BRASIL 2 x 2 ITÁLIA: SCOLARI ESCALA O BRASIL COM DOIS ATACANTES E FICA NO EMPATE

  • por Victor Oliveira
  • 8 Anos atrás

Brasil x Itália

 

Nos treinamentos táticos realizados na terça feira, como demonstrado aqui no Painel, Felipão testou o 4-2-3-1 agudo e o 3-5-2 como opções de escalação. Já Prandelli treinou a Itália no 4-3-1-2, escalando seu time com os seguintes jogadores: Buffon; Maggio, Bonucci, Barzagli e De Sciglio; Marchisio, Pirlo, De Rossi e Montolivo; Osvaldo e Balotelli. Enquanto Scolari testava no treino, o treinador italiano massificava o padrão tático.

O 3-5-2, esquema mais utilizado nas Copas de 86 e 90, fez sucesso naquela época porque quase todas as equipes jogavam com dois atacantes, sendo o terceiro defensor o responsável pela sobra. Atualmente, com a predominância do 4-2-3-1, jogar com três zagueiros se tornou desnecessário defensivamente, afinal a maioria das equipes jogam com apenas um atacante enfiado entre a zaga. O fato de Prandelli atuar na maioria das vezes com dois atacantes pode ter sido o principal motivo do teste com o 3-5-2.

Ontem, Felipão desfez o mistério e escalou o time titular que vai enfrentar a Itália no 4-2-3-1 com os seguintes jogadores: Julio César; Daniel Alves, Dante (Thiago Silva), David Luiz e Filipe Luís; Fernando, Hernanes, Oscar, Hulk e Neymar; Fred. A única dúvida, de acordo com o treinador brasileiro, era a escalação de Thiago Silva, que retornou de lesão há pouco tempo.

Enfatizando muito a questão da proteção à zaga, a dúvida era como o Brasil iria se comportar em campo. O desenho base era o 4-2-3-1 (e não o 4-3-3 como noticiou a imprensa), mas a dinâmica podia ser mais próxima de um 4-3-1-2 ou até mesmo de um 4-1-4-1, talvez sendo essa a justificativa da opção por Oscar entre os titulares e Kaká na reserva. Chamou atenção o que Felipão declarou sobre o volante Fernando, jogador que permaneceu no time titular em todos os treinos táticos da semana:

“A chance não caiu no colo dele. Ele está fazendo por merecer. Quando ele jogou contra o Fluminense, foi muito bem. Na Copa do Brasil, eu era o treinador do Palmeiras, e sei bem como ele jogou contra nós. Independentemente das lesões de A, B ou C, ele seria o titular absoluto nessa partida. Quero dar essa chance e acho que ele tem condições de proteger bem minha zaga e deixar a equipe mais tranquila. Se jogar o que tem jogado no Grêmio, será de uma utilidade muito grande para nós”.

Cesare Prandelli andou utilizando o 3-5-2 após a Euro 2012, tentando assim solucionar os problemas referentes ao meio da seleção italiana. No dia 07/09/2012, na primeira rodada das Eliminatórias, em Sófia, a Itália empatou em 2 x 2 com a Bulgária atuando com três zagueiros. Já contra Malta, jogo vencido por 2 x 0 em Módena, dia 11/09/2012, válido pela segunda rodada do referido torneio, o técnico italiano retornou ao 4-3-1-2, mas também se valeu do 4-3-3 em alguns jogos.

Um dos grandes problemas de Prandelli, quando joga no 4-3-1-2, é a dúvida quanto ao “trequartista” ideal. Durante a Eurocopa, Thiago Motta e Montolivo não se mostraram à vontade na posição. Diamanti, quando teve chance, também não rendeu bem. Até o jovem Insigne foi testado, mas Montolivo parece ser o preferido para, por enquanto, realizar a função. Apesar de já ter um padrão tático que possibilita ao técnico variar entre o 3-5-2 e o 4-3-1-2 (e até mesmo o 4-3-3), o time italiano chegou ao jogo de hoje com mais dúvidas do que certezas.

