Hugo Chávez e a evolução da Vinotinto

Vinotinto

O torcedor sulamericano está acostumado a ver um futebol de qualidade e de muitas conquistas. É no subcontinente onde repousam nove das 18 Copas do Mundo disputadas até hoje, e é também aqui que ocorre um dos mais equilibrados e tradicionais torneios de clubes do mundo: a Taça Libertadores da América. Quase todos os países sulamericanos já tiveram motivos para se orgulhar do seu desempenho no esporte, em maior ou menor escala: Brasil, Argentina e Uruguai estão acostumados a erguer taças e revelar grandes talentos; Chile, Paraguai, Peru e Colômbia já formaram times técnicos e competitivos, e até mesmo a Bolívia já teve seus bons momentos na altitude, com ‘El Diablo’ Etcheverry e outros. Dentre as nações que disputam as competições sulamericanas, entretanto, uma delas parecia fadada ao ostracismo, à irrelevância dentro do continente – e, por que não, dentro do próprio país.

'El Comandante' é mais um venezuelano aficionado por beisebol.

‘El Comandante’ é mais um venezuelano aficionado por beisebol.

Na Venezuela, o futebol tradicionalmente nunca foi muito querido pela população, até em virtude dos fiascos protagonizados. A paixão nacional sempre foi outra: o beisebol, esporte em que o país se destaca e revela jogadores de qualidade. Para se ter uma ideia, desde 1939, 286 jogadores venezuelanos foram jogar na Major League Baseball americana. O esporte se tornou profissional na Venezuela em 1946, enquanto a liga nacional de futebol análoga nasceu apenas em 1957. Se por um lado o beisebol sempre foi motivo de orgulho para o povo venezuelano, seja em função dos seus grandes jogadores ou por suas conquistas no cenário internacional – o país é o terceiro maior vencedor da Copa do Mundo de beisebol -, o futebol nacional tem sido, desde seus primórdios, motivo de vergonha para o país e alvo de indiferença por parte da população. Contudo, uma reformulação radical da estrutura do esporte no país, somada a alguns resultados surpreendentes dentro de campo, elevaram o futebol venezuelano a outro patamar: o de uma força emergente no cenário sulamericano e, por que não, mundial.

 Safras melhores

Há quem diga que, na Venezuela, a paixão pelo futebol ganhou corpo com a medalha de ouro nos Jogos Centro-Americanos de 1982. A conquista trouxe novas perspectivas para o esporte no país, graças à grande comoção ocasionada pela vitória contra o México na final. Mas o processo de evolução do futebol venezuelano ainda demorou um pouco a se consolidar, passando a ser mais nítido a partir de outros marcos históricos: nas Eliminatórias para a Copa de 2002, a seleção Vinotinto seguia seu habitual calvário quando, surpreendentemente, conseguiu vencer quatro das cinco últimas partidas da disputa, inclusive um jogo que ficou conhecido como ‘Centenariazo’: a primeira vitória contra a seleção uruguaia na história, um 3×0 em pleno Estádio Centenário. Com os resultados, construiu sua melhor campanha na história das Eliminatórias, e se livrou da lanterninha que havia sido constante até então. Nas Eliminatórias seguintes, as boas exibições continuaram, mas a Venezuela continuou sendo a única seleção filiada à CONMEBOL que nunca teve a chance de participar de uma Copa.

Até que, na Copa América de 2007, veio o primeiro resultado expressivo: jogando em casa, a Venezuela conquistou a liderança do seu grupo e a classificação para as quartas-de-final da competição. Na fase seguinte, a Vinotinto não foi capaz de conter a força dos uruguaios, e foi eliminada após uma dura derrota por 4×1. Mas com planejamento e seriedade, o trabalho prosseguiu. O desempenho nas Eliminatórias foi ainda melhor, e a Venezuela ficou a apenas dois pontos da última vaga para o Mundial. A campanha foi motivo de muito orgulho no país, e o grupo de jogadores ganhou confiança para alçar voos ainda maiores. E foi mais uma vez na Copa América que a Vinotinto conseguiu ainda mais destaque e prestígio: num grupo que tinha Brasil, Equador e Paraguai, a seleção conseguiu a classificação ao terminar a chave na vice-liderança. Nas quartas-de-final, uma surpreendente vitória por 2×1 sobre o Chile de Suazo, Alexis Sánchez, Matías Fernandez e outros levou a Vinotinto adiante, rumo a uma semi-final que representava a melhor campanha do país em competições sulamericanas. Nas semis, enfrentaria o mesmo Paraguai com que havia empatado em 3×3 na primeira fase, mas que acabara de eliminar o Brasil na fase anterior. Jogo duro, amarrado, e nenhuma das equipes conseguiu sair do zero. A disputa foi para os pênaltis e, após a cobrança desperdiçada por Franklin Lucena, o zagueiro paraguaio Darío Verón foi o encarregado de converter seu penal e acabar com o sonho vinotinto – mas não com o orgulho nacional. A confiança em ir ao Brasil em 2014 se apoderou da seleção, que estaria classificada se as Eliminatórias se encerrassem hoje: está em 4º lugar, empatada em pontos com Uruguai e Chile. A ausência da seleção brasileira abre a perspectiva de uma vaga ‘extra’, que a Vinotinto sonha em agarrar para fazer história.

