Os Leões Indomáveis e seu grande feito na Copa da Itália.

  • por Igor Leal da Fonseca
  • 8 Anos atrás

Quem tem mais de 30 anos lembra. No dia 1º de Julho de 1990, a torcida brasileira se direcionou para uma equipe que encantava e fazia rir: o time de Camarões, seleção africana de melhor campanha em Copas do Mundo até então. Para quem tem menos e não viu, vale a pena conhecer essa belíssima história.

Tudo começa na Copa Africana de Nações de 1988. Já com o título da edição de 1984 e com o vice de 86, o selecionado passa por um processo de renovação, dando vez a jogadores como Makanaky e Omam-Biyik e mantendo como base os veteranos Bell, Kundé, Mfédé e Milla. Com essa equipe, Camarões vence o Egito e empata com Nigéria e Quênia na fase de grupos da competição africana. Na semifinal, elimina a Tunísia e na decisão bate a Nigéria que tinha, entre outro outros, o goleiro Rufai e o atacante Yekini que brilhariam na Copa de 1994.

 

As Eliminatórias da África

Após o título da CAN, Camarões foi para a disputa das Eliminatórias da África visando voltar à Copa do Mundo depois da experiência em 1982. O grupo tinha ainda Nigéria, Angola e Gabão, sendo a Nigéria sua principal concorrente. Na estreia da equipe, um empate em casa contra Angola deixou a torcida apreensiva, mas, já no segundo jogo, o time venceu o Gabão no estádio adversário e viu a Nigéria empatar com Angola. Na terceira rodada, uma derrota por 2×0 para a Nigéria fora de casa complicou a situação dos camaroneses que agora precisavam vencer Angola em território inimigo. A seleção venceu e foi ajudada pelo Gabão que bateu a Nigéria por 2×1 em uma autêntica zebra. Camarões ainda venceu o Gabão e viu a Nigéria derrotar Angola para ambos chegarem à última rodada das eliminatórias com sete pontos, com a Nigéria podendo jogar pelo empate. Mas a equipe de Milla e companhia venceu o jogo por 1×0 e eliminou o grande rival da disputa.

Para garantir a vaga na Copa do Mundo, Camarões ainda precisava bater a Tunísia. No primeiro jogo, vitória de Camarões em casa: 2×0, gols de Mfédé e Kundé. Na volta, a Tunísia precisava vencer pela mesma diferença para levar a disputa para as penalidades, mas perdeu por 1×0, gol de Omam-Biyik. Camarões voltava à Copa do Mundo depois da ausência em 86.

Jogadores comemoram a vitória sobre a Tunísia e a vaga na Copa do Mundo da Itália.

 

A Copa do Mundo da Itália e a surpresa já na estreia

Camarões caiu no pote 4 para o sorteio e, já no começo, a situação se complicou: o time caiu no grupo de Argentina de Maradona (Campeã do Mundo em 86), União Soviética (vice da Euro’88) e Romênia. A estreia seria contra a Argentina, jogo de abertura da Copa do Mundo, e Camarões era franco atirador no confronto. O jogo foi disputado de forma violentíssima, com duas expulsões e vários pontapés. Entrou para a história das Copas a sequência de tentativas de faltas em cima de Caniggia, em um lance de contra ataque da Argentina, até que o camaronense Massing acertou o adversário e foi expulso de campo.

Mas, antes da expulsão e quando já estava com um homem a menos, Camarões abriu o placar, gol de Omam-Biyik, em uma falha clamorosa do goleiro Pumpido. O marcador não se mexeu mais e o time africano foi responsável pela primeira zebra na Copa do Mundo de 1990.

Omam Biyik cabeceia e conta com a falha de Pumpido para fazer o gol da vitória de Camarões.

 

No segundo jogo da fase de grupos, Camarões enfrentaria a Romênia, que tinha vencido a URSS por 2×0 no primeiro jogo e liderava a chave. O mundo viu aí a primeira grande atuação de Milla no torneio. Após sair do banco, o veterano de 38 anos marcou dois gols em um intervalo de dez minutos e deu a vitória à sua equipe. A Romênia ainda diminuiria com Balint, mas Camarões chegou ao seu segundo triunfo e conquistou a classificação para as oitavas de final.

 

Popescu tenta impedir, mas Milla chuta para marcar seu primeiro gol contra a Romênia.

 

 

No último jogo da fase de grupos, Camarões entrou em campo já classificado e com alguns reservas para enfrentar a União Soviética. O time russo, já eliminado, fez 4×0 na equipe de Milla – nada que abalasse a confiança da torcida e dos jogadores na equipe.

 

 

As oitavas de final contra a Colômbia: a falha de Higuita

Nas oitavas de final, a equipe africana enfrentaria a Colômbia, força emergente na América do Sul e protagonista de boas partidas na primeira fase, incluindo o empate contra a Alemanha que classificou a equipe para o mata-mata. Depois de um tempo regulamentar marcado pelo equilíbrio (terminou em 0x0), a prorrogação viu três gols e uma falha grotesca que entrou para a história das Copas do Mundo. Logo a um minuto do segundo tempo da prorrogação, Milla recebeu passe, se livrou de Perea e Escobar e bateu firme, no alto, sem chances para Higuita.

