Quando a fantasia vira clichê: a primeira derrota do conceito Barcelona

O impetuoso ataque culé pouco produziu contra a sólida defesa madrilenha.

O impetuoso ataque culé pouco produziu contra a sólida defesa madrilenha.

O torcedor que assistiu ontem ao Superclássico observou o nascer de uma grande interrogação sobre o futebol europeu. Sendo justo, este questionamento brotou – ainda que de forma tímida – de verdade há alguns dias, com a derrota sofrida pelo Barça perante o Milan no San Siro. Mas depois do atropelamento no Camp Nou, a maioria da torcida barcelonista provavelmente sentiu ares de incerteza pela primeira vez em anos. A acachapante derrota imposta pelo arquirrival certamente não será – e nem deve ser – motivo para mudanças drásticas na ideologia culé. Mas ela definitivamente servirá (ou deveria servir) para provocar reflexões sobre até que ponto vale a pena seguir insistindo numa filosofia de jogo, sem buscar soluções alternativas aplicáveis a determinadas situações do jogo.

Antes de mais nada, é preciso deixar claro que o Barcelona ainda é um dos melhores times do mundo. Se não é mais o melhor disparado, isso se deve apenas ao fato dos seus rivais mais poderosos estarem, a cada temporada, buscando se aproximar do nível excepcional que o Barça atingiu – e no qual ainda permanece. Messi ainda é o jogador mais extraordinário que o futebol viu surgir em décadas; Xavi ainda é brilhante e Iniesta ainda é o mesmo cracaço em grande fase de algumas semanas atrás – isso sem falar nos vários outros coadjuvantes de luxo. O futebol, entretanto, é cíclico: não há supremacia que dure para sempre e a derrota de ontem, somada à surpreendentemente estéril atuação diante do Milan na semana passada, instaurou na Catalunha um clima de crise que só se dissipará caso o time consiga uma (hoje, improvável) virada no jogo de volta contra a equipe italiana. Com uma eliminação precoce na Champions League, nem mesmo o já encaminhado título da liga espanhola servirá para diminuir os questionamentos em torno do futuro do time de futebol que assombrou a Europa com seu pioneirismo conceitual.

Contra o Milan, Messi teve uma de suas piores atuações com a camisa azulgrená.

Contra o Milan, Messi teve uma de suas piores atuações com a camisa azulgrená.

O amigo André Rocha, do Olho Tático, escreveu logo após a derrota para o Milan que o Barcelona tinha perdido de cabeça erguida: nenhum time no mundo havia ainda conseguido batê-lo impondo seu próprio padrão de jogo e sem fazer uso de um 4-1-4-1 extremamente compacto, retrancado, para diminuir ao máximo os espaços na zona de ação de Lionel Messi. Além disso, o costumeiro domínio das ações do jogo por parte do Barça sempre exigiu de seus adversários uma atuação defensiva impecável, afinal, qualquer vacilo pode ser fatal diante de tanta qualidade técnica. Esta era, portanto, a fórmula para vencer a fantasia culé: compactação entre as linhas, marcação impecável e bom aproveitamento nos contra-ataques.

Seguindo esta receita, alguns poucos conseguiram surpreender a equipe blaugrana. Em 2010, a Internazionale de Mourinho estacionou um ônibus na entrada da área e conteve, sob duras penas, o bombardeio e o volume de jogo culé. No ano passado foi a vez do Chelsea, que eliminou o Barça nas semi-finais da Champions com muita retranca e fantástico aproveitamento de contra-ataques. O próprio Real Madrid de José Mourinho, depois de sofrer derrotas antológicas, já havia conseguido algumas vitórias expressivas, como por exemplo na final da Copa do Rei da temporada 10-11, quando um gol na prorrogação deu a taça aos merengues, ou mesmo no jogo válido pela Liga Espanhola da última temporada, em que o Madrid conseguiu vencer por 2×1 em pleno Camp Nou. Nenhum desses resultados, entretanto, chocou tanto quanto a derrota de ontem: o Real Madrid venceu com autoridade, bloqueou as tentativas culés com relativa tranquilidade e soube ditar o ritmo da partida, rompendo com a lógica vigente nos últimos clássicos.

