Galo demonstra amadorismo sem departamento de marketing

Galo demonstra amadorismo sem departamento de marketing

Já é de conhecimento geral de qualquer entusiasta de futebol que o marketing hoje é um dos propulsores do futebol moderno. É através dele que os principais times do mundo conseguem criar receitas para se autogerirem, além de inflamar o ânimo de seus torcedores com campanhas criativas e que incentivam a compra de produtos licenciados. Produtos que, por sua vez, dão a oportunidade de qualquer cidadão ter um item exclusivo, estampando a marca de seu time de coração.

Viver sem o marketing no futebol, hoje em dia, é dar tiro no pé. É navegar no desconhecido e é ser retrógrado. O argumento de que a arrecadação no Brasil é diferente da Europa é até aceitável. Sabe-se que, no Campeonato Brasileiro, os times ganham mais com direitos de transmissões das TVs do que qualquer outra coisa. Como você pode ver no gráfico abaixo, simplesmente ignorar o que o marketing pode te oferecer chega a ser um desrespeito. Não só para os cofres do clube, mas também com o torcedor, que fica esperando ações do time e nada aparece.

Gráfico mostra arrecadação de times do mundo | FOTO: SporTV e Deloitt

Gráfico mostra arrecadação de times do mundo | FOTO: SporTV e Deloitt

Em 2010, o presidente do Atlético-MG, Alexandre Kalil, chegou a dizer em alto e bom som que “marketing no futebol é coisa para vigarista” e mandou embora todo o departamento de marketing que o clube tinha. O argumento utilizado pelo cartola atleticano é de que já havia gasto mais de 3 milhões de reais com o pessoal e ainda não havia tido retorno algum. Completou dizendo que conseguiria fazer a função do departamento sozinho, sem os profissionais gabaritados para aquilo.

Três anos se passaram e pouco se vê de marketing ativo relacionado ao Atlético-MG. A loja oficial – antes da atual reforma – não havia nada de diferente além de roupas oficiais e os tradicionais brindes: chaveiros, canecas, enfeites e presentes. E a torcida do Galo exige mais do que isso. A massa alvinegra tem fome por novidades relacionadas ao seu time e consome tudo aquilo que chega às prateleiras. E até hoje Alexandre Kalil não chegou a perceber isso.

Recentemente, em congresso em Belo Horizonte, Esteve Calzada, assessor especial do Manchester City e membro durante cinco anos do Conselho de Merchandising do Barcelona, chegou a dizer que a Copa do Mundo no Brasil está dando a faca e o queijo na mão dos dirigentes aqui do país: “Com o mundial chegando e os estádios cada vez mais modernos, o atrativo do público está montado, basta criar estratégias de arrecadação. Além disso, com a economia brasileira em alta, faltaria apenas investir mais na profissionalização do futebol, e esperar um pouco mais de ambição dos empresários e marqueteiros”.

No começo do ano, o Atlético tinha de tudo para fazer sua tacada certeira. Era a hora de dar uma resposta aos seus torcedores que há alguns anos não via uma grande ação de marketing do clube. Alexandre Kalil foi até o Twitter anunciar o acordo com a Lupo. No contrato – e no papel – um grande trato: 25 milhões de reais em dois anos. Para os padrões do futebol nacional e fora do eixo RJ-SP, realmente bons números.

Acontece que, na prática, as coisas não andam muito boas. Vamos aos fatos: já chegamos em abril e não há nenhum torcedor atleticano usando o uniforme da Lupo nas ruas. O motivo? A empresa simplesmente não liberou as vendas ainda. O Atlético, como há muito não se via, fez uma excelente campanha no Brasileirão em 2012 e já entrou em 2013 sabendo que disputaria a Libertadores, coisa que não ocorria desde 2000. Era o momento do marketing do clube agir, criar diversas campanhas, lançar camisa especial, aproveitar a entrada da Lupo e montar toda uma divulgação diferente. Em outras palavras: arrecadar! Mas o que se viu até agora foi um completo amadorismo. A começar pelo atraso. A Lupo deveria entregar as camisas para o grande público no começo de março. Mas, de acordo com a própria empresa, precisou atrasar a entrega, pois o Atlético estava na iminência de trocar o patrocínio. Um mês se passou e só agora começaram a objetivar datas fixas.

