Croácia x Sérvia, muito mais que um jogo de futebol

  • por Igor Leal da Fonseca
  • 8 Anos atrás

Nessa sexta, acontecerá um jogo que nunca ocorreu na história do esporte. Pela primeira vez, amantes do futebol verão uma partida entre Croácia x Sérvia, valendo pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2014. A partida ocorrerá em Zagreb, palco de sangrentas batalhas entre sérvios e croatas, durante os anos 90 do Século XX. Contaremos um pouco dessa história de guerra, sangue e ódio.

Nossa história começa em 1918, após o colapso do Império Otomano e da dinastia dos Habsburgo na Áustria-Hungria, quando ambos regimes aliaram-se aos alemães na I Guerra Mundial e viram sua causa fracassar contra Rússia, França, Inglaterra e EUA.

Os primeiros anos pós I Guerra Mundial.

Em verde, o país no período entre guerras.

Em verde, o país no período entre guerras.


Pouco após o fim da I Guerra Mundial, o sérvio Pedro I fundou o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, abrangendo territórios tanto do Império Otomano (Sérvia e Montenegro) quanto do Império Austro-Húngaro (Croácia, Eslovênia e Bósnia). Apesar de o nome oficial ser o supracitado, o reino era vulgarmente conhecido como ”Jugo-Slavia” no restante da Europa. ”Jugo” significava ”Sul” e ”Slavia” significava ”Eslavos”, ou seja, ”Eslavos do Sul”.

Pedro I, o homem que criou a Iugoslávia.

Pedro I, o homem que criou a Iugoslávia.



Em 1921, ainda com o nome de Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, houve mudança de governante, saindo o Rei Pedro I (morto em Agosto de 1921) e entrando o seu filho Alexandre, que, de fato, já era governante desde a fundação do país. Por 7 anos, ele tentou unir o país política, econômica e culturalmente, algo praticamente impossível, devido às várias nacionalidades dentro do território. Já em 1928, os crescentes problemas entre nacionalismo sérvio e o de outras regiões resultaram na morte de Stjepan Radić, importante líder político croata. O assassino acusado foi um deputado montenegrino, mas as tensões entre sérvios e croatas aumentaram ainda mais após o evento.

Alexandre I, o rei que governou a Iugoslávia por 13 anos.

Alexandre I, o rei que governou a Iugoslávia por 13 anos.


Em 1929, Alexandre I mudou o nome do país para Reino da Iugoslávia, proibiu os partidos políticos nacionais e assumiu o controle do executivo. A intenção era impedir o crescente nacionalismo e encerrar as questões separatistas, mas não obteve apoio do restante da Europa em seus pleitos. As mudanças de regime na Itália, Alemanha e União Soviética dificultaram ainda mais seu trabalho. Com tantas dificuldades, ele caminhou ainda mais para um regime de exceção, que só fez afastar as outras nacionalidades da ideia de uma Iugoslávia unida e forte contra a crescente ameaça de vizinhos. Alexandre I acabou assassinado em Paris, em 1934. O autor do crime foi um militante de uma organização política da Macedônia, em cooperação com o Ustaše, organização croata com ideias fascistas e de limpeza étnica tendo como alvo os sérvios e bósnios. Para o seu lugar, havia seu filho Pedro II, de 11 anos. Como estava impossibilitado de assumir por causa da idade, assumiu o príncipe Paulo, comandante da regência que controlaria o país até Pedro II completar os anos para governar.

A questão sucessória e a II Guerra Mundial.



Durante os 7 anos seguintes, as tensões cresceram na região, ainda mais depois que o líder croata Vladko Macek conseguiu a criação de uma região autônoma dentro da Iugoslávia, com comando dos croatas. Não haveria separação, mas todo o país seria federalizado, o que acabou não acontecendo. O príncipe Paulo assinou o pacto Tripartite para se juntar ao Eixo, mas acabou deposto por oficiais do Exército, que eram contra a colaboração com alemães e italianos. Em decorrência disso, a Iugoslávia foi invadida em 6 de Abril de 1941, sendo dividida. Os croatas ganharam um estado fantoche sob controle dos nazistas e estima-se que entre 1941 e 1945, o regime croata Ustaše assassinou 500 mil pessoas, expulsou outras 250 mil e obrigou 200 mil a se converter ao catolicismo. A maioria das vítimas era de origem sérvia, causando ainda mais ódio entre as duas populações.

Príncipe Paulo foi regente por 7 anos e tentou entrar na guerra ao lado do Eixo.

