A última vez do Barça sem a posse de bola

  • por Raniery Medeiros
  • 8 Anos atrás

Pasillo

Ao longo dos últimos anos ficamos acostumados a ver o Barcelona sempre com a posse de bola. O controle do jogo e o domínio da equipe são marcas registrada do clube. Alguns gostam, outros acham chato e há quem diga que é sonolento.

Pode-se dizer que tal estilo de jogar de monopolizar as zonas de campo vem desde os tempos de Rinus Michels. Com Cruyff, discípulo de Rinus, o padrão foi amplamente modelado. Como técnico, Johan tentou introduzir o futebol total no Ajax. Foi no clube holandês que ele treinou Frank Rijkaard. Anos mais tarde, o próprio Rijkaard viria a ser treinador do Blaugranas.

Já no comando dos “culés”, Cruyff teve em Guardiola o seu legítimo sucessor. Coincidência ou não, 12 anos após a sua saída, Pep assumiu o cargo de treinador do Barça. As ideias difundidas pelo seu mestre foram colocadas, aplicadas e desempenhadas em campo com maestria.

Perceberam o bastão sendo passado? Gostando ou não do Barcelona, há que se salientar a postura de um padrão próprio de se jogar futebol. Nem sempre dará certo. O tiro pode sair pela culatra e os resultados podem mascarar tal ato. Afinal de contas, ter a posse de bola nem sempre significa ser objetivo dentro das quatro linhas.

Desde as categorias de base, os jovens Barcelonistas aprendem os fundamentos e o estilo implementado no clube. Troca de passes, liberdade tática, marcação sob pressão, variação de esquema, bola rodando de um lado para o outro. Com Guardiola no comando, isso ficou visível. O antídoto para vencer um time que está sempre com a bola foi sendo descoberto e passado de mão em mão. Hoje, mais previsível, a equipe tenta encontrar uma solução para barrar “a cura” que foi descoberta pelos demais.

EXEMPLO

Com Pep Guardiola de treinador, essa mística foi sendo intensificada, discutida nos programas esportivos e, de forma propensa, uma boa conversa de bar. Os números e os títulos são indiscutíveis.

Liga dos Campeões 2010/2011 – Campanha

Primeira fase
Barcelona 5 x 1 Panathinaikos-GRE – 74% x 26%
Rubin Cazan-RUS 1 x 1 Barcelona – 25% x 75%
Barcelona 2 x 0 Copenhegem-DIN – 64% x 36%
Copenhegem-DIN 1 x 1 Barcelona – 28% x 72%
Panathinaikos-GRE 0 x 3 Barcelona – 26% x 74%
Barcelona 2 x 0 Rubin Cazan-RUS – 74% x 26 %

Oitavas de Final
Arsenal-ING 2 x 1 Barcelona – 39% x 61%
Barcelona 3 x 1 Arsenal-ING – 68% x 32%

Quartas de Final
Barcelona 5 x 1 Shakhtar Donestk-UCR – 64% x 36%
Shakhtar Donestk-UCR 0 x 1 Barcelona – 38% x 62%

Semifinais
Real Madrid 0 x 2 Barcelona – 72% x 28%
Barcelona 1 x 1 Real Madrid – 64% x 36%

Final
Barcelona 3 x1 Manchester United – 63% x 37%

Pegando número por número, jogo por jogo e estatística por estatística, iremos perceber que chato ou não, é um método de defesa. Tanto que se fala em posse de bola do time, compactação, disciplina tática, mas alguém lembra o último jogo em que o Barça sofreu um revés no domínio da pelota? Algo raro. Tão raro que ocorreu no longínquo ano de 2008. E não foi qualquer partida.

PASILLO

Não bastasse a traumática temporada, quando não venceu nada, o Barcelona passou por um vexame diante do seu maior rival. No dia 07/05/2008, os catalães entraram no Santiago Bernabeu sabendo que, antes da partida, precisariam fazer o Pasillo. Ou seja, teriam de ficar perfilados para aplaudir a entrada dos jogadores do Real Madrid, que acabara de ser campeão espanhol uma rodada antes.

Esta saudação ao campeão é cena comum pelos campos da Europa. Gostando ou não, é um sinal de respeito e aprovação para com o outro. Mas convenhamos que só acirrou, ainda mais, a rivalidade.



GOLEADA MERENGUE

O que se viu em campo foi o Real Madrid empolgado, livre e muito solto. Mesmo com a forte pressão exercida pelo adversário, o time de Bernd Schuster atacou com ímpeto, força e descontração.

O Barcelona continuava com o seu toque de bola e tentava animar a si mesmo. Pareciam ter sofrido um duro golpe, um soco no estômago, após perderem a liga local e se prestar ao serviço de fazer o pasillo.

Desanimados? Podemos dizer que sim. Porém, em nada tira a agressividade imposta pelo Madrid. Até Robben, vulgo canela de vidro, atuou de forma sublime. Foi monitorando o meio campo e saindo rapidamente para o ataque que os merengues aplicaram 4×1 sem dó nem piedade. Até Xavi, tranquilo que é, foi expulso nos minutos finais do jogo.

Ao final da partida a estatística mostrava o seguinte para a posse de bola: Real Madrid (50,53%) e Barcelona (49,47%). Foi a última vez que o Barcelona não venceu nesse quesito. Coincidência ou não, Rijkaard saiu, Guardiola assumiu, e o clube não maiss foi derrotado neste aspecto.

Real Madrid: Casillas; S. Ramos, Pepe, Heinze e Marcelo; Diarra, Gago, Robben e Guti; Sneijder e Raul. Técnico: Bernd Schuster.

Barcelona: Valdés; Zambrotta, Puyol, R. Márquez e Abidal; Yaya Touré, Xavi e Gudjohnsen; Messi, Henry e Bojan. Técnico: Frank Rijkaard.



De lá para cá, já são 295 jogos oficiais com o controle da gorducha. Se eles possuem o seu jeito de dominar os adversários para alcançar as vitórias, os oponentes criaram a fórmula que lhes possibilitem ter a oportunidade de superar tamanha adversidade.

Ratifico a ideia de que posse de bola nem sempre é sinal de objetividade. Em contrapartida, um esquema bem formatado somado ao compromisso dos jogadores, pode levar o time a outro patamar.

Números do domínio: 182 jogos pelo Campeonato Espanhol, 39 jogos Copa do Rei, 60 jogos Liga dos Campeões, 8 jogos Supercopa da Espanha, 2 jogos Supercopa da Europa e 4 jogos Mundial de Clubes.

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