Arthur Friedenreich, “O primeiro craque”

  • por Lucas Amaral Nunes
  • 8 Anos atrás

Friedenreich5

 

Antes de Ronaldo encantar o mundo com suas arrancadas e jogadas fantásticas, um certo baixinho maravilhou-nos com seus gols e genialidade única. Antes mesmo de Zico embalar uma geração de craques com lançamentos magistrais e cobranças de falta precisas, um menino virou rei, expandindo seus majestosos domínios a gramados internacionais. Predecessor a este, um charlatão de pernas tortas andou fazendo gracejos que deixavam furiosos os adversários, mas também os deixavam no chão. Porém, aquele que ostenta o título de primeiro craque brasileiro atende por Arthur Friedenreich.

Fried não ficou rico com o futebol, como os grandes jogadores de hoje em dia. Ao contrário, faleceu à beira da pobreza, em uma casa simples que ganhara de um dos clubes pelo qual atuou. Mas o “inventor do drible”, como alguns o chamam, orgulha-se de ter sido o pai de tantos filhos geniais, oriundos das terras tupiniquins. Ele não só inspirou muitas gerações futuras, mas também foi o melhor do mundo à sua época: a do futebol amador no Brasil. De modo que Friedenreich não aparecia em comerciais de TV ou comparecia a eventos em traje de gala. Ele “apenas jogava bola”, como gostava de dizer. “E a afundava às redes”, alguns irão completar.

Na melhor representação de seu miscigenado povo, era a perfeita mescla entre dois povos e culturas bastante diferentes. A mãe, uma lavadeira negra de personalidade alegre, tinha raízes tão africanas como apenas uma neta de escravos poderia ter. O pai, um rico empresário alemão que desembarcara no Brasil a negócios, era um homem frio, de semblante impávido e cabelos loiros, características comuns a grande parte de seus conterrâneos.

Essa incomum combinação ofereceu ao mundo um indivíduo peculiar. Em um rosto mulato e de tracejados largos e finos ao mesmo tempo, cresciam crespos cabelos negros sobre um par de penetrantes olhos verde-claros. A elegante postura lembrava bem os melhores entre os jogadores alemães, mas sua habilidade, ginga e traquejo com a bola não deixavam dúvidas sobre sua origem: achava-se ali o primeiro gênio do futebol brasileiro, a forma e o molde para tantos futuros craques que ainda estariam por germinar.

Fried apresentou um repertório novo aos olhos dos espectadores. Dribles de corpo, fintas curtas, chutes de trivela, jogadas de efeito e improvisações que não deixavam dúvidas de que foram pensadas sem ensaio. “Se Friedenreich fosse um inventor, teria mestrado nas artes do futebol”, escrevera um cronista à época.

Ele atuou ao todo em 21 clubes, entre eles o Santos, o São Paulo, o Atlético Mineiro e o Flamengo. Foi artilheiro do Campeonato Paulista por nove vezes, época em que era o mais exímio representante da até então camisa branca da seleção (a versão amarela só foi adotada em 1952). Alcançou, ainda que sob questionamentos, a marca de 1329 gols na carreira e o título de maior goleador da história. Um currículo digno daquele que é conhecido como o precursor do estilo de jogo na nação conhecida como “o país do futebol”.

Arthur Friendereich não teve riquezas. Não andou em carros esportivos, não teve casas na praia e nunca foi cortejado por presidentes. Mas sua influência transformaria para sempre o futuro de um grande país verde, o mais ao norte na América do Sul. E trouxe, ao exibir-se nos gramados, um modo de jogo que seria copiado por anos, tantos quantos se passaram desde então. Um gênero futebolístico que envolvia alegria, movimento e bamboleio, mas não menos eficaz e genial. Gerado por um casal incomum, o primeiro craque nacional. Charles Miller trouxe para o país um esporte chamado futebol. Nasceu com Fried o futebol brasileiro.

Comentários

Lucas é jornalista desde 2011, mas o fanatismo pelo futebol o acompanha desde o berço. Aficionado por história, jogadores antigos e contemporâneos e causos e contos sobre o mais famoso esporte bretão. Participou de sites como o cruzeiro.org e o fanáticos por futebol. Atualmente atua como editor do futebol mineiro na Doentes por Futebol, onde também é o responsável pela coluna “Lendas do Futebol”.