Em coletiva dada na segunda-feira, no Centro de Treinamento de Coverciano, perto de Florença, Cesare Prandelli afirmou que usaria dois sistemas de jogo na partida de hoje, colocando, na etapa final, a equipe no 4-3-3. Explicou que Cerci (atleta do Torino e uma das novidades da lista de convocados) e El Shaarawy jogariam abertos pelas pontas, acompanhados de um centroavante. Por fim, declarou:

“Quero ver o time (no segundo tempo) com dois jogadores abertos na frente, mas em nenhum momento abandonaremos a ideia de ter um meio-campo com jogadores de grande capacidade técnica.”

O interessante é que Prandelli vem na direção contrária de Felipão. Treinador da Azzurra desde 2010, após o fracasso na Copa africana, o comandante italiano sofreu críticas no início de seu trabalho por montar seu meio de campo com volantes de passe qualificado e boa leitura de jogo, mas com menor poder de marcação, o que causou reclamação no sentido de que faltava a “pegada” comum aos times italianos na meia cancha.

Prandelli sempre gostou de times organizados e aplicados taticamente, privilegiando um bom toque de bola. Os tempos de cautela, em que a Itália entrava em campo apenas para marcar forte e tentar a sorte no contragolpe, ficaram para trás. Sob o comando de Cesare, o time passou a valorizar meio-campistas habilidosos e que buscam o ataque. Suas convocações comprovam isso, assim como suas várias alternativas táticas para aumentar o volume de jogo ofensivo da equipe.

A decisão de abrir mão dos volantes que só sabem marcar foi vista com desconfiança no começo porque contrariava uma tradição italiana de marcação cerrada pelo meio. Entretanto, hoje é aplaudida pelos torcedores e jornalistas, que têm prazer em ver um time mais técnico em campo. Para Prandelli, o próximo passo na montagem do time é fazer a equipe aprender a recuperar a bola o mais perto possível da área adversária, sem que isso a torne vulnerável a contragolpes. Sobre o assunto resumiu:

“A grande diferença que existe entre o Barcelona e a seleção espanhola em relação ao nosso futebol é a capacidade que essas equipes têm de marcar no campo de ataque. Precisamos ter coragem para jogar com a defesa adiantada sem dar chance de contra-ataque ao adversário.”

Já Scolari vem caminhando em sentido contrário aos costumes do futebol brasileiro. Após Mano ter deixado o cargo com dois volantes técnicos à frente da zaga, o que era solicitado há tempos por imprensa e torcida, Felipão colocou como primordial o uso de volantes que marquem mais, chegando a testar Fernando e Luiz Gustavo juntos no primeiro treino tático da semana. A justificativa é a busca por segurança defensiva, o que realmente é uma necessidade no time brasileiro.

E o esperado duelo começou em ritmo intenso. A Itália marcava de forma vigorosa e adiantava suas linhas para encontrar espaço entre os defensores brasileiros. Como treinado por Prandelli, o time italiano veio postado no 4-3-1-2 e por pouco não marcou o primeiro, sendo a Seleção salva três vezes por Júlio César. Já Felipão inovou e trouxe o Brasil escalado num típico 4-4-2 britânico, repetindo a receita testada e aprovada por Mano Menezes:

4-4-2 x 4-3-1-2

Brasil no 4-4-2 com Fred e Neymar de atacantes e Itália no esperado 4-3-1-2: Felipão surpreendeu e escalou Neymar de segundo atacante pela direita, colocando o craque brasileiro para jogar em cima de Pirlo, o que tirou do italiano a possibilidade de pensar o jogo. O Brasil iniciou com Hulk pela direita e Oscar pela esquerda, mas como De Rossi marcava melhor que Montolivo, Felipão, aos 18 minutos, inverteu as posições e colocou Oscar pela direita, onde o jogador encontrou mais espaço. A equipe italiana veio com três volantes e Pirlo tentando, como sempre, sair de trás para criar as jogadas. A escolha de Giaccherini para a posição de trequartista foi uma tentativa de montar um contragolpe mais veloz contra o time brasileiro.

