Futebol e Opressão na Argentina

  • por Anderson Silva
  • 8 Anos atrás

ARGENTINA-OPRESSAO

 

Apaixonantes, dramáticos e envolventes. O tango e o futebol argentinos se mesclam de maneira graciosa. Seja no passado distante com a genialidade de Di Stéfano, no mais recente com Maradona ou no presente com a Era Messi. A música de Gardel baila em sintonia perfeita com a beleza do futebol arte dos grandes craques. Porém, em junho de 1978, o ritmo era diferente, e o tango um pouco mais triste do que o normal. Enquanto vivia a mais cruel e sangrenta ditadura militar da América do Sul, o país sediava a Copa do Mundo.

Poster Oficial da Copa do Mundo de 1978

Poster Oficial da Copa do Mundo de 1978

Mesmo com várias denúncias e inúmeros protestos contra a realização do evento, a FIFA não abriu mão do Mundial. Enquanto isso, na Argentina, tudo era muito bem orquestrado pelo governo para ocultar as atrocidades cometidas, alavancar popularidade ao regime e alienar o povo, fragilizado pelo momento político, mas apaixonado pelo futebol. Na época, muitos rumores abarrotaram os bastidores do evento esportivo mais importante do futebol. Algumas federações e confederações até ameaçaram cancelar sua participação, porém todas as seleções classificadas estiveram presentes na competição. 
Entre os jogadores que não foram disputar aquela Copa, em protesto contra a ditadura, tem destaque o craque holandês Johan Cruyff.

Logo Oficial da Copa e suas "outras" versões

Logo Oficial da Copa e suas “outras” versões

Johan Cruyff - O craque holandês que não foi para a Copa

Johan Cruyff – O craque holandês que não foi para a Copa

O regime militar – com seu tango sombrio e opressor – vislumbrava a grandiosidade desse evento e almejava, quem sabe, a glória de um título mundial em casa. E com algumas ações extra campo, a Copa de 1978 começava acompanhada de polêmicas e curiosidades.

Logo no jogo de abertura, entre Alemanha e Polônia, no estádio Monumental de Nuñez, o general Jorge Rafael Videla, ao lado do então presidente da FIFA, João Havelange, fez o seu discurso sem o tradicional traje militar, com a clara intenção de mostrar ao mundo um país de aspecto tranquilo e acolhedor.

Ainda na primeira fase, a seleção francesa – que já tinha sido ameaçada de punição, caso não participasse da Copa – protestou contra o regime militar e contra a duvidosa atuação da arbitragem na competição, entrando em campo com o uniforme todo branco, semelhante ao de seu adversário, a seleção da Hungria. A partida só começou após os jogadores franceses – forçados – trocarem seus uniformes por outro, emprestados gentilmente por um time local amador, o Club Atlético Kimberley, cujos jogadores estavam no estádio acompanhando a partida.

Seleção Francesa jogando com uniforme de time local amador  Club Atlético Kimberley

Seleção Francesa jogando com uniforme de time local amador Club Atlético Kimberley

Outro fato bem esquisito ocorreu na fase de quartas de final, na qual a seleção anfitriã disputava todos os seus jogos no estádio “El Gigante de Arroyito”, na cidade de Rosário, enquanto seus adversários tinham que se deslocar por distâncias significativas entre um jogo e outro, tendo pouco tempo para descansar e sofrendo com o desgaste físico das longas viagens.

Seleção Argentina 1978

Seleção Argentina 1978

Entre tantos acontecimentos peculiares naquele mundial, um jogo foi determinante para os planos do regime e tornou-se, talvez, o mais discutível e emblemático da história das copas.

As polêmicas em torno do confronto entre Argentina e Peru pela fase semifinal começaram depois que o jogo foi adiado, tendo seu início posterior ao da partida entre Brasil e Polônia. Os argentinos precisavam não apenas da vitória, mas também de uma goleada para garantir a classificação no saldo de gols. Devido à mudança do horário da partida, a equipe entrou em campo já sabendo do resultado que precisava para ir à decisão.

Pouco antes do jogo, o vestiário peruano recebeu uma visita inesperada e surreal para os parâmetros do futebol: o próprio general Jorge Rafael Videla, acompanhado do ex-secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, adentraram o vestiário, deixando os atletas adversários perplexos com a situação. Direto e objetivo, o general discorreu brevemente sobre a “solidariedade” entre argentinos e peruanos.



Depois da visita motivacional do anfitrião, os jogadores peruanos – alguns certamente apavorados – entraram em campo conhecendo o real intuito na partida. Dessa forma, os entusiasmados torcedores argentinos presenciaram um verdadeiro baile dos donos da casa sobre uma frágil e descomprometida seleção peruana. O suspeito 6 x 0 garantiu a passagem à final e a chance de concretizar o plano do regime de Videla. Até hoje existem inúmeras teorias e especulações a respeito da partida.



Finalmente, no dia 25 de junho de 1978, a seleção da Argentina enfrentava a poderosa Holanda na grande final. No palco principal daquele Mundial – Estádio Monumental de Nuñez – e motivada por mais de 70 mil apaixonados torcedores, a Argentina jogaria a partida mais importante da história da seleção e também do regime militar. 
Em campo, a forte e vistosa Holanda sucumbiu diante de uma Argentina vibrante, guerreira e determinada pelo placar de 3 x 1  Prorr. (1:1, 1:0). Para o delírio nacional, a seleção albiceleste sagrou-se campeã do mundo, concretizando os planos de Videla.

 

General Jorge R. Videla entregando a taça ao capitão Passarella

General Jorge R. Videla entregando a taça ao capitão Passarella

Há quase 35 anos a memorável Copa da Argentina de 1978 levanta mistérios e polêmicas que ainda causam muitas controvérsias. Jamais poderemos esquecer, que além da conquista do primeiro titulo mundial, mais de 30 mil vidas foram tiradas por aquele governo que se deleitou com a proeza da seleção de futebol.

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Redator publicitário (e vice-versa), comunicativo por essência, amante dos livros e torcedor do tricolor do Morumbi. Apaixonado por camisas antigas do futebol mundial.