Na semana passada, finalmente os torcedores puderam ter um respaldo oficial: as camisas chegaram às lojas! Mas nem tudo são flores. A expectativa oficial era de que o jogo de camisas oficial começaria a ser vendido no dia 1º de abril, segunda-feira próxima. Mas, de repente, as Lojas Centauro – com uma exclusividade ainda não explicada – abriu vendas em suas lojas física e virtual. Na física, o valor da camisa era de R$199,00; na virtual, R$169,00. Por qual motivo houve tanta discrepância nos preços? Por que a loja virtual é mais barata do que na loja física? Como a Centauro conseguiu essa exclusividade, sendo que nem a loja oficial do clube ainda começou as vendas?

Perguntas que provavelmente não teremos respostas. Mas a questão principal ainda está por vir. Já não bastasse a demora na distribuição das camisas, essas primeiras que apareceram à venda não estão padronizadas. Os clientes, apaixonados pelo time, logo perceberam falhas gritantes na padronização básica do desenho das camisas. Algumas estão com símbolo desalinhado, outras com falha nas listras (como você pode ver na imagem abaixo).

Na arara da loja, camisa do Atlético desalinhada | FOTO: Reprodução Twitter

Na arara da loja, camisa do Atlético desalinhada | FOTO: Reprodução Twitter

O certo é que a Lupo pisou na bola mais uma vez. E o Atlético-MG também. Não basta fechar um contrato de 25 milhões por dois anos se o serviço prestado é de péssima categoria. Alexandre Kalil, presidente e marqueteiro-interino do Galo, precisa entender que os torcedores são os maiores clientes do clube e devem ser ouvidos com total prioridade. A camisa de um time é o cartão de visitas em qualquer local que o torcedor pisa. Se tratando de um clube que está disputando a Libertadores e com um jogador de renome mundial como Ronaldinho Gaúcho, deslizes como esses não podem existir de maneira alguma em um time que se diz sério. Passou da hora do Atlético – e qualquer outro time grande – parar de brincar de futebol sem ter um departamento de marketing minimamente decente. Já são quatro meses sem entrar um centavo nos cofres em arrecadação de camisas. Algo que já poderia estar ajudando, e muito, no orçamento do clube.

Ronaldinho é outra peça que o Atlético poderia aproveitar mais, mas não faz. Parece que a direção ainda não tem a dimensão do quão ídolo R10 é lá fora. Uma rápida pesquisa por vídeos dele no YouTube, lendo os comentários, percebe-se o endeusamento que os torcedores de Barcelona, Milan e PSG nutrem pelo brasileiro. E agora, no Atlético, vem em ótima fase. Voltou a ser lembrado pela Seleção Brasileira e faz uma ótima exibição na Libertadores. Mas o que vimos de marketing em torno do jogador? Quase nada, para ser franco. Era o momento dele ser o garoto propaganda das novas camisas e fazer a diferença nas vendagens, não só em Minas, como no Brasil e no mundo inteiro. Por que não?

Em um levantamento recente do site Mercado Livre, o Atlético Mineiro apareceu na nona colocação dentre os times brasileiros que mais vendem camisas de futebol dentro do site, correspondendo 2,8% das vendas totais. Vale lembrar que o Mercado Livre não é um site de produtos em estoque. São usuários que vendem para outros usuários, ao estilo classificados. Mas os dados são reflexos da importância que a torcida do Atlético tem em relação ao seu próprio clube, que não está sabendo explorar essa vantagem.

Não precisa ser nenhum especialista para detectar essas falhas de gestão e divulgação. Basta ter senso crítico e uma capacidade de observação razoável. Para entender melhor a importância de se ter um departamento de marketing, fica abaixo duas indicações de vídeos para reforçar mais a ideia do quanto isso pode ajudar no orçamento de qualquer clube:

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Curte Campeonato Francês e é torcedor do Olympique LYONnais. Dono do único blog do Lyon no Brasil. Já foi colaborador do Jogo Aberto, blog do Lédio Carmona. Já foi colunista de futebol francês da extinta Revista Doentes por Futebol e do portal Os Geraldinos. Foi comentarista da Rádio Futebol Plus. Hoje em dia é editor chefe e sócio-fundador da Doentes Por Futebol. Participa do "Le podcast du Foot", podcast sobre futebol francês do colunista Bruno Pessa, do Portal IG. E é colaborador de futebol Francês no programa "[email protected]", da Rádio Globo SP.