A rebelião dos pequenos

  • por Lucas Sartorelli
  • 8 Anos atrás

O futebol profissional vem se tornando um esporte cada vez menos democrático em que os interesses e o dinheiro falam mais alto. Porém, talvez prevendo as desiguais mudanças, os deuses desse esporte resolveram atribuir fatores ininteligíveis à sua disputa que o tornam único. São 90 ou 180 minutos resolvidos dentro das quatro linhas, onde tudo pode acontecer. São onze contra onze brigando pelo mesmo objetivo, jogando para fazer história e dividindo cada bola como se fosse a última. Porque o inexato, a vontade e a incerteza do resultado são a essência do combustível que abastece nossa paixão por esse esporte.

Confira 11 confrontos em que a tradição, o peso da camisa e o favoritismo não entraram em campo (sem ordem específica).

  • Mirassol 6 x 2 Palmeiras – Campeonato Paulista 2013

As equipes vinham com diferentes objetivos e buscavam pontos. O pequeno Mirassol, para afastar o fantasma da zona do rebaixamento. O gigante Palmeiras, para assegurar a vaga na fase classificatória e mais do que nunca, espantar a má fase. Objetivos que começaram a se decidir a favor do Mirassol logo aos 36 segundos de jogo, no gol contra do estreante e nervoso zagueiro Marcos Vinicius, oriundo da base alviverde. A sucessão de erros do visitante se alastrou e com 11 minutos, o placar já marcava 3×0 para delírio da torcida do clube do interior. Tudo parecia inacreditável, até que o Palmeiras diminuiu e encostou no placar com 2 gols, mostrando alguma reação. Mas as esperanças duraram pouco. Em menos de 10 minutos, o Mirassol marcou mais 3 vezes, lacrando o caixão e selando incríveis 6×2 no fim da primeira etapa. Para os 45 minutos finais, restaram apenas o toque de bola do time da casa e as quase nulas chances do Palmeiras. Do lado amarelo, um feito histórico. Do lado verde, mais um capítulo de horror que entra para a história.

  • Marília 7 x 1 Sport – Campeonato Brasileiro Série B de 2004


Eram dois times brigando pelas primeiras posições da tabela na série B de 2004. O jogo tinha tudo para ser equilibrado, mas, ao final do 1º tempo, o placar já marcava 5×0 a favor do time do interior paulista e o Sport não entendia nada. Nenhum dos dois conseguiu o acesso naquele ano, mas esse resultado ficou marcado.

  • Palmeiras 2 x 4 União Barbarense – Campeonato Paulista 2003


Campeonato paulista, tarde de domingo ensolarada no Palestra Itália e a torcida alviverde com a certeza da vitória do gigante sobre o pequeno. Só que o time de Santa Bárbara d´Oeste resolveu duvidar da sentença e atuar como gente grande, com direito a show do carrasco Romualdo (que já aprontava das suas contra o Palmeiras quando atuava pelo Gama anos antes).

Água no chope: Weldon comemora o segundo gol do Brasiliense no Mineirão

  • Atlético MG 0 x 3 Brasiliense – Copa do Brasil 2002


O clube de Taguatinga nunca havia pisado no Mineirão, mas isso não foi problema. Aproveitando a participação histórica na semifinal da Copa do Brasil de 2002, o Brasiliense desde o início se mostrou abusado e não deu espaço para o Atlético MG se criar dentro de sua própria casa, finalizando o confronto logo na primeira partida, diante de um Mineirão lotado de atleticanos.

  • Juventude 6 x 1 Corinthians – Campeonato Brasileiro 2003


Que o tempo fechado e a neblina do estádio Alfredo Jaconi na Serra Gaúcha sempre se aliam ao time da casa tornando-se armas contra quem se aventurava a enfrentar o Juventude dentro de seus domínios, não é novidade. Quando chegou a vez do Corinthians encarar esse temeroso desafio pelo campeonato brasileiro de 2003, entrou desatento e foi presa fácil. A expulsão do zagueiro Anderson tornou as coisas ainda mais difíceis. O time de Caxias massacrou o alvinegro impiedosamente, com direito a gol de calcanhar de Hugo que, anos depois, jogaria pelo próprio Corinthians.

