Há solução para os deficitários Campeonatos Estaduais?

  • por Doentes por Futebol
  • 6 Anos atrás

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Por Francisco Cairoli  e Caio Feitosa

Diferentemente dos países europeus, o esporte bretão no Brasil cresceu de forma inversa. Em virtude das dimensões continentais, as disputas eram prioritariamente em campeonatos estaduais. Mesmo com a nacionalização do esporte e o fortalecimento das competições do país, por muito tempo estes torneios tinham enorme popularidade, devido principalmente às rivalidades locais.

A outrora relevante e charmosa disputa local perde força a cada ano e impede a evolução do nosso futebol, dificultando a sua comercialização televisiva em nível internacional – até pela dificuldade que os apreciadores do esporte em outros países têm em entender nosso sistema de competição. Além disso, os estaduais expõem os clubes a um desgastante e absurdo acúmulo de jogos, que somente é verificado no Brasil.

Além disso, os torcedores de clubes grandes, voltados para a Libertadores ou preocupados com o Campeonato Brasileiro, não se empolgam em assistir o estadual. Tal fato se reflete com públicos cada ano mais ridículos nos estádios (salvo algumas poucas exceções). A falta de público, somada a falta de premiações, cota de TV em um nível maior, resulta num completo desprezo da competição por muitos dos grandes clubes. O Atlético/PR, por exemplo, abdicou do estadual. Joga o Paranaense com o time de juniores, enquanto o time titular treina. O presidente do rival Coritiba, Vilson Ribeiro de Andrade, declarou publicamente que articula uma volta da Copa Sul com intuito de minimizar os prejuízos.

Mas os clubes menores não abrem mão da competição. As equipes interioranas fazem receita com a cota do estadual e as rendas dos duelos contra os grandes clubes em seu estádio. Fora a visibilidade do evento para o clube e a cidade. O temor desses clubes é a falência ou o ostracismo caso os estaduais acabem ou fiquem sem os clubes de maior expressão. Estas equipes que muitas vezes representam cidades ou regiões, além de ser um enorme celeiro de craques. O torcedor do time grande caçoa, menospreza, desdenha do estadual, inclusive apoia a decisão de seu clube mandar a campo, em várias oportunidades, uma equipe mista ou até totalmente reserva. Mesmo nas ocasiões em que são escalados os titulares, o nível de envolvimento com a partida quase sempre é baixo.

Para o torcedor de times maiores que estão apenas no estadual, resta a expectativa de observar algum possível reforço nos times pequenos. O adepto precisa aprender que o desempenho nos estaduais não é parâmetro para o resto da temporada. Os seguidores reúnem-se discretamente para acompanhar os jogos do seu time, sem alarde. Em caso de título, será uma comemoração tímida. Sabem que não é prudente criar grandiosas expectativas em torno de uma competição menor e miram um ainda longínquo abril para que comece a Copa do Brasil. Mais esperado ainda é o Campeonato Brasileiro, que só começa em maio. Os momentos de maior emoção ficam, mediocremente, reservados à penosa tarefa de “secar”, com todas as forças, o rival em competições de maior apelo.

Entretanto, mesmo sendo importante para os clubes mais modestos, já é notória a necessidade de reformulação das competições estaduais.

A Rede Globo (que detém os direitos de transmissão) demonstrou descontentamento com alguns clubes grandes por jogar com reservas no estadual. Existe uma real tendência de abaixamento de receitas (patrocínios, cotas de TV, etc) com o campeonato neste formato. Alguns mais radicais defendem até o corte dos estaduais do calendário, outros apenas uma redução de datas com um sistema de disputa mais objetivo. Mas é quase unânime entre os torcedores que os estaduais com quatro meses precisam ser alterados.

Para 2013, a CBF até promoveu significativas novidades, possibilitando as equipes nacionais participantes da Libertadores também disputarem a Copa do Brasil, o que não ocorria desde 2001. Trata-se de uma tentativa de recuperar a sucateada Copa Nacional, competição que contava com bem mais prestígio em décadas anteriores, quando abrigou memoráveis duelos. Contudo, a medida resulta na desvalorização da Copa Sul-Americana, possibilitando que times da segunda divisão possam representar o Brasil, em fórmula inédita. Embora ainda não tenha caído no apreço do torcedor, a Sul-Americana é potencialmente mais interessante do que os cansativos regionais, pois envolve título internacional e, ainda, vaga na Libertadores da América.

No entanto, torneios estaduais ainda possuem a magia de remeter a tempos mais leves, mais ingênuos, da flauta bem-humorada, quando não tínhamos partidas televisionadas e a perspectiva do torcedor alcançava um panorama bem mais limitado. Porém, a realidade hoje é completamente distinta, para o bem ou para o mal. Os clubes de alto investimento não se satisfazem com um mero título estadual, e nem poderiam. Hoje representa muito pouco, quase nada, nos principais centros.

Talvez o modelo alternado estadual/regional possa ser bom até para os clubes médios/pequenos. Além de possuir uma motivação a mais para o campeonato (ganhar a vaga no regional), uma primeira fase sem os grandes (e quem jogue o regional) permite que o estadual tenha até mais datas, garantindo um calendário maior até mesmo para clubes sem nenhuma divisão no futebol nacional.

Tanto que foi reimplementada a Copa do Nordeste, mas a competição não elimina as competições estaduais na região. Muito pelo contrário. Para conquistar vaga no regional é necessário ganhar vaga pelo estadual. Por este motivo, o Náutico não jogou o Campeonato do Nordeste em 2013, pois no Pernambucano ficou atrás do Salgueiro, mesmo o Timbu sendo um grande clube do Nordeste e representante único do estado na Série A 2013. Como o campeonato toma 12 datas que seriam dos estaduais, as federações acabam sendo obrigadas a fazer do campeonato estadual algo mais curto, animando torcedores dos grandes sem acabar com a tradição da competição ou excluir os clubes de menor porte.

Impõe-se que a CBF e os clubes comecem a partir em busca de uma solução, equacionando de maneira razoável o interesse de todos, buscando a valorização de seu próprio produto. Com a Copa do Mundo em 2014, o futebol brasileiro terá uma rara e valiosa oportunidade de rever seus rumos, podendo atrair investidores e maior visibilidade. E esse impulso passa obrigatoriamente por uma profunda reformulação do calendário, residindo o foco para a mudança da inconcebível formatação atual dos campeonatos regionais.

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