Baba das Nigrinhas: O Futebol Carnavalizado

  • por Ordep Jose Trindade Serra
  • 7 Anos atrás

 

Era uma linda manhã de domingo (ou talvez de um sábado), no esplêndido verão de Salvador. Seriam dez horas, no máximo. Eu caminhava serenamente, de mãos dadas com minha mulher, pela ampla calçada que margeia a praia da Barra. A rua e a calçada são bem mais elevadas que a praia propriamente dita: é preciso descer por escadas para chegar às areias. É belo o cenário e a brisa marinha tornava perfeitamente aceitável, até mesmo gostoso, o calor do último (ou penúltimo?) dia do ano. A certa altura, nos chamou a atenção um denso agrupamento de pessoas que se debruçavam na balaustrada, de olhos fixos na praia, rindo e gritando com excitação. Nós nos juntamos logo a essa assistência entusiástica e ficamos por mais de duas horas ali, às gargalhadas, presos a um espetáculo inacreditável. 

Um goleiro vestido de noiva não perdia de vista a movimentação da pelota; às vezes, porém, no que ela se distanciava muito, sem perigo para sua meta, ele pegava um vistoso leque e se abanava com elegância. O vestido branco, um tanto encardido, chegava-lhe aos tornozelos. Quando ele saltou para a bola numa defesa mais arrojada, um atacante de mini-saia puxou-lhe o véu, que se soltou. O juiz marcou falta, mas teve trabalho para impedir o rififi, que por fim se limitou a xingamentos recíprocos de “descarada”, “vadia”, “cachorra”, “feiosa”. O zagueiro que cobrou a falta tinha uma barriga razoável e vestia uma camisola de mulher grávida, mas era ágil e jogou o tempo todo sem mostrar fadiga, embora às vezes passasse a mão pelo ventre, fazendo caretas de dor. No fim da partida, deitou-se na areia e disse, aos gritos, que estava tendo contrações. Foi acudido por um volante vestido de enfermeira. Seu companheiro de zaga usava baby-doll. 

Tanto no deles como no time adversário adversário havia todo tipo de modelito: a maioria no estilo “periguete”: mini-saia ou vestido curto, blusinha decotada ou apenas soutien, sempre bem recheado. Alguns usavam perucas coloridas. Um atacante de tomara-que-caia por vezes protegia os seios enquanto esperava o lançamento. O goleiro que guardava a meta oposta à da noiva calorenta usava uma saia rodada que lhe batia nas canelas e uma blusa exígua, que lhe deixava o umbigo de fora. Alguns dos jogadores de ambos os lados usavam maiôs femininos parecidos com aqueles mais antigos, dos concursos de Miss Universo. A maquiagem era forte nos dois times. Muito pó de arroz, em que o suor fazia sulcos dramáticos, muito blush, boquinhas desenhadas com batom em forma de coração. Havia uma bailarina nada delicada, com barbas, costeletas e mega hair, pernas muito peludas. Um pênalti provocou desmaios fingidos, brigas simuladas. Perto de nós, um turista americano não parava de fazer fotos, mas de vez em quando balançava a cabeça, com ar incrédulo. 

O acontecimento que evoquei transcorreu há mais de dez anos. Foi a primeira vez que tomei conhecimento do chamado “baba das nigrinhas”, já então tradicional em Salvador: realiza-se, geralmente, no último, ou num dos últimos dias do ano, mas pode acontecer em outras ocasiões. Pareceu-me corresponder ao que os antropólogos chamam de rito de passagem (da subcategoria dos “ritos de calendário”), em que o momento da liminariedade é marcado por procedimentos jocosos, por formas de inversão. Os praticantes desse “baba” o classificam simplesmente de “brincadeira”. São na maioria negros, dos bairros populares, gente pobre ou de classe média baixa. O futebol é seu esporte predileto, que praticam em campos de várzea ou nas praias. Na Bahia, chama-se de “baba” o que em outros lugares do Brasil se conhece pelo nome de “pelada”: uma espontânea partida de futebol, com suas regras (poucas), mas sem grandes regulamentos, sem protocolos. O nome “nigrinha” vem a ser uma corruptela de “negrinha”. O racismo tornou este diminuitivo insultuoso: o termo “nigrinha”, aplicado a uma mulher, equivale a “indecente”, “impudica”, “desavergonhada”, “sem educação”. “Nigrinhagem” equivale a safadeza, comportamento despudorado, sem qualquer respeito humano. Os negros, através do humor, conseguem remover o estigma racista dessa denominação, que adotam burlescamente. Hoje qualquer um pode ser “nigrinha” e o sentimento cômico prevalece. O xingamento “nigrinha” tornou-se quase insólito. Hoje “periguete” é mais usado para designar mulher impudica. E não é necessariamente um xingamento. 

Os praticantes do travestimento no “baba das nigrinhas” não são homossexuais. Na verdade, os homossexuais me parecem evitar essa brincadeira de machos. Na caracterização dos jogadores do tal baba, os caracteres masculinos e os adornos femininos são combinados, não há uma real feminização do corpo. O que faz a graça é mesmo o contraste visível. 

Pelo que pude observar, os praticantes do baba das nigrinhas não fazem feio como jogadores de futebol. São mesmo atletas, na maioria. Jogar durante horas na areia da praia não é para qualquer um. E com saias, então, fica ainda mais difícil. Mesmo assim, e com as dramatizações cômicas que às vezes eles fazem, esses jogadores também mostram habilidade em lances bonitos. Me lembro de um atleta que estava muito tolhido em campo por uma saia demasiado justa; depois que sua namorada fez um corte no tecido com uma tesoura providencial, ele passou a correr e driblar com maestria. Outro fez um gol de bicicleta e foi aplaudido tanto por sua calçola rendada quanto por sua destreza. Tem mais: eles não usam sapato alto. Acho mesmo que se deveria promover, pelo menos aqui na Bahia, um baba de nigrinha como preliminar dos jogos da Copa do Mundo. Aposto que o público internacional gostaria muito.

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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).