Todos esperavam pelo posicionamento de Neymar e o “Bigode” surpreendeu: alocou o craque pela direita como segundo atacante. E a joia santista também surpreendeu, voltando para marcar e por vezes montando uma linha de meio na composição de espaços, o que desenhava no campo um típico 4-1-4-1. Entretanto, tal postura era uma variável e nem sempre Neymar fazia a recomposição dessa forma. O que ele fez, de forma mais constante e eficaz, foi a marcação em cima de Pirlo, além de preocupar o italiano, visto que foi jogar em suas costas.

Dinâmica tática para o 4-1-4-1

Dinâmica tática para o 4-1-4-1

Como citado acima, por vezes Hernanes avançava e Neymar recuava na composição de espaços, ficando Fernando como referência defensiva do meio e Fred como referência ofensiva no campo de defesa italiano. A dinâmica tática se mostrou interessante e Neymar surpreendeu pela maior dedicação ao jogo coletivo.

Após quase levar o gol em três oportunidades no primeiro tempo, a Seleção Brasileira colocou a bola no chão e tomou as rédeas da partida a partir dos 20 minutos. Na defesa, Fernando cuidava de Balotelli, Hernanes cuidava de Giaccherini e Dante marcava Osvaldo, ficando David Luiz na sobra, afinal pouco apoiavam os laterais italianos. Na frente, Oscar buscava centralizar para jogar mais próximo de Fred e Neymar. Já Hulk procurava dar profundidade pelo flanco esquerdo, o que dificultava a marcação italiana.

Aos 32 minutos, o Brasil fez 1 a 0 com Fred. Filipe Luís cruzou da esquerda, Barzagli desviou de cabeça e a bola sobrou para Fred, sozinho no segundo pau. O atacante pegou de primeira e de chapa, estufando a rede italiana e abrindo o placar. Fernando e Hernanes jogavam muito bem, marcando forte e saindo para o jogo, sem contar as centralizações de Neymar e Oscar, que desmontavam a defesa de Prandelli. Com o jogo italiano muito centralizado, sobravam espaços para o Brasil pelas beiradas, o que não foi bem aproveitado pela equipe de Felipão.

Transição ofensiva

Transição ofensiva

Transição ofensiva do Brasil no primeiro tempo: com Filipe Luís mais preso, Daniel aproveitava o winger direito bem aberto para habitar mais o meio de campo. Hernanes assumia a criação das jogadas e Neymar se aproximava de Fred como um típico segundo atacante. Percebam que, de forma inteligente, Neymar foi posicionado às costas de Pirlo.

Transição Italiana

Transição Italiana

Transição ofensiva da Itália: enquanto o Brasil marcava em duas linhas, com Neymar e Fred mais soltos para aplicação do contragolpe, a Itália avançava o losango desenhado pelo meio e invertia suas posições para Pirlo poder assumir a criação e pensar o jogo mais perto da área.

Depois de abrir o placar, o time brasileiro continuou superior e envolvente, algo que não acontecia há um bom tempo. Porém, a Itália teve duas boas chances em chutes de Balotelli e Pirlo. Aos 40, Hernanes, após linda tabelinha com Neymar e Fred, recebeu na frente de Buffon e foi nitidamente derrubado por De Sciglio na área. O árbitro ignorou e mandou o jogo seguir. A prometida marcação na saída de bola do adversário, tão citada por Felipão, até existiu, mas ainda de forma tímida.