Príncipe Paulo foi regente por 7 anos e tentou entrar na guerra ao lado do Eixo.



Durante a invasão, duas forças combateram alemães e italianos: os comunistas, liderados pelos Partisans e com algum apoio soviético após a invasão de Hitler à União Soviética e os Chetniks, com tendências monarquistas e apoiados pelo restante dos aliados desde o começo da II Guerra, mas tornados aliados oficiais em 1943. Em 1944, os Partisans expulsaram o eixo da Sérvia e, em 1945, de toda a Iugoslávia. Apoiado pela maioria da população e visto como heroi, Tito assumiu o controle da Iugoslávia após referendo e fundou um novo país, comunista e independente.

Os anos de governo de Tito.

Tito, o homem que manteve a Iugoslávia unida.

Tito, o homem que manteve a Iugoslávia unida.


Durante o regime comunista de Tito (1945-1980), a Iugoslávia conseguiu se recuperar da invasão de tropas do eixo e caminhou para uma outra forma de comunismo, diferente do implantando na U.R.S.S. Basicamente, Tito deu o controle das empresas a quem trabalhava nelas, não ao Estado, como ocorreu na U.R.S.S. e nos outros países comunistas do leste. Ele também não assinou o Pacto de Varsóvia, demonstrando ainda mais a independência da Iugoslávia em relação à União Soviética. O que o ajudou foi sua figura heroica e salvadora da Iugoslávia sem praticamente nenhum recurso soviético durante a invasão. Tito e Stalin romperam relações políticas ainda em 1948, colaborando ainda mais para a independência política do marechal e de seu país.

A Iugoslávia de Tito era formada por seis repúblicas federalistas, todas com relativa autonomia: República Socialista da Bósnia-Herzegovina, da Croácia, da Macedônia, de Montenegro, da Sérvia e da Eslovênia. A Sérvia ainda tinha as Províncias Socialistas Autonômas de Kosovo e da Voivodina.

Enquanto esteve vivo, o regime caminhou com tranquilidade, graças ao carisma do marechal, sua empatia e seu grande senso de justiça no julgamento das questões cotidianas do país, além de sempre ter trabalhado para evitar que qualquer república ficasse muito forte política e administrativamente a ponto de sobrepujar outra. Com sua morte em 1980, os sucessores não souberam lidar com o crescente nacionalismo nas repúblicas, especialmente na Sérvia, que era a república mais ”mantida na coleira” por Tito.

A morte de Tito e o começo da crise que arruinou a Iugoslávia.

Quando Slobodan Milosevic assumiu o poder no partido comunista sérvio, logo notou-se que, dessa vez, os sérvios causariam problemas. Milosevic fez um feroz discurso nacionalista no dia do 600º aniversário da derrota na batalha que deu ao Império Otomano o controle sobre a Sérvia, exigindo o fim da autonomia na Voivodina e no Kosovo. Na primeira província, nenhum problema, tendo em vista que era formada por ampla maioria de sérvios. Mas, na segunda, formada em grande parte por albaneses que temiam o controle sérvio, a coisa foi bem diferente. A província do Kosovo reagiu – apoiada por Croácia e Eslovênia – e fez amplas manifestações e greves contra as demandas sérvias, que contra-atacaram usando força policial e até o Exército.

No começo de 1990, foi convocado um Congresso Extraordinário, visando a buscar um novo acerto para a retomada da convivência entre as diferentes etnias que compunham o país. Mas um intransigente Milosevic e sua política de ”uma pessoa, um voto” – o que lhe daria a vitória em qualquer questão, dada a maioria sérvia no país – arruinaram a reunião, que terminou com a saída da Croácia e da Eslovênia e o fim do Partido Comunista da Iugoslávia. No esteio da queda do comunismo na Europa Oriental, todas as repúblicas realizaram eleições livres e pluripartidárias. Na Croácia e na Eslovênia, os partidos comunistas saíram de cena pacificamente, enquanto, na Sérvia, o domínio dos comunistas ainda era amplo.

Com a eleição de líderes cada vez mais voltados para a independência, o pluralismo e o horror a qualquer forma de dominação sérvia, as incompatibilidades foram aumentando até ficarem praticamente insustentáveis. Somente Sérvia e Montenegro continuavam defendendo a existência da Iugoslávia de forma ferrenha. A Croácia ficou cada vez mais intransigente sob o domínio de Franjo Tudjman, que buscou apoio financeiro de croatas no exterior, visando a angariar recursos para a independência do país. Em virtude do crescente radicalismo, sérvios que residiam em território croata se afastaram cada vez mais do governo, em especial por acharem que algumas medidas eram muito próximas da ideologia do antigo Ustaše, odiado pelos sérvios. Em decorrência da crescente pressão croata, sérvios proclamaram a República de Krajina, que ocupava grande parte do território da Croácia. Os dissidentes sérvios contaram com grande apoio de Belgrado na luta que se seguiu.

