Torcidas organizadas: excrescências de um futebol que não pode mais existir

ORGANIZADAS

Desde o último final de semana, Pernambuco acompanha a saga do jovem Lucas Lyra, de 19 anos, que segue entre a vida e a morte, internado no Hospital da Restauração. O estudante estava a caminho do jogo entre Náutico e Central, no Estádio dos Aflitos, quando foi vítima de uma bala perdida, disparada por um segurança a serviço do ônibus que levava integrantes da Torcida Jovem do Sport – a qual, por sua vez, voltava da Ilha do Retiro após a eliminação do clube diante do Campinense. Nesse infeliz encontro, as hostilidades entre as torcidas logo começaram e o segurança, que estava numa moto escoltando o veículo, atirou indiscriminadamente na multidão de torcedores alvirrubros. A bala atingiu o jovem Lucas na cabeça, e passados quatro dias, seu estado clínico ainda é considerado grave.

Em confusão em frente ao Estádio dos Aflitos, jovem Lucas Lyra foi baleado na cabeça. | Foto: Aldo Carneiro/Pernambuco Press.

Em confusão em frente ao Estádio dos Aflitos, jovem Lucas Lyra foi baleado na cabeça. | Foto: Aldo Carneiro/Pernambuco Press.

Apesar de grotesca e digna do mais alto grau de barbárie, a história infelizmente não choca como deveria. É apenas mais um dos tantos episódios de violência que há décadas vêm assolando o futebol brasileiro. Frutos, sempre, da criminosa omissão de um Poder Público que sempre prefere apresentar soluções paliativas diante da agressividade de marginais disfarçados, que usam seus clubes como pretexto para descarregar sua selvageria – e do velado apoio dos próprios clubes a algumas dessas torcidas. O torcedor pernambucano e brasileiro já se acostumou à violência provocada pelas chamadas torcidas organizadas: instituições que reúnem milhares de torcedores fiéis e apaixonados, mas abrigam também algumas dúzias de vândalos que se escondem sob os pavilhões dos clubes e das próprias torcidas para propagar o terror e cometer crimes.

Psicólogos dizem que o uniforme provoca um sentimento de pertencimento. Outros estudos apontam que ele traz também uma sensação de invisibilidade, ainda mais quando usado simultaneamente por um grande número de pessoas. Isso explica as atrocidades cometidas pelos “camisas negras” no fascismo italiano, ou pelos membros da organização racista Ku Klux Klan, por exemplo. E é também sob as fardas que alguns marginais se aproveitam de sua “invisibilidade” para praticar as maiores barbaridades: da depredação do patrimônio do próprio clube pelo qual “torcem” até à destruição de ônibus e outros bens públicos. Mesmo agressões e mortes acontecem corriqueiramente. Não mais chocam a sociedade e os responsáveis dificilmente são punidos.

Escondidos sob capuzes e vestes brancas, membros do KKK se sentiam seguros para praticar barbaridades.

Escondidos sob capuzes e vestes brancas, membros do KKK se sentiam seguros para praticar barbaridades.

Com a implantação do Estatuto do Torcedor, em vigor desde 2003, esperava-se que houvesse um combate mais intenso e objetivo à violência no esporte brasileiro, mas assim como boa parte das leis no país, o estatuto não trouxe os resultados esperados e sua aplicação ainda é vacilante. Por isso, as confusões seguem sendo fator determinante para o afastamento entre o torcedor brasileiro e os estádios. História muito parecida com a de uma certa ilha, onde a violência era tradicionalmente intrínseca ao futebol. Mas com muito trabalho sério, fiscalização e punição, este país hoje sedia a liga que muitos consideram a melhor do mundo – sobretudo no quesito estádios cheios.

