O outro lado do País Basco

  • por Victor Mendes Xavier
  • 8 Anos atrás
Na última sexta-feira, a Real Sociedad derrotou o Athletic Bilbao no San Mamés.

Na última sexta-feira, a Real Sociedad derrotou o Athletic Bilbao no San Mamés.

Na temporada passada, os fãs do futebol europeu acompanharam o Athletic Bilbao impressionar na Liga Europa. Desempenhando um futebol extremamente ofensivo, os bilbaínos eliminaram Manchester United, com direito a domínio total no Old Trafford, e Schalke 04, além de Sporting de Lisboa e o Lokomotiv Moscou. Na final, no entanto, sucumbiu ao Atlético de Madrid e Falcao García, mas deixou boa impressão pela beleza mostrada no estilo de jogo. Mesmo sendo vice-campeões da Copa do Rei e da Liga Europa, os meninos de Marcelo Bielsa foram aplaudidos pela temporada surpreendente.

Nos últimos anos, a alcunha “time do futuro” sempre foi associada ao Arsenal. Os Gunners, treinados pelo francês Arséné Wenger, se destacam por, a cada ano, montar uma equipe formada por jogadores, em sua maioria, jovens. Na Espanha, além do próprio Athletic Bilbao, há uma outra equipe que pode receber esse apelido: a Real Sociedad, que aproveitou a lacuna deixada pelo rival basco, em péssima fase, e hoje pode ser considerada a equipe “queridinha” dos fãs do futebol espanhol.

E o assunto do texto de hoje é justamente o time de San Sebastian. Assim como o Athletic, a Real Sociedad aposta nas canteras. Ainda que em menor plano, os Donostiarras procuram a identidade com o País Basco. Por muito tempo, a entidade só admitia jogadores bascos ou estrangeiros de origens bascas no elenco. Aos jogadores de nacionalidade espanhola, a restrição se mantém na atualidade, mas o clube admite estrangeiros livremente. O primeiro não-basco a disputar uma partida oficial com o uniforme branco e azul da Real foi o irlandês John Aldridge, em 1989.

Desde que voltou à elite espanhola, em 2011, ainda sob período de Martin Lasarte, o clube tenta rejuvenescer o elenco. Ao contrário do Arsenal, que nos últimos anos tem formado jogadores e vendido a outros clubes, eles preparam uma equipe visando o futuro. Os promissores jogadores já sentem desde cedo o sabor de disputar jogos importantes na primeira divisão. O maior exemplo deles é o francês Antoine Griezmann, de 21 anos. Há três anos, ele havia sido o principal nome da Real Sociedad campeã da Liga Adelante. Um ano depois, foi a principal reveleção da Liga BBVA. Em abril, comentei em uma outra coluna que o fato da equipe ficar na Liga BBVA era algo muito mais que apenas uma permanência. E era, realmente.

Desde o ano passado, o elenco é treinador pelo competente Philippe Montanier. Após uma magnífica campanha com o Valenciennes na Ligue One 2010/2011, quando o time terminou em 10º lugar, sua melhor posição na história, o técnico foi apelidado pela imprensa francesa de Guardiola francês. Em campo, ele se espelha bastante no catalão. O 4-3-3 é seu esquema tático preferido (embora para encaixar alguns jogadores tenha utilizado bastante o 4-2-3-1 desde que chegou ao Anoeta) e suas equipes sempre tentam jogar com a bola nos pés, valorizando a posse de bola.

No início da temporada, Montanier tentou se esquivar dos rótulos. Porém, a essa altura da temporada, não há mais como: o time faz jus a todos os elogios que tem recebido. Há quase um mês, tirou a invencibilidade do Barcelona com uma vitória totalmente merecida por 3×2. O que mais impressiona é a mentalidade dos comandados de Montanier, que não se abalam psicologicamente em situações adversas. A partida ante os catalães evidencia isso. A Real saiu atrás do marcador (0-2), mas manteve a mesma postura de sempre, chegando à heróica virada.

Na sexta colocação com 40 pontos, os txuri-urdins (apelido do clube) é a equipe que mais tem demonstrado força e merecimento entre as que disputam a quarta e última vaga na Champions (vamos considerar que Barcelona, Atlético de Madrid e Real Madrid estão muito bem encaminhados). O Valencia é inconsistente, enquanto Bétis e Rayo têm feito boas atuações, mas concentra muito desse poderio em seus domínios. A Real não. Na última sexta-feira, abasteceu sua moral com uma vitória diante do rival Athletic Bilbao em San Mamés, algo que não acontecia há 11 anos.

A partir de agora, o calendário irá ser a prova final que mostrará se os bascos merecem ou não retornar à Champions League após dez temporadas. A Real irá a Madrid e Barcelona encarar Rayo e Atlético de Madrid e Espanyol, respectivamente. No Anoeta, irá receber Bétis, Valladolid e Málaga. Desses seis adversários, três são confrontos diretos pela vaga na principal competição europeia (considerando que o Málaga recorreu à decisão da UEFA e ainda pode participar da próxima Champions).

Nos dois últimos anos, a questão física fez diferença no segundo turno, quando era natural uma queda livre. Esta temporada tem sido diferente. O mercado de verão foi bem trabalhado. Chori Castro, Ruben Pardo, Sarpong, José Ángel e Javi Ros foram contratados. Mas a melhor notícia foi a contratação em definitivo do meio-campista mexicano Vela, de ótima fase desde 2011/2012 e o melhor jogador da equipe na temporada. Auxiliando o mexicano, Xabi Prieto, jogador mais subestimado do futebol espanhol, manda no meio-campo.

Ele é o cérebro do time e todas as bolas passam por seus pés. Montanier também comemora o fato do bom futebol de Griezmann ter retornado. Após uma 2011-2012 bem opaca, o promissor extremo-esquerdo tem atuado bem na atual temporada. Foi dele o gol que empatou o dérbi basco. No comando do ataque, Agirretxe é o atacante mais confiável desde a mágica dupla Nihat-Kovacevic. Dessa forma, os blanquiazules agradam os fãs do futebol espanhol e deixam um aviso: essa atual geração ainda irá dar muito o que falar.

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Jornalista, carioca e apaixonado pela Liga Espanhola desde a época em que Rivaldo, Zidane, Figo e Raúl foram seus professores. Colaborou para o programa [email protected] da Rádio Globo São Paulo falando sobre o futebol do país das touradas. Repórter da Super Rádio Tupi.