As guerras de Independência da Bósnia e da Croácia.

Milosevic, o homem que causou a morte de milhões de pessoas.

Milosevic, o homem que causou a morte de milhões de pessoas.



No fim de 1990, croatas e eslovenos apoiaram, via referendo, a total independência de seu país da Iugosolávia. Os governantes das repúblicas comunicaram a decisão à cidade de Belgrado, que tinha até o dia 1º de Julho de 1991 para aceitar a independência. Caso contrário, ela seria declarada de forma unilateral. Os sérvios ignoraram solenemente a decisão e, no dia 25 de junho, Eslovênia e Croácia declararam sua independência, seguidos pela Macedônia. Na Bósnia, sérvios-bósnios (sérvios que residiam na Bósnia, mais de 30% da população local) fizeram referendo no qual venceu por ampla maioria a opção de se juntar à Sérvia e formarem a República Sérvia da Bósnia e Herzegovina”. O governo do país declarou o referendo e todas as ações decorrentes dele ilegais e, em abril de 1992, a Bósnia-Herzegovina declarou sua independência da Iugoslávia. Os países foram reconhecidos pela CEE, pelos EUA e FMI, entrando na ONU em maio de 1992.

Sem conseguir manter a Iugoslávia unida, Milosevic e a Sérvia partiram para outro caminho: trazer todas as populações sérvias que estavam na Croácia, Eslovênia e Bósnia (especialmente nesse último) para dentro da Sérvia e conseguir territórios que pudessem acomodar essas populações. A estratégia usada foi de limpeza étnica, com variados graus de eficácia. Na Eslovênia, as forças separatistas venceram o conflito, que durou pouco mais de uma semana. Na Croácia, mais de 6 meses de guerra, destruição e muito combate corpo a corpo terminaram de vez apenas em 1995, com mais de 200 mil sérvios fugindo da Croácia.

Na Bósnia, a situação foi pior, com prolongada guerra civil provocada pelos sérvios que habitavam o país. O conflito se deu entre bósnios muçulmanos e bósnios croatas contra bósnios sérvios. A guerra ganhou dimensão ainda maior com a intromissão da Croácia no conflito, primeiro reivindicando território bósnio, depois lutando contra os sérvios. Em 1993, os bósnios sérvios controlavam mais de 70% da Bósnia e recebiam amplo apoio militar e econômico de Belgrado. O conflito só terminou em 1995, após pressões da OTAN e de novas ofensivas croatas.

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A desintegração da Iugoslávia.


O futebol.


Em 1987, uma talentosa seleção da Iugoslávia venceu o Mundial Sub-20. O time tinha jogadores como Jarni, Suker, Boban, Mijatovic e Prosinecki, eleito melhor jogador da competição. No caminho para o título, a Iugoslávia passou por Chile, Austrália, Togo, Brasil, Alemanha Oriental e Alemanha Ocidental. 

Parte desse time juntou-se a outros renomados jogadores do país – como Savicevic e Stojkovic – para formar o grupo que disputaria a Copa do Mundo de 1990. Boban não disputou a competição em virtude da batalha campal que ocorreu durante um jogo entre Dínamo Zagreb (seu time) e o Estrela Vermelha, no dia 13 de Maio de 1990. Ele deu um chute em um policial que agredia um dos torcedores da sua equipe e virou heroi nacional da causa da independência croata.

Boban chuta policial.

O chute de Boban em um policial virou símbolo da causa croata.

Em outubro de 1990, voltou a vestir a camisa da Iugoslávia, mas, semanas antes, já havia vestido o novo uniforme quadriculado da Croácia, em amistoso contra os EUA. Em 1991, Boban, Jarni, Suker e Prosinecki disputaram sua última partida com a camisa da Iugoslávia, uma vitória por 7×0 sobre as Ilhas Faroe, valendo pelas eliminatórias para a Euro 1992. Boban, Suker e Prosinecki fizeram um gol cada um na partida.