Os portadores do velho e conhecido complexo de vira-lata certamente dirão que o Brasil é um país de selvagens, que nunca terá jeito, e portanto não pode ser comparado a este que é um dos mais ricos e poderosos do planeta. Mesmo com tanta riqueza, poder e organização, no entanto, durante um século a Inglaterra fingiu não ver os inúmeros casos de violência que contingenciavam o futebol nacional. No país-berço do futebol, o vandalismo – para eles, hooliganismo – é uma triste tradição secular: a primeira ocorrência relacionando arruaças e futebol data de 1885, quando torcedores de Preston North End e Aston Villa atiraram pedras e pedaços de pau nos jogadores dos dois times. Fora dos estádios, o primeiro caso de hooliganismo ocorreu no ano seguinte, quando uma gangue de torcedores do mesmo Preston enfrentou uma hooligan firm do Queen’s Park numa estação de trem. Ao longo do século XX, muitas ‘firms’ se estabeleceram no país, sempre associadas a clubes do futebol local. E a proliferação trouxe um agudo crescimento do número de conflitos e vítimas fatais. No início da década de 70, alguns incidentes começaram a chamar a atenção da mídia, como por exemplo no caso em que hooligans do Bolton esfaquearam até a morte um jovem torcedor do Blackpool, em 1973. No início da década seguinte, graves incidentes envolvendo uma firm de torcedores do Milwall fez a então Primeira Ministra Margaret Thatcher criar um comitê “de guerra” permanente para combater o hooliganismo.

Hooliganismo assombrou e colocou em xeque o futebol inglês até final dos anos 80.

Hooliganismo assombrou e colocou em xeque o futebol inglês até final dos anos 80.

O futuro do futebol inglês entrou em xeque, e o governo, em parceria com a Football Association, passou a adotar medidas com o intuito de coibir a violência no futebol. Praticamente toda a estrutura do futebol nacional foi discutida e revista, e aos poucos, as mudanças foram se concretizando: foram separadas nos estádios áreas destinadas às famílias, a venda de bebidas alcoólicas passou a ser mais fiscalizada e os clubes adotaram o uso de alambrados em seus campos, entre outros atos. Também foi implantado o uso de câmeras dentro e nas redondezas dos estádios, para identificar os agentes do vandalismo. Passou a ser observada, então, uma tendência de redução no número de incidentes, até que em 1985, ocorreu o mais marcante incidente da história do ‘hooliganismo’: na final da Copa Europeia, Juventus e Liverpool se enfrentaram no estádio Heysel, em Bruxelas. A torcida dos Reds provocou uma grande confusão que resultou na morte de 39 torcedores italianos.

O episódio ocasionou a suspensão de todos os clubes ingleses de competições europeias até o ano de 1990, com um ano de punição adicional para o Liverpool. E despertou a urgente necessidade de drásticas mudanças no sentido de conter a violência e reeducar os torcedores. Desde então, os episódios de violência têm sido implacavelmente punidos e seus protagonistas, proibidos de voltar a assistir jogos de seus clubes ou até mesmo sofrendo sanções na esfera penal. Vários estádios foram modernizados para garantir a segurança dos torcedores. Todo esse contexto de crise fez nascer a Premier League, que se tornou referência no mundo inteiro e levou os clubes ingleses de volta ao topo do continente.

A tragédia em Hillsborough levou à modernização dos estádios ingleses e contribuiu para o fim da violência.

A tragédia em Hillsborough levou à modernização dos estádios ingleses e contribuiu para a drástica redução da violência no futebol local.