Aos 41 minutos, pouco após o pênalti não marcado, Oscar fez o segundo gol brasileiro: 2 x 0. Neymar arrancou com a bola, da direita para o centro, arrastando com ele toda a marcação do time italiano. Depois deu um passe açucarado para Oscar, que dominou e tocou com extrema categoria na saída de Buffon. O gol canarinho foi importante tanto no aspecto individual quanto no coletivo, sendo arquitetado numa inteligente diagonal de Neymar. A centralização de Oscar, nas costas de Montolivo, também foi preponderante para que ele chegasse livre na área do adversário.

Acontece que Prandelli fez o prometido e mudou a história da partida. O treinador italiano, como citado no início, usa o 4-3-1-2 como esquema base, mas seu trabalho de quase três anos o permite passear com qualidade pelo 3-5-2 e pelo 4-3-3, fruto de uma dádiva no futebol: o padrão de jogo. Tirou a Itália do 4-3-1-2 com duas substituições e colocou seu time para frente num ousado 4-3-3, que empurrou o Brasil para trás e conquistou o empate:

Prandelli modifica, inteligentemente, o esquema

Prandelli modifica, inteligentemente, o esquema

Prandelli mudou a cara do jogo com duas substituições no intervalo e encurralou o time brasileiro. As saídas de Pirlo e Osvaldo, e as entradas de Cerci e El Shaarawy, prometidas desde segunda, prenderam os laterais do Brasil e empurraram seus volantes para trás, deixando os homens de frente isolados e impossibilitando a transição ofensiva da nova família Scolari, que substituiu mal ao tirar Oscar e Fred, colocando Kaká e Diego Costa. No momento, era necessário mexer, também, no desenho tático.

O 4-3-3 Italiano sendo mostrado de forma clara

O 4-3-3 Italiano sendo mostrado de forma clara

Imagem do amigo Rai Monteiro, do grande blog “Taticamente Falando”: demonstração do 4-3-3 italiano da segunda etapa.

A marcação pressão foi tão forte, e o alargamento da defesa brasileira tão eficaz, que em 11 minutos a Itália empatou. Aos 8, após cobrança de escanteio, ninguém cortou e De Rossi desviou de pé direito, mandando no cantinho, sem chances para Júlio César. E, aos 11, Balotelli avançou e chutou com categoria de fora da área, encobrindo o adiantado Júlio César. Foi o gol de empate da Azzurra, arrasadora na segunda etapa. Mérito de Prandelli ou inoperância de Felipão? Diante do empate, Felipão mexeu errado ao colocar Kaká no lugar de Oscar, o que não alterou o posicionamento da equipe.

Após o empate, a Itália continuava mais incisiva e o Brasil passava sufoco. A única chance brasileira foi com Hulk, aos 14 minutos, que recebeu de Neymar na cara do gol e pisou na bola. Com a superioridade da Itália no meio e Kaká marcando pouco pela esquerda, Scolari ainda lançou um 4-3-1-2 no final com Fernando, Luiz Gustavo e Jean de volantes. Kaká era o enganche, sendo Neymar e Diego Costa os atacantes. Não se pode dizer que Prandelli deu um nó tático em Scolari, porque tanto as alterações quanto a instauração do 4-3-3 já estavam previstas. Entretanto, é inegável que faltou ao brasileiro mais malícia para remontar a equipe em campo no momento de adversidade.

Apesar do empate, que para o Brasil teve sabor de decepção, o resultado não foi ruim, afinal a Itália tem um trabalho de três anos e vem jogando bem, sobretudo nas Eliminatórias. Ficou claro que no segundo tempo faltou ao time brasileiro o entrosamento necessário para se redesenhar taticamente após uma reviravolta estratégica e tática do oponente. As entradas de Thiago Silva, Marcelo e Kaká nas vagas de Dante, Filipe Luís e Hulk contra a Rússia podem trazer mais peso para esse 4-4-2 britânico de Felipão que se desenha. E que se mostrou interessante. Abraço!

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