais que, mimados, não aceitam ouvir a dura verdade a respeito de seus atos. E no meio disso tudo, um clube de futebol, submergido no mar de lama da corrupção e do gangsterismo. Esta é a história do valente jornalista Valério Luiz, morto a tiros quando saía de seu trabalho. Que traz muitas lições não só para os aficionados do futebol brasileiro, mas também para todos aqueles que se preocupam com a censura que atinge boa parte dos profissionais da comunicação social que optam por questionar e exercer seu dever de informar.

Valério Luiz desagradou a muitos com suas denúncias. Principalmente a alguns diretores do Atlético Goianiense, seu clube de coração. Suas críticas à gestão do clube eram contundentes e veiculadas havia anos, tanto no rádio, quanto na TV. Ele levantou várias suspeitas quanto à origem dos recursos que faziam o clube funcionar, e também sobre os contratos de patrocínio fechados pela diretoria do Dragão. A empreiteira Delta, largamente envolvida nos escândalos que culminaram na CPI do Cachoeira, foi uma das patrocinadoras que sustentaram a trajetória ascendente do rubro-negro goiano. Outra parceira de histórico duvidoso foi a empresa Linknet, flagrada na Operação Caixa de Pandora da Polícia Federal como uma das protagonistas do esquema de corrupção que derrubou o então governador do DF, José Roberto Arruda. A empresa alugava computadores usados a preço de novos, com a anuência do então secretário da Fazenda, Valdivino de Oliveira – atual presidente e principal colaborador do clube desde a década de 80.

Vale a pena conferir o vídeo abaixo com algumas das principais denúncias do jornalista, que motivaram seu assassinato.

Valdivino tem história longa e nebulosa na política local. É filiado ao PSDB e já foi até mesmo deputado federal, até que no ano de 2010, teve seus direitos políticos cassados em virtude dos muitos escândalos que protagonizou. Segundo Valério Luiz, ele foi o principal responsável pela ascensão do Dragão à elite do futebol brasileiro. Depois de quase anunciar falência e chegar muito próximo de uma fusão com o Goiânia, o Atlético Goianiense passou a ser gerido pelo grupo político do deputado, que também inclui outro deputado federal: Jovair Arantes, do PTB, um dos principais envolvidos no escândalo do bicheiro Carlinhos Cachoeira – que segundo investigações da PF, teria sido o responsável por levar o atacante Felipe Brisolla da Anapolina para o Dragão, em negócio intermediado pelo ex-vereador de Goiânia Wladimir Garcêz, que também foi preso na Operação Monte Carlo.

Atacante Felipe Brisolla teria sido contratado por intermédio do bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Desde 2004, o rubro-negro conseguiu vários acessos e se manteve na Primeira Divisão durante três temporadas. O clube contratou jogadores e treinadores caros, mesmo sem possuir grandes receitas e sem atrair grande presença da torcida no estádio Serra Dourada, fato que era muito questionado pelo jornalista. Diante de tantos fatos mal explicados, Valério usava seu espaço na imprensa para denunciar os responsáveis. Fazia críticas arrojadas e foi até mesmo proibido de entrar na sede do Dragão, onde foi considerado “persona non grata”. Até que no dia 5 de julho do ano passado, na saída do trabalho, Valério foi abordado por um motoqueiro, que disparou seis tiros à queima-roupa. Aos 49 anos, ele deixou uma esposa, três filhos e um neto. Valério foi um dos cinco jornalistas brasileiros que, em 2012, foram assassinados em função do exercício de sua profissão.

Após mais de seis meses de investigações – sempre norteadas pelo pressuposto de que Valério havia, sim, sido assassinado em virtude de suas opiniões e críticas à diretoria do Atlético -, a Polícia Civil de Goiás prendeu o executor do crime, o açougueiro Marcos Vinícius Xavier. Que em seu depoimento, confirmou o nome do mandante: o ex-vice-presidente do Dragão, Maurício Sampaio, que há muito sofria duras críticas do jornalista. Os dois estão presos e a Polícia já “não tem mais dúvidas a respeito da participação de Sampaio no crime”, usando as palavras da delegada Adriana Ribeiro, que conduziu as investigações.

Maurício Sampaio, ex-vice-presidente do Dragão: mandante do crime foi preso na última semana. | Foto: Sebastião Nogueira/O Popular.

Com o rápido crescimento, o Atlético passou a ser um clube temido em seu estado e até mesmo respeitado no país inteiro, pelas boas campanhas que realizou enquanto esteve na Série A. Mas por trás dessa ascensão meteórica, ainda há muita sujeira que precisa ser esclarecida, pelo bem não só do futebol brasileiro, mas também da liberdade de expressão no país, sempre tão ameaçada – apesar de nossa imprensa repetir à exaustão o mantra de que os brasileiros têm uma mídia livre e comprometida com a sociedade. Que o brutal assassinato do corajoso jornalista Valério Luiz sirva para trazer à tona essa reflexão e, acima de tudo, que a justiça da condenação dos responsáveis venha para tentar amenizar toda a dor da família que perdeu um ente querido, mas que deu aos brasileiros um mártir na luta contra a censura, do qual muito podemos nos orgulhar.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.