O pífio combate ao racismo no futebol europeu

  • por Tiago Lima Domingos
  • 6 Anos atrás

site platini

Michel Platini, presidente da UEFA, vira e mexe, vem a público encher a boca para dizer que o racismo no mundo do futebol e na sociedade tem que ser exterminado. Discurso muito bonito. Porém, as punições impostas pela entidade europeia e das federações a ela aliadas vão na contramão das palavras do ex-jogador e agora cartola. O ponto é claro: como todo político, Platini joga pra galera, mas, na hora de apresentar medidas e sanções, pesa o lado eleitoral. O resultado são os inúmeros casos de racismo por toda Europa e suas ridículas medidas de combate. Medidas, estas, que parecem incentivar cada vez mais essa prática nojenta, que, diga-se de passagem, não é “privilégio” apenas do futebol europeu.

Sanções da UEFA – A hipocrisia das palavras de Platini

Vejamos algumas das sanções aplicadas pela UEFA e suas contradições com o discurso oficial da entidade.

16/02/2012 – A UEFA aplicou a risível multa de 20 mil euros ao Porto por cantos racistas contra Mario Balotelli (ainda no Manchester City) em partida pela Europa League. Essa foi a única medida adotada pela entidade, que ainda permite ao clube recorrer da decisão.

Pela mesma competição, na temporada passada, o Manchester City foi multado em 30 mil euros por demorar cerca de um minuto para entrar em campo.

Pela Eurocopa 2012, outro absurdo.

bendtner cueca

Foto: Repdrodução – A propaganda na cueca de Bendtner durante a Eurocopa 2012. Multa maior do que para casos de recismo na mesma competição.

A Federação Russa foi multada em 24 mil libras por cantos racistas de torcedores russos contra o lateral Gebre Selassie, jogador negro da República Tcheca.
Na mesma competição, Nicklas Bendtner, da Dinamarca, foi multado em 80 mil libras e suspenso por um jogo por ter mostrado um patrocinador na cueca durante a comemoração de um gol.

Algo mais contraditório? Será que a UEFA tem mesmo a intenção de combater o racismo? No que tange às multas aplicadas, percebemos que é mais grave atrasar uma entrada no campo de jogo ou mostrar um patrocinador não filiado à entidade do que a nojenta prática discriminatória por parte de alguns torcedores.

Racismo na Itália

Recentemente, um caso de racismo ganhou destaque na Itália. Milan e Pro Patria realizavam partida amistosa. Revoltado com sucessivas manifestações racistas contra ele e companheiros, Kevin-Prince Boateng, do Milan, chutou a bola de jogo no pequeno grupo que o insultava e abandonou o campo. Companheiros de clube o acompanharam e o amistoso foi cancelado.

A medida foi vista com bons olhos pela maioria, mas há quem defenda outro ponto de vista. É o caso de Clarence Seedorf, ex-jogador do próprio clube e companheiro de Boateng durante dois anos.

“Boateng deveria ter reagido de forma diferente. Deixando o campo, ele manda um sinal, mas isso – atos racistas – ainda deve acontecer mais vezes. Não penso que isso mude muita coisa. Desse jeito, estamos apenas dando a um pequeno grupo o poder de montar um circo com seu comportamento”, opinou Seedorf.

O fato é que se combate muito pouco. As medidas são simples, não há discussão, não há a verdadeira intenção de punir as pessoas. A UEFA é conivente com a prática de racismo.

No último domingo, Balotelli voltou a sofrer com cantos racistas de uma parcela de torcedores da Internazionale. Um torcedor, inclusive, levou uma grande banana inflável ao estádio. A Federação Italiana aplicou a convencional multa: essa de 50 mil euros. E assim o faz a cada caso (que acontece a cada rodada). Punição dura a clubes, torcedores? Nada. Mário Balotelli cansou de sofrer preconceito em quase todos os estádios da Itália.

Balotelli-Banana

Foto: Repdrodução – No último domingo (24), parte da torcida da Inter proferiu gestos e cânticos racistas contra Mario Balotelli. O clube foi punido com a ridícula multa de 50 mil euros.

Inglaterra – FA tenta endurecer

Na Inglaterra, a Football Association (FA), tenta adotar medidas um pouco mais duras em comparação _à UEFA e outras Federações. Recentemente, dois jogadores renomados sofreram punições da entidade britânica.

getty images terry

Foto: Getty Images – Anton Ferdinand x Terry / Suarez x Evra. Dois casos de racismo envolvendo jogadores na Premier League.

