Procissão

  • por Henrique Joncew
  • 8 Anos atrás
O despertar do gigante

Belo Horizonte amanheceu em paz neste domingo, como já se acostumou nos últimos dois anos. Meninos jogam bola no campinho, e durante o chuta-chuta de pés descalços que correm sobre a grama rala, o chão treme. A meninada procura a origem do tremor no horizonte, mas os olhos só veem a inofensiva Lagoa da Pampulha, cercada por muitas árvores. Mas copas das árvores começam a balançar, sob forte ventania. Novamente, nenhuma causa aparente para o ocorrido é vista. Uma agitação invisível toma conta da cidade.

Neste domingo, todo belo-horizontino volta a seguir invariavelmente por um caminho inesquecível.

Neste domingo, todo belo-horizontino volta a seguir por um caminho inesquecível.

O efeito dos fenômenos não é assustador. É excitante, vivo, enérgico, atraente. Os meninos são atraídos para a Lagoa, e mais, são acompanhados por pais, mães, irmãos, avós. Todos juntam-se a uma marcha de milhares, que segue por um caminho muito conhecido, mas que já se havia habituado a não seguir. É como se atendessem a um chamado. E, à medida que a procissão avança, efetivamente ouvem-se cânticos e gritos. “É Tostão!”, relatam os mais velhos, interrompidos por outros que dizem “Não! É Reinaldo!”. Os mais novos dizem que os gritos são por Taffarel, Ronaldo, Alex ou Ronaldinho. Todos estão certos.

A marcha termina aos pés de uma entidade imponente: um monstro de concreto, amigo dos olhos de todo amante do futebol. Mas agora ele está diferente. O tempo distante serviu para o banho, para colocar o traje de gala e os adereços. O monstro é belo, belo como deve ser para ir a uma festa muito aguardada. Mas não importa: por mais nobre que seja a causa da ausência, deixou saudade.

O gigante tem nova cara.

O gigante tem nova cara.

Muitos outros séquitos, descobre-se, vêm de outras direções. Inexoravelmente, todos prosseguem para dentro do edifício. Lá dentro, dezenas de milhares de pés saltam, incansáveis. Daí se originam os tremores que todos sentiram. Camisas rodam em mãos, e o giro caótico, dessincronizado, frenético, provoca um furacão de emoções, de paixão, capaz de balançar as folhas da árvore mais distante. Tambores ribombam nos ouvidos de todos. Dezenas de milhares de gargantas entoam nomes de ídolos, cantam, gritam, sem esquecer de se poupar para utilizar todo o seu poder para a oração máxima do mundo da bola: “Gol!”.

O monstro sempre tem duas caras. E elas mudam bastante. Mas uma dupla sempre dominou, um par clássico. Uma antítese perene sempre foi a primeira imagem a surgir na cabeça de alguém que ouve o nome do edifício. E, para reparti-lo em seu retorno triunfal, é claro que essa dicotomia eterna fosse a escolhida. Escolhida, não. Exigida. Outorgada. Não poderia ser outra.

A casa da Lagoa ficou mais bonita...

A casa da Lagoa ficou mais bonita…

... e voltará a ficar cheia, como nos velhos tempos.

… e voltará a ficar cheia, como nos velhos tempos.

 

 

 

 

 

 

 

Belo Horizonte, volta a se dividir no seu mais grandioso palco, o Gigante da Pampulha. Metade do monstro é azul, metade é alvinegra. Em seu tapete real, verde, Cruzeiro Esporte Clube e Clube Atlético Mineiro desfilarão em breve a rivalidade sem fim. Mas as imiscíveis torcidas, neste 3 de fevereiro de 2013, viverão um singular momento de harmonia. Em uníssono, cantarão o nome de quem, há quase meio século, abre seus portões para o clássico maior do futebol mineiro.

O Mineirão voltou!

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Geólogo. Fã de futebol, Fórmula 1, paleontologia, astronomia e pirataria desde criança. Belo horizontino, cruzeirense e líbero, armador ou atacante canhoto. Tem Zidane e Velociraptor como grandes ídolos e modelos de vida. Gosta de batata frita, do espaço e de combater o crime à noite sob o disfarce de Escorpião Negro.