A sensibilidade feminina na cobertura do futebol

  • por Helena Cristina de Oliveira
  • 6 Anos atrás
(Foto: Helena Cristina de Oliveira)

(Foto: Helena Cristina de Oliveira)

Anos atrás, em um programa esportivo da Gazeta, Milton Neves, que é conhecido de todos que acompanham futebol, se virou para Regiane Ritter e disse que lugar de mulher era na cozinha. Regiane Ritter, para quem não sabe, foi pioneira no jornalismo esportivo e é referência na área entre homens e mulheres. E recebeu essa declaração infeliz e gratuita no meio de uma discussão se tal lance tinha sido pênalti ou não. Declaração que o jornalista lamenta ter feito até hoje. “Foi a maior besteira que eu falei na minha vida”. E complementou: “Hoje não dá mais para fazer rádio e principalmente televisão sem mulher. O espaço da mulher hoje está absolutamente garantido”.

Na entrevista, Milton Neves disse também que já lançou muitas mulheres no meio esportivo. (Foto: Helena Cristina de Oliveira)

Na entrevista, Milton Neves disse também que já lançou muitas mulheres no meio esportivo.
(Foto: Helena Cristina de Oliveira)


Apaixonada por futebol e jornalismo esportivo desde criança, fiz para o meu trabalho de conclusão de curso um livro sobre repórteres de campo. A gente acompanha futebol diariamente, mas nunca pára para para pensar em como são os bastidores das notícias do futebol, em como é a fidelização de fontes, como o jornalista consegue tal furo etc. E no meio de tantas dúvidas, uma das principais que eu tinha era: “e mulher que cobre futebol, tem vez?”. Melhorou muito, mas até hoje ainda ouvimos comentários desagradáveis de que mulher não entende de futebol, mesmo quando vemos mulheres que entendem mais do riscado do que muito homem por aí.


Nesse livro, além do Milton Neves, meu grupo entrevistou Mauro Beting, Abel Neto e Alessandro Abate. Todos foram unânimes: existe, sim, preconceito contra a mulher nesse meio. Os motivos são diversos. O primeiro é básico: machismo. “Homem é interesseiro. Na redação, é muito engraçado quando uma menina bonita começa e todo mundo quer ajudar ela a aprender os programas. Quando entra o gordinho lá ’ah, se vira aí‘. Aí se a menina conversa, ’ah, essa menina é fácil‘. Se ela fica na dela, ’essa menina é muito mala, arrogante‘. É uma linha muito tênue, é um meio muito preconceituoso”, disse Abate, que é editor do Lance!.

Mas, segundo eles, há também a parcela de culpa da mulher. Muitas mulheres ainda erram em algo que não deveriam e, por isso, prejudicam as outras por tabela: namoram jogadores de futebol, empresários etc. “A mulher perde completamente a credibilidade”, enfatizou Alessandro. E em um meio em que vemos “Renatas Fans” da vida e programas como “Belas na rede”, que tentam chamar a atenção dos espectadores pela beleza das apresentadoras, como se portar para ganhar respeito de colegas e torcedores?

É claro que no livro fizemos questão de entrevistar uma mulher para mostrar seu ponto de vista e falar da importância da sensibilidade feminina em um meio tomado predominantemente por homens. Falamos com a Janice de Castro, repórter do Esporte Fantástico, da Record. Curiosamente, depois de tantas declarações de homens de que “tem preconceito sim, tem preconceito sim”, Janice falou tranquilamente “eu não acho que tem preconceito não, nunca senti”. E ficou surpresa ao saber que seus colegas disseram que ele existe. Mas, depois de uma hora conversando com ela, percebemos que a repórter não sentia o preconceito por saber se impor. Por isso, sempre foi respeitada. “Mulher tem que estudar. Tem pouca mulher que entende de futebol de verdade. Por isso o espaço é restrito e aí falam em preconceito. Tem que se impor. Não é só assistir Copa do Mundo. É assistir a Série B, Série C, Série D”. E frisou que mulher deve se preservar: “Eu vejo colegas que chegam ao treino e abraçam jogador. Eu não consigo fazer isso. É muita intimidade em um lugar que você tem que se levar a sério. Não vou julgar, não vou condenar. Mas é a imagem dela que está em jogo”.

Janice de Castro, à direita, mostrou que a mulher é capaz de ter seu espaço no jornalismo esportivo.(Foto: Helena Cristina de Oliveira)

Janice de Castro, à direita, mostrou que a mulher é capaz de ter seu espaço no jornalismo esportivo.
(Foto: Helena Cristina de Oliveira)


Quando iniciei o projeto, confesso que fiquei preocupada. Não conseguia enxergar espaço para a mulher e não via como ela poderia provar que tem credibilidade para falar de futebol. Mas a Janice mostrou que é possível, sim. Sem deixar de lado a delicadeza, mostrou que, com força de vontade e determinação, nós podemos ter nosso espaço. Em 8 de março de 1957, cerca de 130 operárias de uma fábrica de tecidos morreram carbonizadas após declararem greve para exigir melhores condições de trabalho e um tratamento digno no ambiente profissional. Cento e cinquenta e seis anos depois, apesar de termos evoluído nesse aspecto, as mulheres ainda precisam exigir respeito. No meio do futebol, não é diferente. Mas a gente chega lá, viu?

Parabéns para todas nós, mulheres, Doentes por Futebol!

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Jornalista. Interessou-se pela área graças ao seu time do coração, o Palmeiras. Foi finalista do 5º Prêmio Santander Jovem Jornalista em 2010, quando ainda era estudante. Com 25 anos, atualmente trabalha na Comunicação & Marketing do Departamento de Comunicação do Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS), em São Paulo. Viu na Doentes por Futebol uma oportunidade de fazer parte do jornalismo esportivo, que é um sonho e um segmento em que acredita que pode ter mais valor para a sociedade.