A caminhada de Didi

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 8 Anos atrás

A CAMINHADA DE DIDI

Há perto de vinte anos, quando eu estagiava no Centre Louis Gernet, em Paris, fiquei hospedado no Foyer des Pères du Saint Sacrement, na Friedland, rua paralela aos Champs Elysées. Aos domingos, algumas pessoas mais ligadas à Casa compartilhavam com os sacramentinos e seus hóspedes o café da manhã. Foi numa ocasião dessas que conheci um cavalheiro francês, já idoso, que, como eu, era Doente por Futebol. E louco pelo Brasil. Logo fizemos amizade, claro. Ele me contou que tinha assistido a Copa de 1958, na Suécia. Acompanhava com justa esperança a brilhante seleção francesa. Foi com tristeza e espanto, mas também com admiração, que a viu derrotada pelos brasileiros [confira o jogo completo aqui]. Concordei quando ele me disse que a goleada de 5×2 foi um tanto excessiva. Um de seus craques, o capitão Jonquet, contundiu-se e teve de deixar o campo. Naquela época, não havia substituições. Jonquet ainda tentou retornar, mas não suportou as dores. Meu amigo francês suspirou: “Enfrentar os brasileiros de igual para igual era dificílimo. Com um a menos, impossível. Qualquer equipe do mundo naufragaria. A nossa era magnífica, porém a de vocês era superior. Acho que mesmo com os onze em campo por todo o tempo nós perderíamos. Certamente por um placar menos elástico. Nós tínhamos Kopa e Juste Fontaine, mas vocês tinham Pelé, que já era o melhor do mundo, tinham o terrível Garrincha e ainda por cima tinham le Magicien.” Não demorei a entender quem é que ele chamava de Mago, mas perguntei assim mesmo. Meu novo amigo sorriu: “Didi, evidentemente. Era ele quem regia a orquestra, comandava a equipe, acionava aquele ataque arrasador. Os técnicos, os jogadores adversários, todo o mundo sabia que só tinha um jeito de parar a máquina brasileira: arrêter Didi (parar Didi). Mas para isso só havia um meio seguro.” Curioso, indaguei logo que meio seguro seria esse de deter nosso Mago. Meu amigo fez uma pausa, sorriu e arrematou, em tom peremptório: “Matá-lo antes de começar a partida”.

A comparação com um regente de orquestra era perfeita. Didi dava o ritmo da equipe e o fazia variar, passando repentinamente de um samba malicioso ao frevo mais alucinante. E quase sempre os adversários se viam obrigados a dançar ao compasso de sua música. Além do mais, esse maestro era também um virtuose, sutil e criativo. Vem a propósito outra história, que me contou um colega carioca torcedor do Botafogo. Ele convenceu a namorada, que não entendia de futebol, a assistir uma partida de seu time. Isto se passou na década de 1960, quando o Botafogo tinha no seu elenco um bom grupo de bicampeões do mundo: Didi, Garrincha, Zagalo, Amarildo. No intervalo do jogo, a moça comentou que estava gostando, elogiou sinceramente o time do namorado e mostrou-se fascinada por Garrincha, mas pouco impressionada com Didi: “Ele não se esforça como os outros, fica mais é passeando pelo campo.” Meu colega pediu à namorada que prestasse atenção, explicou-lhe que era Didi quem distribuía o jogo, fazia acontecerem os grandes lances. Ela prometeu ficar atenta. No segundo tempo, Didi pegou uma bola na intermediária e inciou uma arrancada súbita, em diagonal. Dois adversários o flanqueavam, tentando o bloqueio – e continuaram a segui-lo por alguns segundos fatais, antes de dar-se conta de que a bola já estava longe, nos pés de outro craque, que chutou com perigo para o arco adversário. Não foi gol, mas o Maracanã inteiro levantou-se, com um clamor de admiração. A moça ficou perplexa: “O que aconteceu? Como foi que ele fez? A bola estava com ele, não estava? Como que apareceu do outro lado, sem ninguém ver? Isso não pode, isso é mágica!”

