O Novo Flamengo

  • por Igor Leal da Fonseca
  • 8 Anos atrás

6 de Dezembro de 2009, 19 horas. Mais de 30 milhões de pessoas gritavam ”Flamengo Campeão Brasileiro” depois de longos e intermináveis 17 anos. O último jogo foi disputado em 2009, mas o título começou a ser construído em 2004, com a volta de Márcio Braga ao clube. Não é preciso lembrar a penúria Rubro-Negra no começo dos anos 2000, com seguidas brigas contra o rebaixamento e times medonhos. O que é preciso lembrar é como Márcio entregou o clube à sua sucessora, a ex-nadadora Patrícia Amorim. O Flamengo tinha um título brasileiro e todo o potencial de capitalização desse título, o maior contrato de patrocínio esportivo do Brasil e um dos maiores de patrocínio master. A esperança era de salto à frente, embora muitos olhassem para Patrícia Amorim com olhos carregados de desconfiança. A modéstia não me impede de falar que já era seu crítico desde antes de ela assumir a presidência do Flamengo.

Passados os negros anos de administração da ex-nadadora, os primeiros dias de 2013 parecem trazer novamente a esperança que existia em 2010. Vamos aos erros e acertos da atual administração.


Erros:

1 – Renovações  de Léo Moura, Renato Abreu e Cléber Santana.



Por mais que os dois primeiros estejam na história do clube e tenham muitos fãs, a renovação foi desnecessária na visão da maioria dos Rubro-Negros. Muitos aprovam usando o discurso da necessidade de jogadores experientes e acostumados para um plantel formado por caras novas e jogadores da base, mas Léo Moura e Renato Abreu tem idade avançada e não são nem sombra dos jogadores que foram em temporadas anteriores. De bom, a redução do período de contrato de ambos, que caiu de dois para um ano.

Já o caso de Cléber Santana é diferente, pois o jogador nunca caiu nas graças da torcida e não tem qualquer identificação com o clube. A renovação até poderia acontecer, mas no máximo até o fim do Estadual, como teste. Caso se mostrasse útil, renovaria até o fim do Brasileiro. Caso não quisesse renovar, que seguisse seu rumo e sua vida em outro clube.



2 – Caso Íbson



Admirado por muitos, o ex-santista era sonho de consumo de grande parcela da torcida para o ano de 2011, quando havia um consenso de que a equipe não tinha melhor para a posição. Luxemburgo – então treinador do Flamengo – vetou o negócio e o ”Palestino” rumou para o Santos. Após um ano irregular, foi trocado por David Braz e Rafael Galhardo, com o Flamengo assumindo o valor devido pelo Santos ao Spartak Moscou. Depois de um péssimo 2012 – quando foi reserva em várias partidas – Íbson declarou que voltaria aos bons tempos em 2013. O erro da direção foi anunciar que ele era um dos negociáveis do elenco, por se enquadrar no mesmo caso de Love – alto custo e pouco benefício.

O jogador demonstrou sua insatisfação no intervalo do jogo contra o Madureira, mas aparentemente não houve maiores sequelas no caso.



Acertos:


1 – Manutenção de salários em dia e só anunciar reforço depois de implantar a medida



Todos sabem como funciona a cabeça de jogador brasileiro. Adotam o ”Vampeta Way Of Life”, que tem como ponto máximo a célebre frase ”fingem que me pagam, finjo que jogo”. A nova administração do Flamengo colocou todos os salários do clube em dia antes de fazer qualquer anúncio de reforço.


2 – Corte da farra telefônica



Recentemente, foi noticiado que o Flamengo possuía mais de 120 aparelhos de telefone celular e ainda alguns aparelhos de rádio, totalizando despesas de R$ 220 mil só com telefonia móvel a cada mês. É pouco provável que algum clube NO MUNDO possua 120 linhas de telefonia móvel, que, em tese, deveriam ser dedicadas ao uso estritamente profissional. A incoerência era tanta que o Flamengo recebe R$ 2,5 milhões/ano da Tim para estampar a marca da operadora no interior dos números das camisas. Multiplicando os R$ 220 mil por 12 meses do ano, chegamos à bagatela de R$ 2,64 milhões gastos com telefonia móvel no ano de 2012, ou seja, todo o dinheiro que a Tim repassou ao Flamengo retornou para ela através das contas.