Ainda em 1991, dias antes da final da Liga dos Campeões envolvendo o Estrela Vermelha, foi disputada a última edição da Copa da Iugoslávia, novamente entre Dínamo Zagreb e Estrela Vermelha. A final foi disputada em Belgrado e vencer aquela partida seria importantíssimo para a questão croata, porque o Estrela Vermelha era identificado como maior expoente do esporte iugoslavo naqueles tempos, era identificado com o exército sérvio e com o comunismo, três coisas que os croatas odiavam. O Dínamo venceu o jogo por 1×0, gol de Boksic , que virou herói nacional pelo feito. Ao fim da partida, por conta das crescentes tensões entre sérvios e croatas, o capitão Stimac declarou: ”o troféu dessa conquista ficará para sempre conosco, pois acredito que jamais voltaremos a ver uma edição da Copa da Iugoslávia”.

Mesmo sem a presença de jogadores croatas na equipe, a Iugoslávia conquistou sua vaga para a disputa da Euro 1992, porém foi impedida de participar por causa do conflito que assolava o país, entrando em seu lugar a Dinamarca (que seria campeã). Também por conta da guerra, as equipes não disputaram as eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994. A Croácia voltou ao futebol em setembro de 1994, quando fez sua estreia nas Eliminatórias para a Euro 1996, terminando à frente da Itália e chegando às quartas de final na Euro 1996.

A Iugoslávia só voltou ao futebol para a disputa das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1998, quando atropelou a Hungria na repescagem europeia e chegou à Copa do Mundo, caindo nas oitavas de final contra a Holanda. A Croácia também disputou o mundial, terminando em terceiro lugar na competição. Em 2000, Iugoslávia e Croácia caíram no mesmo grupo das Eliminatórias para a Euro 2000, com a Iugoslávia empatando os 2 jogos contra a Croácia (0x0 em Belgrado, 2×2 em Zagreb), e terminando em primeiro no grupo, deixando os croatas em terceiro, ficando fora da disputa da Euro.

Croácia 2×2 Iugoslávia – Eliminatórias Euro 2000

A Iugoslávia ainda disputaria duas eliminatórias: para a Copa do Mundo de 2002, quando mais uma vez teve uma ex-república no seu grupo (a Eslovênia) e para a Euro 2004. Nas duas ocasiões, o time não conseguiu a classificação. Em 2006, já como Sérvia, o time disputou a Copa do Mundo da Alemanha e caiu na fase de grupos, com 3 derrotas em 3 jogos e ficando em último lugar. Esteve fora da Euro 2008 e voltou na Copa do Mundo de 2010, quando era apontada como uma das prováveis surpresas e sucumbiu na primeira fase, com 2 derrotas em 3 jogos.


Pelo lado croata, não há muita diferença. O time caiu na fase de grupos nas Copas de 2002 e 2006 e não disputou a Copa de 2010. Porém disputou as 3 últimas Eurocopas, caindo na fase de grupos em 2004, chegando às quartas em 2008 e novamente caindo na fase de grupos em 2012, porém com uma campanha digna, empatando com a finalista Itália e perdendo para a campeã Espanha com um gol marcado apenas aos 88′ de jogo.

No momento, a Croácia tem 10 pontos e está na vice-liderança do seu grupo nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2014, enquanto a Sérvia tem apenas 4 pontos no mesmo grupo. Alguém duvida que teremos problemas no confronto e que a vitória de qualquer um dos lados servirá para afirmar a superioridade do vencedor ante o perdedor?

A conferir!

Até a próxima!

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33 anos, morador do Rio de Janeiro. Rubro Negro de coração, apaixonado pelo Maracanã, tem no Barcelona o exemplo de clube para o que entende como futebol perfeito, dentro e fora do campo. Estudioso da memória do futebol, tem nessa sua área de maior atuação no site, para preservar a memória do esporte. Dedica especial atenção aos times mais alternativos, equipes que tiveram grandes feitos, mas que não são tão lembradas quanto as maiores do mundo. Curte também futebol do centro e do leste da Europa, com uma coluna semanal dedicada ao assunto. Um Doente muito antes de fazer parte desse manicômio, sua primeira memória acadêmica é uma redação sobre o Zico, na qual tirou 10 e a mesma foi para o mural da escola. Nunca trabalhou com futebol dessa forma, mas adora o que faz junto com o restante do pessoal e se pergunta o porquê de não ter começado com isso antes. Espera recuperar o ''tempo perdido''. Acha Lionel Messi o melhor que viu jogar e tem em Zico, Petkovic e Ronaldo Angelim como heróis.