De fato, o mestre caprichoso muitas vezes surpreendia todo o mundo com jogadas sutis. Passava em um relâmpago da caminhada elegante, de passos largos e discretos, a uma arrancada irresistível; dava “passes invisíveis”, como o que encabulou a namorada de meu colega; fazia lançamentos longos e diabolicamente precisos, ou, com pequenos toques, imprimia uma velocidade espantosa a seu time. De vez em quando, disparava de longa distância chutes sinuosos e indefensáveis, como o do segundo gol do Brasil contra a França, na partida histórica evocada por meu amigo parisiense. E muitas vezes era fatal nas faltas, cobrando-as com uma técnica feiticeira. 

É bem conhecida sua invenção endiabrada, a “folha seca”, com que decidiu a vitória num jogo importantíssimo para a seleção brasileira: uma partida contra o Peru, nas Eliminatórias da Copa de 1958. Ele mesmo contou que na véspera tinha passado horas treinando solitariamente, aperfeiçoando sua invenção. Que “patenteou”, dando-lhe esse batismo poético. Com um toque de três dedos, Didi imprimia à bola uma curva imprevisível. O goleiro dirigia-se cheio de certeza para o ponto onde a pelota “deveria” cair, onde a lógica indicava que ela cairia, onde era “natural” e “justo” que ela caísse; mas de repente, em pleno ar, a traidora se desviava para aninhar-se mansamente nas redes. Como uma folha seca num outono imprevisível. As vítimas perplexas demoravam a recompor-se, sentiam abalada sua confiança na própria técnica e até nas leis da física. Mais tarde, outros grandes craques incorporaram este lance demoníaco a seu repertório. Não sei se Zico se inspirou em Didi, mas foi um tremendo disparador de chutes mágicos dessa categoria. Quando jogou na Itália, onde fez choverem “folhas secas” em todas as estações, o Galinho chegou a provocar seminários em que se discutia se havia ou não defesa para suas cobranças enlouquecedoras. Ele, Zico, usava com maestria uma invenção brasileira, criada e difundida por Mestre Didi.


A importância deste craque para o futebol brasileiro é extraordinária. Não se limita ao efeito de suas jogadas geniais, a sua impecável regência da seleção em duas Copas do Mundo. Vai além. Didi foi decisivo para estabelecer a grandeza do futebol brasileiro. É o que tentarei agora explicar. Deixo de lado a participação de seu bom conselho na tomada de decisões que, em nossa primeira Copa, a Comissão Técnica acertadamente fez: pôr Pelé e Garrincha em campo já no terceiro jogo da competição. Sabemos que Didi já então era um técnico que atuava dentro da equipe. Era um jogador cerebral, como Di Stefano, Beckenbauer, Zidane, Ademir da Guia, Gerson e outros grandes astros. No entanto, ele foi mais do que isso. Foi um líder que levantou o nosso futebol.

 

Recordo um momento crítico, no último jogo da Copa de 1958. A Suécia começou de forma arrasadora: logo no início da partida, por volta dos quatro minutos, chegou ao primeiro gol numa sequência perfeita de passes. Nenhum jogador brasileiro tocou na bola, que foi de pé em pé, de sueco a sueco, até que Liedholm concluiu. O tipo do gol que atordoa qualquer equipe. No Brasil, muita gente que ouvia a partida se afastou do rádio em desespero, prevendo uma derrota calamitosa. Nossos torcedores que lá estavam levaram a mão à cabeça. 

Mas havia Didi. Ele recolheu a bola no fundo das redes e foi andando com ela debaixo do braço, sereno, elegante, tranquilo como sempre. Colocou-a no centro do campo com absoluta calma. E dada a partida, começou o baile. Ao contrário do que seria de esperar, do que muitos esperavam, foi a equipe sueca que ficou atordoada, sofrendo o bombardeio de uma sequência terrível de ataques. Veio logo o empate, uma chuva de gols. O time brasileiro estava eletrizado. Quando os suecos conseguiram equilibrar-se, o jogo já estava em dois a um para o Brasil, gols de Pelé e Vavá [na verdade, como bem esclareceu o Doente por Futebol Felipe Nilo, os dois primeiros gols foram de Vavá, Pelé só marcaria os seus no segundo tempo]. Assim acabou o primeiro tempo. No segundo, o nosso maestro impôs o mesmo ritmo. Aos dez minutos, gol de Pelé. Aos 23, gol de Zagalo. A valente equipe sueca ainda marcaria aos trinta e cinco, mas foi um último suspiro. Os nossos jogadores não se abalaram nem um pouco, continuaram no mesmo diapasão. E o jogo foi gloriosamente encerrado com outro gol de Pelé. Cinco a dois: um massacre, uma vitória indiscutível.