Três minutos mais tarde, a defesa de Camarões deu um chutão para frente e a bola caiu nos pés de Higuita. O folclórico colombiano tinha jogado toda a Copa do Mundo praticamente como ”líbero” da sua equipe, sempre adiantado e como o primeiro homem da saída de bola, graças à sua boa técnica com os pés. Higuita dominou de forma tranquila e logo teve a companhia de Perea e Escobar para sair jogando. Higuita passou para o primeiro e Milla correu para marcar a saída de bola, ajudado por Omam-Biyik que correu em direção a Escobar, tirando de Perea a possibilidade de passar a bola para o companheiro de zaga. 

Desde o começo da Copa do Mundo, a Colômbia ficou conhecida como um time que não rifava a bola e Perea a devolveu para Higuita. O passe não foi bom, o goleiro dominou com dificuldades e, quando viu, estava com Milla colado e pronto para roubar a bola. Higuita poderia ter chutado a bola para a lateral, mas tentou driblar o camaronês e foi desarmado ainda na intermediária defensiva da Colômbia. Milla, então, avançou e tocou para o gol vazio, enquanto um desesperado Higuita tentava fazer a falta para evitar a conclusão.

A Colômbia ainda diminuiu, com um gol de Redín, mas era tarde demais para buscar o empate. Camarões classificado, Colômbia eliminada.

Higuita tenta o drible, mas Milla estava atento e desarma o goleiro.

 

Um desesperado Higuita tenta fazer a falta, mas Milla faz o segundo gol de Camarões e elimina a Colômbia.

 

 

Quartas de final e o jogo que entrou para a história das Copas do Mundo

Após passar pela Colômbia, Camarões tinha pela frente a Inglaterra, ainda invicta na Copa do Mundo e contando com jogadores como Shilton, Platt, Gascoigne e Lineker. Platt abriu o placar pouco depois da metade do primeiro tempo: após receber cruzamento preciso de Pearce, o meia inglês cabeceou firme para o chão, sem chance de defesa para o goleiro Nkono.

Platt comemora seu gol, o primeiro do jogo.

 

No retorno do intervalo, Camarões voltou com Milla para buscar a igualdade logo no começo do segundo tempo. E, logo na primeira jogada do camaronês, Gascoigne cometeu a penalidade, que foi cobrada por Kundé, sem chances de defesa para Shilton. Eram 16′ do segundo tempo e Camarões chegava ao empate.

 

Penalty para Camarões em jogada de Milla. Kundé empata o jogo.

 

A situação ficou ainda pior para os ingleses quatro minutos depois, quando Milla achou Ekéké entrando livre e em velocidade e passou a bola para o companheiro, que bateu na saída de Shilton, virando o jogo para Camarões.

 

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Jogadores de Camarões comemoram a virada.

 

O jogo ganhou movimentação com Omam-Biyik desperdiçando ótimo passe de Milla, Platt desperdiçando ótima jogada de Gascoigne, até que Lineker sofreu penalidade, cobrou, ele mesmo, e empatou a partida.

 

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Lineker sofre penalidade duvidosa. A jogada foi alvo de muita reclamação da equipe africana.

 

Depois de sofrer o empate, Camarões teve várias chances de fazer o terceiro gol e dificultar muito a reação inglesa, já que o time vinha de um jogo desgastante contra a Bélgica nas oitavas. Mas, por excesso de preciosismo em alguns lances e falta de tranquilidade em outros, a equipe de Milla não conseguiu marcar. E foi justamente em um desses momentos de preciosismo que a Inglaterra recuperou a bola na defesa e partiu em contra-ataque mortal, após Gascoigne acertar um longo passe  para Lineker. Gazza estava antes do meio campo e passou a bola pelo chão para o atacante inglês que se posicionou entre os dois defensores de Camarões, ganhou na corrida de ambos, driblou Nkono e foi derrubado. Pênalti que o mesmo Lineker cobrou para virar o jogo e dar a vitória à Inglaterra.

 

Nkono Lineker

Lineker é derrubado por Nkono, após grande passe de Gascoigne.

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Lineker converte a segunda penalidade e vira para a Inglaterra.

A equipe de Camarões deixou o gramado aplaudida de pé por todo San Paolo pelo seu jogo ofensivo e sempre em busca do gol. A imagem de Milla e seus companheiros saindo de campo vestindo a camisa da Inglaterra e acenando para a torcida inglesa ainda é uma das mais belas da história dos mundiais.

Milla e Camarões voltariam a disputar uma Copa do Mundo em 1994, mas não seriam nem sombra do time que encantou o mundo em 1990. Mas isso é assunto para outro post.

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33 anos, morador do Rio de Janeiro. Rubro Negro de coração, apaixonado pelo Maracanã, tem no Barcelona o exemplo de clube para o que entende como futebol perfeito, dentro e fora do campo. Estudioso da memória do futebol, tem nessa sua área de maior atuação no site, para preservar a memória do esporte. Dedica especial atenção aos times mais alternativos, equipes que tiveram grandes feitos, mas que não são tão lembradas quanto as maiores do mundo. Curte também futebol do centro e do leste da Europa, com uma coluna semanal dedicada ao assunto. Um Doente muito antes de fazer parte desse manicômio, sua primeira memória acadêmica é uma redação sobre o Zico, na qual tirou 10 e a mesma foi para o mural da escola. Nunca trabalhou com futebol dessa forma, mas adora o que faz junto com o restante do pessoal e se pergunta o porquê de não ter começado com isso antes. Espera recuperar o ''tempo perdido''. Acha Lionel Messi o melhor que viu jogar e tem em Zico, Petkovic e Ronaldo Angelim como heróis.