Luiz Suárez, do Liverpool, pegou oito jogos de suspensão e foi multado em 40 mil libras por ter ofendido o lateral do Manchester United, Patrice Evra.

John Terry, do Chelsea e da Seleção Inglesa, pegou quatro jogos de suspensão e foi multado em 220 mil libras por ter ofendido Anton Ferdinand.

Polêmica camisa.

 Kick it out

Foto: Matthew Peters – A campanha da FA. Rooney com a blusa. Ferdinand se recusou a vestir. para o jogador, a campanha não fez e nem fará efeito.

Um caso de destaque aconteceu nessa temorada da Premier League. A campanha contra o racismo no futebol inglês, denominada, “Kick It Out”, não agradou alguns jogadores negros do país. A intenção da FA era que todos os atletas dos clubes da 1ª divisão entrassem com uma camisa contendo mensagens antirracistas. Alguns jogadores, como Rio Ferdinand, do Manchester United, e Lescott, do Manchester City, boicotaram a campanha. Seu (justo) motivo é protestar contra a pequena punição imposta a Terry e mostrar que casos como o dele vêm se repetindo no futebol inglês. Para eles, vestir uma simples blusa com dizeres antirracistas não irá solucionar o problema. A FA tenta endurecer, mas ainda está longe do ideal.

Na Espanha

Em 2006, Samuel Eto’o quase abandonou o campo. Revoltado, foi convencido por companheiros e pelo árbitro a continuar em campo. O jogador era constantemente vaiado e torcedores imitavam sons de macaco quando o jogador pegava na bola. Na época, O Zaragoza foi multado em apenas € 9 mil.

Roberto Carlos – Racismo na Rússia

Por duas vezes, o consagrado lateral esquerdo Roberto Carlos foi vítima de racismo na Rússia. Chegou até mesmo a pensar em encerrar a carreira de jogador devido a tamanho desrespeito.

Zenit – Clube com tendências racistas?

Um dos clubes europeus que mais aparecem na mídia em casos de racismo certamente é o russo Zenit, da cidade de São Petersburgo. Uma ala da torcida, a “Seleção 12”, publicou recentemente um manifesto explicando o porquê são contra a contratação de negros ou homossexuais. No passado, o Zenit era constantemente criticado por nunca ter tido um jogador negro em seu elenco.

torcida zenit

Foto: Reuters – Parte da torcida do Zenit não se diz racista.

Confira parte desse manifesto:

“Nós não somos racistas, mas a ausência de jogadores negros na escalação do Zenit é uma importante tradição que enfatiza a identidade do clube e nada mais.
Nós, como o clube mais setentrional das grandes cidades europeias, nunca compartilhamos a mentalidade da África, América do Sul, Austrália ou Oceania. Nós apenas queremos jogadores de outras nações eslavas, como Ucrânia e Belarus, assim como dos países bálticos e Escandinávia. Temos a mesma mentalidade e histórico e cultura que estas nações.

Grande parte desses campeonatos é jogada em climas duros. Nessas condições, às vezes é difícil para os jogadores e técnicos de países quentes exibirem seus talentos no futebol de forma completa. Queremos jogadores mais próximos da nossa alma e mentalidade para jogar pelo Zenit. E somos contra a inclusão de representantes das minorias sexuais no time”.

O clube e sua direção prontamente se mostraram contra esse pensamento de parte da sua torcida.

– Os jogadores entram em nosso time não pelas nacionalidades ou cor de pele, mas por qualidades esportivas e realizações. A política do clube é desenvolver e se integrar à sociedade do futebol mundial, e não defender pontos de vista arcaicos.

Poderíamos elencar diversos casos que acontecem quase que diariamente em competições esportivas na Europa. O que queremos mostrar aqui é como um assunto sério, não só na esfera esportiva, é tratado com enorme descaso e imensa hipocrisia. Enquanto medidas paliativas como as adotadas até aqui continuarem, esse crime permanecerá sendo praticado mundo afora. E o que é pior: seguirá sendo tratado como normalidade por toda a população.

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Foto: Reprodução – ‘Say no to Racism’ (Diga não ao Racismo). Campanha da FIFA, que também fica a dever no combate ao racismo no futebol mundial

 

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Carioca e rubro-negro. Do Rio de Janeiro a Milão. Doente por futebol, é claro. E apaixonado pelo Calcio.