  • Anapolina 4 x 0 Grêmio – Campeonato Brasileiro Série B 2005


A fase do Grêmio era ruim no início da série B em 2005, o ambiente era conturbado e o time estava há quase 3 meses sem vencer duas partidas seguidas. Porém, nem o torcedor tricolor mais pessimista poderia prever o que aconteceu no estádio Jonas Duarte, em Anápolis, pela 9ª rodada. Com dois gols de Esley e dois de Wilsinho, o time de vermelho atropelou aquele que mais tarde protagonizaria o milagre dos Aflitos.

  • Vasco 0 x 3 XV de Novembro – Copa do Brasil 2004


O Vasco era campeão da Taça Rio e a noite parecia de festa em São Januário na 2ª rodada da Copa do Brasil de 2004. Além de jogar em casa, com o time completo, a equipe precisava apenas de um empate em 0x0 contra o modesto XV de Novembro para conseguir a classificação e avançar à próxima fase da Copa do Brasil. Mas o técnico Mano Menezes estava atento e preparou uma equipe para surpreender e estragar qualquer celebração. Resultado: goleada, eliminação e vexame vascaíno em casa.

Baraúnas guerreiro em São Januário

  • Vasco 0 x 3 Baraúnas – Copa do Brasil 2005


Nem Papai Joel, nem Romário. Apenas um ano após a eliminação para o também modesto XV de Novembro, o até então desconhecido e mero coadjuvante Baraúnas protagonizou outra decepção ao torcedor vascaíno, mais uma vez em São Januário, e pelo mesmo resultado vexaminoso. Aproveitando a pífia atuação do time da colina, a equipe do Rio Grande do Norte deitou e rolou, com direito a gol do lendário Cícero Ramalho, de 40 anos de idade e 11 quilos acima do peso. Para o Vasco, mais uma eliminação, dessa vez nas oitavas de final. Para o Baraúnas, um resultado histórico que sempre será lembrado.

  • Cruzeiro 1 x 5 Remo – Campeonato Brasileiro 1994


No torneio de repescagem do Brasileirão de 1994, o Cruzeiro brigava para sair das últimas colocações e fugir da ameaça de rebaixamento. O adversário era o Remo, também em situação complicada, e saindo de uma surra de 6×0 do Atlético-MG em casa. Jogando nos contra-ataques e aproveitando-se constantemente das falhas defensivas da equipe cruzeirense, o time paraense fez a festa no Mineirão e obrigou o goleiro Dida a buscar a bola no fundo das redes por 5 vezes, com amplo destaque para o atacante Helinho, autor de 4 gols, e o meia Cuca (atual treinador).

  • Flamengo 2 x 6 Paraná – Campeonato Brasileiro 2003


O Flamengo sempre enfrentou duras dificuldades atuando no Paraná e o ano de 2003 retratou de forma cruel esse estigma. Na 11ª rodada do campeonato brasileiro daquele ano, Adilson Batista iniciava seu trabalho como técnico paranista e resolveu mostrar a que vinha na estréia, mandando um inspirado Paraná para o ataque contra um adversário desalentado no Pinheirão, fórmula que resultou em goleada com requintes de crueldade. No mesmo campeonato, o rubro-negro ainda sofreria outras duas goleadas contra os paranaenses Coritiba e Atlético, marcando um dos piores anos da história para o torcedor flamenguista.

  • Bolívia 6 x 1 Argentina – Eliminatórias da Copa 2010


Era 1º de abril de 2009, dia da mentira, mas, para alegria dos bolivianos e tristeza dos argentinos, o resultado do jogo válido pelas eliminatórias da Copa 2010 era bem verdadeiro e, de certa forma, merecido. Em La Paz, a Bolívia aproveitou a altitude de 3,6 mil metros e o péssimo desempenho da defesa alviceleste para aplicar uma goleada humilhante de 6 x 1, acabando de forma estrondosa com a invencibilidade argentina no comando do técnico Diego Maradona até então. O artilheiro da partida foi o centroavante Joquín Botero, que marcou três gols e ainda deu as assistências para os outros três. O massacre de La Paz será eternamente lembrado como a maior derrota da história da Argentina e, provavelmente, a maior vitória da história da Bolívia.

Citem outros exemplos, Doentes.

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Paulistano, projeto de jornalista e absolutamente ligado a tudo o que envolve essa arte chamada futebol, desde a elegante final de uma Copa do Mundo às peculiaridades alternativas das divisões mais obscuras de nosso amado esporte bretão. Frequentador assíduo nas melhores (e piores) várzeas e peladas de fim de semana, sempre à disposição para atuar em qualquer posição.