Já nem sei quantas vezes assisti a gravação dessa partida, hoje disponível em video. Acreditem: apesar da beleza dos gols, da magia de esplêndidas jogadas envolvendo a excelente seleção sueca, o momento que mais me emociona não é um lance do jogo. É a tranquila caminhada de Didi com a bola debaixo do braço. Vinte e sete passos calmos e decididos (houve quem contasse), com uma serenidade olímpica, irradiando uma certeza inabalável. A atitude de Didi nessa caminhada majestosa convenceu os seus companheiros, sua certeza os contagiou. E a batuta do grande maestro foi obedecida rigorosamente, compasso a compasso, numa sinfonia irresistível (vejam a partir dos 28s do vídeo abaixo).



Para que me entendam melhor, devo lembrar antecedentes históricos. A derrota para o Uruguai na Copa do Mundo de 1950 (inesperada, parecia impossível), traumatizou o Brasil. O país inteiro mergulhou na depressão. O próprio Obdúlio Varela, craque uruguaio que comandou a vitória de sua equipe, mais tarde revelou-se penalizado com o clima de tragédia, o luto que envolveu os brasileiros. Eu era muito criança nessa época, não tenho lembrança alguma da difusa sensação de nuvem negra que do Maracanã se espalhou sobre o país. Todavia, não faltam dados a respeito. Os registros foram feitos não apenas por cronistas esportivos; também cientistas sociais e historiadores estudaram o fenômeno. Lembro-me das perguntas de alunos norte-americanos que, recentemente, vieram estudar na minha universidade (a UFBA), ansiosos por compreender o Brasil; eles estavam intrigados com as suas leituras sobre o episódio e me indagavam, perplexos, como podia ser que um país sucumbisse ao sentimento de fracasso por conta de uma simples disputa esportiva. Foram esses alunos que me fizeram examinar o assunto como antropólogo. Constatei: o Maracanazo teve mesmo um efeito arrasador para a auto-estima nacional, pelo menos em importantes segmentos da população. Não criou, porém reforçou nosso “complexo de vira-latas”, para usar a expressão de Nelson Rodrigues. Esse complexo desenvolveu-se no caldo de cultura do racismo. 

Teorias pseudo-científicas que por muito tempo circularam aqui tinham penetrado na mente de muitos: a sombra de Gobineau ainda pesava, difundindo a convicção de que nosso país estava destinado ao fracasso por causa do contingente de negros e mestiços. Mesmo após o desmentido da ciência, essas teorias impregnaram mentalidades; sua influência permaneceu depois que elas já estavam mortas e enterradas. Não eram a única força ideológica a formar mentalidades entre nós. Parece que andamos oscilando muito entre esse pessimismo racialista e um ufanismo esporádico, igualmente bisonho. A oscilação foi significativa no mundo do futebol. Na véspera da última partida da Copa de 1950, éramos campeões invencíveis, com um escrete perfeito. No dia seguinte, éramos gente destinada à derrota, com um escrete desclassificado a que faltava garra. E arrumou-se logo uma explicação estúpida: os culpados eram os negros. Isso convenceu muita gente: o racismo é a sociologia dos imbecis. Um famoso relatório apresentado à CBD nas proximidades da primeira Copa que ganhamos era taxativo, ao apontar o maior obstáculo a nossos projetos de triunfo: os jogadores negros sucumbiam psicologicamente, “amarelavam” na final. A Copa de 1958 demoliu esse mito com a explosão do gênio de Pelé, Garrincha e Didi. Nas vésperas do jogo, De Sordi acusou uma contusão, um leve estiramento, e foi substituído pelo negro Djalma Santos, que atuou com soberba segurança: basta lembrar que por esta sua única partida ele foi eleito o melhor lateral-direito da Copa. A convicção de que um gol no começo da partida bastaria para liquidar os nervos dos jogadores e quebrar a força do Brasil era muito grande no Brasil. Por isso muita gente abandonou o rádio (alguns até o quebraram) ao ouvir a irradiação do gol de Liedholm. Um negro elegante, sereno, decidido, com uma firme caminhada de vencedor deu fim ao tabu. Seus passos firmes ajudaram a erguer ao topo do mundo o futebol brasileiro.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).