3 – Fim da farra dos ingressos e devolução dos camarotes



Uma das maiores reclamações do Rubro-Negro comum tinham como alvo a farra das Torcidas Organizadas e o fato de, além de não pagarem ingresso para ir aos jogos, ainda receberem alguns para vender e financiar a torcida. Longe de mim querer que as TOs sejam extintas e que gastem do seu bolso o dinheiro para confecção das festas a cada rodada. Mas é uma relação que tem que ser muito bem administrada, para não virar política, como era no período da administração anterior. Como sabiamente disse o ex-presidente Márcio Braga em uma entrevista publicada no GE.com, no Flamengo não existe calmaria em jejuns de vitória ou em fases ruins. No Flamengo, ”a terra tem que tremer”. Márcio Braga fazia referência ao período de dez jogos sem vitória do Flamengo no Campeonato Brasileiro de 2011, jejum esse que afastou o clube da disputa pelo título. Na época, uma das maiores questões nas redes sociais era tentar entender o motivo de as TO’s sequer protestarem contra o então treinador Luxemburgo e a presidente Patrícia Amorim e ainda se acharem no direito de suprimir tentativas de protestos e vaias, como presenciado por amigos do autor em vários daqueles jogos.

Em relação aos camarotes, o Flamengo devolveu 8 camarotes, camarotes esses que davam direito a buffett e entrada de graça, tudo às custas do clube, a cada jogo do Flamengo no Engenhão. É um raciocínio impossível tentar saber quanto o clube deixou de arrecadar com a venda de ingressos e serviços para esse espaço.


4 – Patrocínio Master



No fim de 2009, o Flamengo tinha um dos maiores contratos de patrocínio master do Brasil. A administração Delair/Márcio Braga deixou tudo encaminhado para a renovação do contrato, que aconetceu no dia 31/12/2009. A famosa marca de laticínios pagou R$ 25 milhões ao Flamengo, pelo direito de estampar seu logo na camisa do clube. Em novembro do mesmo ano, a Batavo anunciou que não pagaria as parcelas referentes aos dois últimos meses de 2010, sendo que também já não tinha pago a de outubro. O Flamengo continuou estampando a marca da empresa até o fim do contrato, mesmo sem receber as parcelas mensais. Ao fim da parceria, surgiram centenas de especulações sobre o nome do novo patrocinador, mas o Flamengo passou 2 anos sem patrocínio master. Atualmente, a Peugeot estampa a marca na camisa e, ao fim de Março, irá para as costas, já que o Flamengo trocará de fornecedor de material esportivo (sai a OLK, entra a Adidas) e pretende lançar um modelo com outro patrocinador à frente da mesma.

 

5 – Dispensa de atletas de outras modalidades e seus altos salários



Uma das ”maiores contratações” da administração anterior, Cesar Cielo foi recebido com honras no clube. Então campeão olímpico e mundial, o nadador era a esperança de dias melhores para a natação do clube, que teve em Patrícia Amorim um dos seus maiores expoentes. Mas, além dos gastos com o atleta e com a reforma da piscina, o acordo pouco trouxe ao Flamengo. Cielo continuou a treinar nos EUA e nunca usou material do Flamengo nas competições que disputou. Outro afetado foi o lutador José Aldo, que não teve seu contrato renovado com o clube.



6 – Usar o Carioca como experiência



Um erro comum entre as administrações anteriores foi dar ao Carioca mais valor do que ele de fato tem. Outrora importantíssimo e charmoso, o decadente estadual do Rio de Janeiro hoje não é nada além de um amontoado de jogos ruins, públicos baixos e desinteresse geral, que não deve ser o foco máximo de conquista na temporada e muito menos motivo para terra arrasada em caso de fracasso. O Flamengo montou seu time para a disputa da competição baseando-se na linha defensiva que encerrou bem o ano de 2012, trazendo reforços pontuais, como João Paulo, Elias e Carlos Eduardo, e dando vez aos jogadores das divisões de base, como Nixon e Rafinha. As carências no setor de criação e na posição #9 são nítidas para qualquer um, mas o clube decidiu não fazer loucuras nesse primeiro momento, pelo menos até o fim de Março, quando uma auditoria independente terminará seu trabalho e a administração atual saberá as reais condições financeiras do Flamengo para o ano de 2013.



