Análise tática: Schalke 04 2×3 Galatasaray

  • por João Vitor Poppi
  • 8 Anos atrás

 

Os times começaram os 90 minutos finais do duelo com algumas mudanças em relação ao jogo realizado em Istambul. O Schalke 04 não pode contar com Jones e Huntelaar, por motivos de suspensão e lesão, respectivamente. Uchida voltou ao time titular com Hoger sendo deslocado para atuar como volante e Pukki herdou a vaga do centroavante holandês. Já o técnico F.Terim optou por Eboué na vaga de Sabri, mas sua principal modificação foi no posicionamento do meio-campo. Quem apostou que o Galatasaray teria uma postura resguardada, pelo menos no início da partida, errou. 

Os leões trocaram a linha de quatro no meio, prejudicial ao futebol de Snejider (que atuava aberto pela esquerda), pelo 4-3-1-2 que com a posse de bola a favor variava para o 4-1-3-2. Essa transição de um losango para uma linha torta de três meias no campo ofensivo era realizada por Ínan e Altintop.

A mobilidade da dupla fez o Galatasaray ter presença constante no ataque e não sofrer com os contragolpes. A equipe conseguiu dominar o primeiro tempo, pois sempre tinha Altintop sobrando (livre) no campo ofensivo e cobertura eficiente na hora de realizar a recomposição defensiva, resultado do ”vai e vem” dos volantes/meias. 

Essa passagem dos dois volantes para meias de criação (e vice-versa) aparenta ser simples, mas não é. Necessita de laterais que saibam jogar adiantados – Eboué e Riera não deixaram a desejar -, marcação no campo de ataque e compactação. Tudo isso para que o espaço entre defender e apoiar diminua, evitando deixar ”buracos” na marcação. E, obviamente, precisa ter muito ”pulmão” para colocar essa tática na prática.

É de suma importância não errar o passe simples, para não ter a defesa desguarnecida, e encaixar o passe em profundidade. Ínan foi competente na hora de fazer o passe diferencial e apareceu como homem surpresa pela esquerda com desenvoltura – foi o cérebro do time. O camisa oito, em alguns momentos dos primeiros 45 minutos, trocava de posição com Sneijder. O meia holandês não brilhou, mas foi bastante participativo atuando em sua posição de origem.

Eboué e Riera jogaram adiantados, encurtando a marcação a M. Bastos e Farfán. Com pouca movimentação, os meias azul-real não se livraram dos defensores e, pior, pouco ajudaram a cobrir os lados do campo, onde Ínan e Altintop se criaram e fizeram toda diferença . Altintop, diferente do capitão Ínan (que foi um meia de armação quando esteve no ataque), foi mais agudo. Em certos momentos, atuou como um ponta, fato que ocorreu por encontrar um corredor no meio-campo adversário, lado esquerdo do Schalke 04, que dava livre acesso para o ex Real Madrid chegar próximo a área. Drogba atuou mais solto pela direita, com Yilmaz fazendo o papel de centroavante, mas com liberdade para se movimentar pela esquerda. O time turco conseguiu abrir espaços e dar fluência ao seu jogo, pois duplicava os lados de campo: Altintop/Drogba pela direita e Ínan/Yilmaz pela esquerda. Quando os laterais faziam a ultrapassagem para irem à linha de fundo, os atacantes afunilavam para dentro da área.

Os mineiros estavam todos cercados, pela aproximação dos leões no momento de marcar e pressionar. Draxler tem talento para pensar o jogo para seu time, mas a transição para bola chegar até ele não acontecia, muito pelo bom jogo apresentado pelo adversário, mas também pela pouca qualidade dos volantes com a bola no pé. Felipe Melo vigiou de perto o jovem alemão, que atuou como segundo atacante e muitas vezes ficou de costas pro gol. Foi facilmente marcado.

O Galatasaray propôs o jogo, foi feliz em sua estratégia de dar mobilidade aos volantes; o Schalke 04 não encaixou a marcação sobre o adversário e por isso não conseguiu criar nenhuma jogada mais elaborada.

Galatasaray fez excelente primeiro tempo usando a mobilidade dos seus volantes com intensidade que fez parecer ter um jogador a mais em campo

Galatasaray fez excelente primeiro tempo usando a mobilidade dos seus volantes com intensidade que fez parecer ter um jogador a mais em campo


Mesmo em desvantagem tática, quem abriu o placar foram os donos da casa. Aos 18 minutos do primeiro tempo, após escanteio cobrado por Farfán, a bola ficou viva na área, até que Neustadter, com Muslera no chão, estufou as redes. A justiça chegou ao placar ainda na etapa inicial, aos 38 e aos 42 minutos. Primeiro Altintop, com um chutaço de fora da área, em uma cobrança ensaiada de falta. A virada veio com Yilmaz. O artilheiro recebeu uma bola espirrada em velocidade, depois de um erro de passe de Neustadter, venceu Höwedes na corrida e com um toque de categoria levou a fanática torcida turca ao delírio.