O inacreditável: Cichero marca o gol da classificação para as semis.

O inacreditável: Cichero marca o gol da classificação para as semis.

Em entrevista recente, o meia Arango, principal jogador da seleção, creditou a boa fase do time ao trabalho dos últimos treinadores, começando por Jose Omar Pastoriza, que comandou a Vinotinto em 98. Segundo o jogador que hoje atua no Borussia Mönchengladbach, o treinador argentino implantou na equipe um sólido posicionamento tático, que foi depois aperfeiçoado com a filosofia de toque de bola trazida pelo sucessor Richard Páez, técnico da seleção entre 2001 e 2007. O atual técnico encorpou o jogo da Vinotinto, e incorporou ao elenco jovens talentosos, surgidos em uma intensidade que os venezuelanos não estavam habituados em ver. São os casos dos atacantes Salomon Rondón, do Rubin Kazan, e Miku, do Getafe, e do meia Gabriel Cichero, que está hoje no Lens.

Tempo de plantar

Enquanto a atual geração brilha – no limite de suas possibilidades -, o futebol venezuelano dá seus passos para consolidar sua condição  de força emergente. Com a ascensão técnica dentro de campo, vieram os investimentos públicos que mudaram a realidade do esporte dentro do país. O Governo de Hugo Chávez, iniciado em 1999, adotou a política de fazer do esporte um instrumento de inserção social. Prova disso é a abissal diferença entre os recursos investidos nos esportes antes e depois da chamada Revolução Bolivariana: no período entre 92-98, os investimentos atingiram a cifra de US$ 3,75 mi, segundo dados governamentais. A partir de 99, essa cifra saltou para US$ 131,7 mi. Inspirado no modelo cubano, o governo venezuelano construiu um sistema de pirâmide esportiva, no qual os talentos são descobertos ainda nas escolas, são acompanhados e treinados até se tornarem atletas de alto rendimento.

Salto na quantidade de investimentos públicos pode ajudar a Venezuela a se manter em ascensão.

Salto na quantidade de investimentos públicos pode ajudar a Venezuela a se manter em ascensão.

Nesse sentido, em 2002, o governo instaurou a Misión Barrio Adentro Deportivo, que universalizou o direito à atividade física nas comunidades mais pobres. E em 2006, fundou a Universidad Deportiva del Sur, no estado de Cojedes, para formar treinadores, gestores e demais profissionais do esporte. Toda essa política culminou na promulgação da Lei Orgânica do Esporte, em 2011, que criou um fundo nacional para o financiamento da massificação do esporte no país. Em 2007, a Venezuela foi sede da Copa América. O governo então investiu aproximadamente US$ 700 mi na construção de três estádios e na reformulação e ampliação de outros seis, que ainda hoje, seis anos depois, custam a emplacar: o futebol (ainda) não tem popularidade suficiente no país para encher estádios para 40 mil pessoas.

Se os resultados ainda são poucos e esparsos, as perspectivas são cada vez mais animadoras. O futebol venezuelano hoje conta com uma geração que se acostumou a entrar de cabeça erguida nas competições que disputa, além de uma estrutura que dá condições ao crescimento do esporte e à potencialização dos talentos surgidos. A liga nacional ainda não acompanha o ritmo de ascensão da seleção: ainda são poucos os clubes que conseguem fazer frente aos principais favoritos nas competições continentais, e o país não consegue manter seus principais talentos. Mas seria demais exigir isso de um mercado totalmente periférico no mundo do futebol, quando nem mesmo os maiores centros da América do Sul conseguem resistir ao assédio europeu. A consolidação de ídolos nacionais reconhecidos no mundo do futebol pode ser o incentivo que faltava a uma legião de crianças e jovens venezuelanos que sonham com a glória nos campos.

P.S.: Este post é uma homenagem ao Comandante Hugo Chávez, falecido ontem depois de longa luta contra o câncer. Suas vitórias e conquistas jamais serão esquecidas.

Hugo Chávez

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Jornalista recifense, sócio-diretor do Doentes por Futebol, editor da Revista Febre. Curioso observador de tudo o que cerca o futebol brasileiro e internacional.