7 – Contratação de um responsável pelo futebol



O Flamengo é um clube cheio de problemas financeiros, fiscais e estruturais. Agora imagine, além de cuidar de tudo isso, tocar seu trabalho diário – sim, Bandeira de Mello não é funcionário do clube, tem sua vida fora dele – e ainda ter que dar coletiva de imprensa para falar de contratações, dispensas e eventuais problemas disciplinares e afins. Inviável, não é? Então o clube contratou Paulo Pelaipe para ser responsável por todo o futebol do Flamengo, desde contratação e dispensa de atletas e/ou treinadores até questões menores como concentração e afins. Enquanto isso, Bap e Bandeira de Mello ocupam seu tempo na busca de patrocinadores e viabilizando o alinhamento fiscal para que o clube consiga a CND (Certidão Negativa de Débito) com o Governo Federal e possa ser incluído nos programas federais para apoio aos esportes olímpicos.



8 – Não entrar em leilão por jogadores e não gastar mais do que arrecada



Quando uma nova administração assume um clube de futebol, uma das maiores plataformas dela – senão a maior – encontra-se nas promessas de contratações de jogadores renomados e no Flamengo isso não foi diferente. Logo após a confirmação da vitória da atual administração, começaram a surgir nomes de todos os lados, sendo Robinho e Kaká alguns dos mais falados pela imprensa. O Flamengo demonstrou interesse no ex-jogador do Santos, mas o alto valor e a concorrência de outros clubes inviabilizaram o negócio, ratificando a promessa de que primeiro era necessário tornar o clube financeiramente saudável, depois viriam os reforços.

Já no quesito gastos e arrecadação, a grande vítima foi Vágner Love, que foi devolvido ao CSKA. Inegavelmente um dos jogadores mais importantes do Flamengo na década, Love custou muito dinheiro aos cofres do clube. Especula-se que até o fim de 2014 o Flamengo teria que pagar 7 milhões de euros ao clube russo e R$ 1 milhão de salários ao jogador, totalizando gastos de mais de R$ 1,5 milhão/mês até o fim de 2014 (salários + valor necessário para quitar as parcelas a cada 6 meses).

Por mais que Love fosse muito bom jogador e identificado com o clube, um valor desses é inviável para qualquer clube do Brasil e chega a ser insultante quando se nota que é maior que o valor gasto pelo Santos para manter Neymar.

O ano apenas começou para o Flamengo e seus torcedores. O clube disputou apenas 5 jogos oficiais pelo Campeonato Carioca e a Copa do Brasil só começará em 4 de Abril, enquanto o Campeonato Brasileiro começará no dia 27 de Maio, dando ao Rubro-Negro tempo para tratar de eventuais reforços sem fazer loucuras. É necessário ter paciência para eventuais tropeços e problemas nessa primeira parte do ano, pois o futuro do clube se mostra cada vez mais promissor.

 

Agradecimentos especiais à colaboração do amigo Luís André. Valeu, LA!

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33 anos, morador do Rio de Janeiro. Rubro Negro de coração, apaixonado pelo Maracanã, tem no Barcelona o exemplo de clube para o que entende como futebol perfeito, dentro e fora do campo. Estudioso da memória do futebol, tem nessa sua área de maior atuação no site, para preservar a memória do esporte. Dedica especial atenção aos times mais alternativos, equipes que tiveram grandes feitos, mas que não são tão lembradas quanto as maiores do mundo. Curte também futebol do centro e do leste da Europa, com uma coluna semanal dedicada ao assunto. Um Doente muito antes de fazer parte desse manicômio, sua primeira memória acadêmica é uma redação sobre o Zico, na qual tirou 10 e a mesma foi para o mural da escola. Nunca trabalhou com futebol dessa forma, mas adora o que faz junto com o restante do pessoal e se pergunta o porquê de não ter começado com isso antes. Espera recuperar o ''tempo perdido''. Acha Lionel Messi o melhor que viu jogar e tem em Zico, Petkovic e Ronaldo Angelim como heróis.