Enquanto o futebol inglês combateu corajosamente a violência e hoje colhe os frutos, no Brasil – o país dos paliativos -, a solução definitiva é sempre adiada, numa revoltante e criminosa omissão. No caso do jovem Lucas, por exemplo, a “solução” escolhida foi o banimento das torcidas uniformizadas dos estádios pernambucanos. Como num passe de mágica, o Poder Público e a Federação Pernambucana esperam que isso seja suficiente para que todos os marginais deixem de ir aos jogos assim, do dia para a noite. Assim, ficam proibidos de comparecer aos jogos os uniformes, não os vândalos infiltrados – e desta forma, os torcedores de bem, que incentivam seu time e não arrumam confusão, também pagarão. Todas as torcidas organizadas certamente continuarão indo aos estádios, com a diferença de que não mais usarão os fardamentos que lhes caracterizam. Muito provavelmente, a decisão se mostrará um retrocesso no combate à violência: será bem mais difícil identificar os responsáveis pela desordem. Mesmo com toda a expectativa e revolta em torno da saúde de Lucas Lyra, em nenhum momento foi cogitado o aumento no número de câmeras ou uma rigidez maior no cadastro de torcedores dessas organizações, que contam com um número muito maior de associados do que os próprios clubes que “representam”. E pior: por representarem, enviesadamente, a paixão exacerbada pelos clubes, as organizadas geram forte empatia em jovens fãs de futebol, crianças que deliram ao som de cânticos como “lalaiá laiá, vem pra Jovem, vem roubar!”. As organizadas têm também grande penetração comercial, e viabilizam sua estrutura física com os produtos que vendem aos incautos.

"Lalaiá laiá, vem pra Jovem, vem roubar!"

“Lalaiá laiá, vem pra Jovem, vem roubar!”

Os clubes, por sua vez, são cúmplices das organizadas neste cenário de selvageria. São eles que fornecem ingressos para essas instituições, e muitas vezes lhes cedem espaço dentro de suas dependências para que fiquem guardadas bandeiras, instrumentos musicais e outros apetrechos. O Sport, recentemente, sofreu as consequências desse conluio com a marginalidade: torcedores da Inferno Coral invadiram sua sede e incendiaram a sala onde a Torcida Jovem mantinha seus materiais, gerando grande prejuízo para o clube. Em que pese a dependência que o time tem de alguns de seus torcedores mais apaixonados, o clube tem – ao menos, deveria ter – a obrigação de não se envolver com uma instituição responsável por tantos episódios de violência e depredação. Mas não é isso que pensam os diretores de agremiações esportivas no Brasil, que mantêm a cumplicidade em relação a essas torcidas e sempre coram de vergonha e desfaçatez quando alguma ocorrência de vandalismo acontece.


Nada de novo, portanto, no futebol pernambucano e brasileiro: mais um caso revoltante de violência contra o torcedor e mais uma vida que está pelo fio da navalha, graças à atividade criminosa de “torcedores” que, com o apoio velado dos clubes, seguem fazendo do futebol brasileiro um meio de vandalismo e selvageria, afastando as famílias e torcedores de bem dos estádios. Com o distanciamento entre clubes e torcidas, os dois perdem: os aficionados são obrigados a arrefecer suas paixões e as agremiações deixam de arrecadar muito dinheiro, tanto na bilheteria quanto na venda de produtos oficiais ou no número de associados. Enquanto isso, os cartolas do nosso futebol preferem continuar fazendo pouco caso dos recorrentes episódios e seguem tomando soluções paliativas, que não resolverão o problema. O Brasil vai se consolidando, assim, como o país onde só se pode acompanhar o futebol pela televisão.

Flamengo joga para poucas testemunhas no Engenhão. O problema é só a distância?

Flamengo joga para poucas testemunhas no Engenhão. O problema é só a distância?

NOTA: Enquanto o autor formulava o texto, ocorreu mais um grave incidente relacionado às torcidas organizadas – desta vez, a corintiana. No jogo entre San Jose e Corinthians, válido pela Libertadores, um torcedor brasileiro atirou um sinalizador que atingiu o rosto de um torcedor boliviano de 14 anos. O jovem morreu pouco depois. O alvinegro paulista, por sua vez, corre o risco de ser banido da competição. É a selvageria dos torcedores brasileiros prestes a trazer (mais) prejuízos esportivos aos nossos clubes e ao nosso futebol como um todo. Mas pelo visto, as entidades que controlam o esporte no país devem estar esperando que aconteça algo parecido na Copa do Mundo, sob os olhares atentos da comunidade internacional.

Comentários

Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.