Ramires marca golaço no Camp Nou: com sua velocidade, o Queniano foi peça-chave contra o Barcelona na última Champions.

Ramires marca golaço no Camp Nou: com sua velocidade, o Queniano foi peça-chave contra o Barcelona na última Champions. | Foto: Getty Images.

O Barcelona foi dominado do início ao fim do jogo. O absoluto domínio culé sobre a posse de bola (62% x 38%) é inerente ao estilo de jogo do time catalão, e não deve ser interpretado como algo diferente da sua intensa e habitual troca de passes. Entretanto, a estratégia costumeira, que tanto fascinou e inspirou ao longo dos últimos anos, falhou miseravelmente no jogo de ontem. O ‘tiki taka’ se mostrou completamente estéril, incapaz de criar boas oportunidades de finalização. Tanto é que mesmo com muito menos posse de bola, o Real Madrid finalizou mais e criou muito mais perigo. A falta de uma presença mais marcante na área adversária tem imposto ao Barça uma grande dificuldade de penetração em defesas bem postadas, como as de Real Madrid e Milan. Desta forma, o Barcelona se restringe a ficar o tempo inteiro com a bola nos pés, tentando sempre “aquele” passe perfeito, que rasgue a defesa adversária e deixe o atacante na cara do gol. O problema é que essa estratégia já está relativamente manjada por alguns adversários mais fortes e alguns técnicos mais espertos. E é aí que fica escancarada a falta de alternativas do Barça à exaustiva e potencialmente estéril troca de passes.

Tito Vilanova e Jordi Roura: aposta na rigidez tática tem complicado em jogos mais retrancados.

Tito Vilanova e Jordi Roura: aposta na rigidez tática tem complicado os jogos mais retrancados.

Na realidade, a falta de alternativas ao “tiki taka” é apenas um dos problemas de um Barcelona que passa por transformações desde a saída de Pep Guardiola. O antigo auxiliar Tito Vilanova tem adotado uma maior rigidez tática, fazendo bem menos experiências do que seu antecessor. Uma mudança em particular, entretanto, vem chamando cada vez mais atenção: a principal estrela do time perdeu muito de sua mobilidade vista em outras temporadas. Lionel Messi, de “falso 9”, passou a jogar como um camisa 9 de fato, esperando a bola e muitas vezes se limitando a concluir as jogadas. O Messi participativo, que vinha buscar o jogo e criar oportunidades, tem aparecido pouco, e isso tem diminuído o volume de jogo barcelonista em partidas mais “retrancadas”, em que a Pulga recebe marcação mais apertada. Mais estático, Messi foi completamente anulado nas duas derrotas recentes. Assim, o Barcelona é forçado a abrir mão de seu maior referencial técnico e buscar outras alternativas – que esbarram na falta de opções ofensivas confiáveis. Villa tenta retomar aos poucos a velha forma, e com a diminuição da mobilidade no time, Pedro, Alexis e Tello sofrem para se encaixar e manter números aceitáveis.

Todo esse contexto de incertezas é potencializado pelos problemas de saúde de Tito Vilanova. Enquanto o treinador trata seu câncer nos EUA, o Barça padece com a falta de criatividade do interino Jordi Roura: se mesmo com o melhor início de temporada da história Tito ainda é obrigado a lidar com os questionamentos e as comparações com Guardiola, Roura assume o comando num momento agudo da temporada, em que todos os problemas do time estão sendo expostos pelo alto grau de competitividade dos adversários mais duros. Caso a eliminação diante do Milan se confirme, o Barcelona terá o restante da liga espanhola para se reformular e crescer de novo como equipe, sob pena de ficar definitivamente para trás de seus principais rivais. O ímpeto revolucionário do Barça não pode se deixar refrear pelo xiitismo da falta de alternativas.

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.