O Schalke voltou a campo do intervalo com Fuchs no lugar de Neustadtder. O técnico Jens Keller sabia das grandes dificuldades que seu time teve na primeira etapa, tanto para marcar como para criar. Com a alteração, tentou dar força ofensiva pela lateral esquerda, fechando os espaços aproveitados pelo adversário, e mais velocidade na marcação e retomada pelo centro de campo. 

Com o placar a seu favor e sem o mesmo fôlego da primeira etapa – devido ao desgaste dos volantes/meias pela intensa movimentação – os visitantes se resguardaram. Da mesma forma que atacou com voracidade, defendeu. O Galatasaray congestionou os lados do campo, sempre com dois ou até três jogadores de cada lado. Drogba e Yilmaz começaram a segunda etapa como pontas, para frear as descidas dos laterais adversários, que pela primeira vez tinham espaço para apoiar – pelo recuo da equipe turca. Sneijder continuou centralizado, e por vezes era o jogador mais adiantado. A estratégia do técnico Terim, de fazer os atacantes marcarem pelos lados, deu certo em partes. Faltou contundência para segurar o ímpeto do mandante.

Foi nesse momento que o time alemão conseguiu produzir com qualidade. Farfán e M.Bastos entenderam o jogo: fugir da marcação dos laterais adversários e tocar rápido para Draxler. Dos lados para o centro, sem dar tempo para o Galatasaray se aproximar. Com excesso de jogadores do time turco pelos lados do campo, faltou combatividade pelo meio.

Felipe Melo ficou sobrecarregado como único cabeça de área. Draxler, agora, jogava mais recuado. Recebia a bola de frente para marcação e com espaço. Suas passadas longas, bom arranque e drible apareceram. Bem abastecida, a revelação azul-real começava brilhar. 

Aos 16 minutos do segundo tempo, Draxler, quase fez uma pintura de gol, após se livrar de três mascadores. Dois minutos depois, não teve Muslera que salvasse o Galatasaray do empate. Farfán recebeu pelo flanco direito e prontamente rolou para Höger, vindo de trás, carimbar o travessão. No rebote, a bola sobrou para Uchida fazer a assistência para o gol de Michel Bastos.

No segundo tempo o Schalke 04 fez seu adversário cair em sua própria armadilha. Usando o lado para iniciar as jogadas e o centro para conclui-las

No segundo tempo o Schalke 04 fez seu adversário cair em sua própria armadilha. Usando o lado para iniciar as jogadas e o centro para conclui-las

 

Muslera brilhava e cada vez mais seu time recuava a marcação. Com o jogo se aproximando do fim, o time turco possuía, praticamente, nove jogadores no campo de defesa – com uma linha de quatro jogadores na zaga e uma de cinco no meio. Drogba brigou sozinho como único jogador adiantado e tentou segurar a bola no campo ofensivo, uma grande virtude do marfinense nos momentos de pressão.

O time mandante não conseguia mais criar jogadas, tamanho era o congestionamento que o Galatasaray fez em seu campo defensivo. O futuro estava sendo decidido na base da raça. Melhor para os visitantes, que com muita entrega seguraram o abafa sofrido no segundo tempo e, nos acréscimos, selaram uma brilhante vitória. Muslera fez uma rápida reposição e deu bela enfiada de bola entre dois marcadores para Bulut, que entrou no decorrer da etapa complementar, carimbar em definitivo a classificação turca para as quartas de final da UCL.

Por ter tido um primeiro tempo de completo domínio, com seus volantes/meias infernizando os donos da casa, o Galatasaray mereceu a classificação. O Schalke 04 foi inteligente, pois teve discernimento para entender seus erros, e melhorou. Mas sua segunda etapa não foi tão intensa como os primeiros 45 minutos do adversário, pois sentiu dificuldade na reta final do jogo, quando o time turco estava em total retranca. Huntelaar fez falta ao Schalke. A presença de área do holandês poderia ter mudado a história do confronto, mas enquanto os azuis reais podem ruminar essa hipótese, os leões podem pensar na estratégia que irão adotar para enfrentar o Real Madrid pelas quartas-de-final.

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Acadêmico de Jornalismo. Analista Tático. Redator na DPF e na Vavel Brasil.